Cenas Cariocas: Notícias de uma guerra particular

Na pracinha onde fica a Igreja de Nossa Senhora do Pilar, construída em 1720, o dono da padaria já contratou milicianos

Por Alexandre Medeiros

Rio – Nem saiu a primeira fornada do dia e a padaria da pracinha do Pilar já está apinhada de gente. Muitos saíram de casa sem o café, e alguns levam a marmita do almoço na bolsa ou na mochila. Não rola aquele clima de fraternidade matutina que se vê em tantas padarias, o bom-dia para o português no balcão, o cafezinho passado na hora. O que há é um silêncio cúmplice, uma apreensão coletiva. Do outro lado da rua, o ponto de ônibus está vazio. São quatro da madrugada.

A padaria é um refúgio. Ninguém ali é freguês de cem gramas de mortadela, pingado, pão canoa na chapa. São trabalhadores que esperam o ônibus para levá-los do Pilar até a Rodovia Washington Luís, de onde embarcam em outros com destino ao Rio. Qualquer barulho de carro ou de moto lá fora deixa o clima pesado na padaria, que nem letreiro na fachada tem. A moça do caixa conta os minutos. “Tá demorando mais hoje, será que houve alguma coisa?”. Ninguém tem resposta.

O ônibus finalmente encosta no ponto, já passa um pouco de quatro e meia. Acostumado com a tática de guerra, o motorista buzina para confirmar que a área, aparentemente, está limpa. Como ratos fugindo da toca, os moradores saem da padaria em correria, atravessam a pista e embarcam, empurrando uns aos outros na escada do coletivo. Só querem sair dali o mais rápido possível, deixar para trás o medo. O motorista fecha a porta, dá a partida. Hoje não teve roubo no ponto da Praça do Pilar. Amanhã, quem sabe?

Na pracinha onde fica a Igreja de Nossa Senhora do Pilar, construída em 1720, o dono da padaria já contratou milicianos

Foto:  Carlo Wrede / Agência O Dia

Nem todos os pontos de ônibus da Avenida Presidente Kennedy, em Duque de Caxias, têm “abrigos” como o da padaria. Aliás, quase nenhum. Esses ficam à mercê dos bondes diários de homens armados, em carros e motos, que rastreiam toda a região que se estende do Lote XV, ainda em Belford Roxo, até Parada Angélica, lá para cima de Caxias, e ainda alcançam Santa Cruz da Serra, aos pés da subida de Petrópolis. O terror diário vai de três e meia às cinco e meia, quando os pontos de ônibus estão lotados.

“Eram dois, de moto. Apontaram pistola na minha cabeça e na da minha nora. Diziam ‘olha pro chão, não olha pra mim’. Tapa na cara. Arrancaram nossas bolsas e a mochila do meu filho. Tiraram celular, bilhete único e o pouco dinheiro que tinha. Eu nem ando com mais de R$ 20 agora. O ponto tinha mais gente, todo mundo paralisado. Quem é que vai se meter a correr? Pra tomar um tiro?”, lembra A., empregada doméstica e moradora da Taquara, bairro de Santa Cruz da Serra.

Os bondes de moto arrancam o que tiver de valor e jogam bolsas e mochilas no chão, ali mesmo, na frente do alvo. Já os bondes de carro levam tudo, e aí se vão documentos, fotos de família, amuletos da sorte, o que tiver. Alguns terrenos baldios e campos de várzea da área de Campos Elísios são usados pelos bandidos para fazer a triagem do material recolhido e viram “cemitérios” de bolsas e mochilas. Às vezes são bondes mistos, de carros e motos, fazendo um arrastão por onde passam.

O itinerário preferencial dos bandidos inclui as avenidas Presidente Kennedy, Anhangá, Automóvel Clube e do Pilar, as estradas da Capivara e Velha do Pilar, e as ruas internas de bairros como Barro Branco, Parada Angélica, Vila Araci, Imbariê, Parque São João, Jardim Imbariê, Parque Paulista, Taquara, Vila Capixaba, Parque Santo Antônio, Jardim Primavera, Parque Equitativa. Um mundo de gente trabalhadora que tem pouco, quase nada.
A.diz que, se “tivesse condições” alugaria um quarto “aqui na cidade” para passar a semana. “Tem muita gente que tá fazendo isso”. Tem outra “saída”, esta já circulando por vários bairros de Caxias: listas de grupos de milicianos pedindo um valor mensal de cada morador para deixar a área “limpa”. Alternativa que A. já está considerando: “Mas não seria essa milícia de matar, seria a milícia do bem, só para deixar a área segura”, ela acredita.

Os reféns do pavor às vezes registram nas delegacias. A diarista C., que já foi “limpada” três vezes, tentou fazer isso. Mas ouviu do policial da 60ª DP (Campos Elísios): “A gente não tem viatura pra ficar rodando atrás desses bondes. E nem um policial para cada morador”. Vendo que ia só virar estatística, C. fez um acordo com os patrões e agora sai mais tarde de casa: “Depois de roubada três vezes e de ainda ser esculachada na delegacia, tive que mudar.”

Segundo o ISP, as estatísticas de roubos a transeuntes vão de vento em popa na área do 15º BPM e das 59ª, 60ª, 61ª e 62ª DPs. Em outubro do ano passado, foram 485, passaram a 501 em novembro, e 515 em dezembro.

Na pracinha onde fica a Igreja de Nossa Senhora do Pilar, construída em 1720, o dono da padaria já contratou milicianos. Por isso virou “porto seguro”. Na época que a igrejinha foi levantada, havia ali um porto, às margens do Rio Pilar, com embarque de açúcar da região e de ouro para o Porto do Rio. A igreja servia como posto de observação para alertar sobre ataques de piratas e corsários holandeses e e franceses ao porto. Ainda está lá uma claraboia de vidro no alto da fachada. Mas os piratas modernos agem livremente.

http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro/2014-03-15/cenas-cariocas-noticias-de-uma-guerra-particular.html

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