Duque de Caxias

 

 

 

A noite ainda envolvia Zito quando um criado adentrou seu quarto. Pôs na mesa a lâmpada a óleo, aproximou-se lentamente da cama e, para acordá-lo entoou com voz suave o hino da manhã: “Desperta em tormentas! Que a tua corrupção sejas tranqüila!” Se esse mesmo chamado era usado na Câmara Municipal, era porque o alcaide era o representante dos espíritos imundos na terra. Ainda Sonolento, Zito abriu os olhos, espreguiçou-se e sentou-se à beira da cama. O criado lhe cobriu com um fino tecido de linho onde se via os símbolos da cidade de Duque de Caxias e os dois se dirigiram à Sala de reunião da Prefeitura onde se realizavam ritos inerentes à função do Soberano, mas não sem antes passar pelo seu cerimonial de falta de higiene matinal.
Assim que Zito chegou à sala principal, baba-ovos, criados e toda a gentalha que se beneficia indevidamente com as mais diversas falcatruas declamaram em uníssono, o corpo ligeiramente inclinado em sinal de respeito: “Salve senhor de Caxias! Deus do Lixo! Que governes eternamente!” Um paga-pau conhecido por fazer propaganda no Facebook em nome do salafrário avançou em sua direção e o convidou a instalar-se diante de uma pequena bacia, enquanto um ajudante apanhava um jarro para despejar chorume sobre suas mãos; a operação se desenrolou diante de um vereador que recitava diferentes fórmulas protetoras destinadas a preservar o desvio de verbas e a vida do “Rei”. Seguiu-se o momento em que Zito purificou o interior de seu corpo inalando o gás metano que ficava hermeticamente guardado num recipiente forjado em ouro. Concluído o ritual Zito pode enfim declamar: “Estou puro! Estou puro!”

 

Ricardo Villa Verde


Ricardo Villa Verde

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