DADOS BIOGRÁFICOS de SOLANO TRINDADE
Por Raquel Trindade

O CENÁRIO
No dia 24 de julho de 1908, no bairro de São José, Recife, Pernambuco, nasceu Solano.
Seu pai, Manoel Abílio, era filho de negra com branco, e sua mãe, Merença (Emerenciana), filha de negro com índia.
Pelas ruas de Recife avistavam-se bondes puxados a burro e a cidade ainda era iluminada com lampiões a gás. No bairro de São José, os vendedores perambulavam pelas ruas, cantando pregões que Solano guardou para sempre na memória:

“Ostra chegada agora
chegada agora, chegada agora”

” È doce, é doce o abacaxi
é doce, é doce e é barato”

” Pitomba, tomba não tomba
chora menino por um vintém
pede a papai que mamãe não tem”

” È mungusá, tá quentinho
o mungusá
está bom, ispiciá”

” Banana prata
maçã madurinha”

” Sapoti, sapotá
manga espada
manga rosa
Sapatinho Itamaracá”

” É a bolinha de cambará
Dois pacotes é um tostão”

À noite, os violões em serenata, os pianos das casas de família pequeno-burguesas, as brigas dos malandros.
O Recife de Solano Trindade tinha seus tipos populares: ” Minha Velha”, ” Uma Vez Só”, ” Lagartixa Barbada”, “Jacaré Sessenta”, ” Arara”, ” Mel com Água”, ” Buchecha”, ” Periquito”, ” Garapa”, ” Zuza”, ” Tobinha” e ” Canela de Aço”, ” O homem do Caranguejo” e a ” Freguesa das bonecas de pano”.
No Natal, o bairro de São José era Pastoril, Fandangos, Bumba-meu-boi, Presépio, Lapinhas e Mamulengos.

A INFÂNCIA
No carnaval, o moleque Solano maravilhava-se com o frevo: Vassourinhas, Pás Douradas, Lenhadores, Toureiros. Seu pai, “seu” Manuel, era apelido de ” Menino de Ouro”; nos dias de folga, dançava Pastoril e Bumba-Meu-Boi e levava Solano para ser ( talvez seja por isso que Solano amava tanto o nosso folclore).
Sua mãe era analfabeta, porém, muito inteligente, pedia a Solano que lesse para ela fascículos de novelas de capa e espada, histórias de princesas, literatura de cordel e poesia romântica.
Solano era beiçudo e ” seu ” Gregório zombava:

” Oh meu Deus
Matai o Solano
Este negro feio
De beiço grande”.

Sua infância tinha mula sem cabeça, alma de outro mundo, mascarados. Eram os mistérios, sonhos e fantasias que acompanhariam por toda a sua vida.

O INÍCIO DAS ATIVIDADES CULTURAIS
Solano Trindade estudou no Liceu de Artes e Ofícios, fazendo somente o então denominado propedêutico ( o curso médio de hoje).
Em 1935, casou-se com Maria Margarida. Até 1940, foi diácono presbiteriano. Nessa época, seus poemas eram místicos e uma revista do Colégio 15 de Novembro, de Garanhuns, publicou suas primeiras poesias que falavam do Gólgota, de Tiago e de João Evangelista. Depois tornou-se socialista e veio a fase da poesia negra.
Em 1936, fundou a Frente Negra Pernambucana e o Centro de Cultura Afro-Brasileiro com o pintor Barros ( O Mulato), Ascenso Ferreira e o escritor José Vicente Lima. O Centro de Cultura Afro-Brasileiro tinha por objetivo, entre outros fins, divulgar os intelectuais e artistas negros. Dessa maneira, foram publicados os seus ” Poemas Negros”. Numa das publicações do Centro de Cultura, lia-se:
Não faremos lutas de raças, porém ensinaremos aos irmãos negros que não há raça superior, nem inferior, e o que faz distinguir uns dos outros é o desenvolvimento cultural. São anseios legítimos a que ninguém de boa fé poderá recusar cooperação“.

MINAS E RIO GRANDE – O POETA PROCURA O SEU LUGAR
Solano sai para Belo Horizonte e depois para Pelotas, Rio Grande do Sul, onde fundou em 1940, junto com o poeta Balduíno de Oliveira, o Grupo de Arte Popular. Foi sua primeira tentativa de criar um teatro do povo, porém frustrada devido a uma enchente que carregou todo o seu material, fazendo-o retornar para o Recife.

RIO DE JANEIRO – EIS O POETA, O SONHO ESTAVA POR SE REALIZAR
Em 1942, Solano Trindade estava no Rio de Janeiro, na cidade de Caxias. Naquela época, reuniam-se no bar “Vermelhinho”, na Rua Araújo Porto Alegre, em frente à A.B.I., jovens poetas, legião de intelectuais, artistas de teatro, escritores, políticos agitados e jornalistas, que vinham dos mais distantes lugares do país.
Solano tornou-se uma figura popular do Vermelhinho. Carregava uma pasta cheia de poemas, de planos sobre movimentos artísticos e sonhos e declamava para seus amigos: ” Não disciplinarei minhas emoções estéticas: deixá-las-ei à vontade, como o meu desejo de viver…”
Nessa época, editou o seu livro “Poemas D’uma Vida Simples”. Seu poema “Tem Gente com Fome” fez sucesso nos meios literários.
Ligou-se à pintora Djanira, a Ferreira, Oscar Meira, Fernando Fan, Milton Ribeiro, Aldemir Martins, Barbosa Leite, Bruno Giorgi, Grande Otelo, Pascoal Carlos Magno e Antonio Bandera.
Já desenvolvendo seus dotes de pintor, participou, em 1942, de uma coletiva, sendo seus quadros vendidos ( pela primeira vez) ao Secretário do Governo da Venezuela e a ingleses da África do Sul.
Em 1945, fundou o Comitê Democrático Afro-Brasileiro com Raimundo Souza Dantas e Custódio Corsino Brito.
Juntou-se a Haroldo Costa para formar o Teatro Folclórico Brasileiro. Daí, sairia, em 1949 a famosa ” Brasiliana”. Com a entrada do diretor Askanasi. Solano se afastou porque o grupo estilizou-se e perdeu sua autenticidade.
Em 1950, junto com sua esposa Margarida Trindade ( coreógrafa e terapeuta ocupacional) e o sociólogo Edson Carneiro, transformou um dos seus sonhos em realidade, fundando o Teatro Popular Brasileiro (“pesquisar na fonte de origem e devolver ao povo em forma de arte“).
O T.P.B. fazia uma autêntica arte popular e seu elenco era formado de domésticas, operários, estudantes e comerciários.
Em sua casa em Caxias, foram dados os primeiros espetáculos que atraíam para lá embaixadores, artistas, jornalistas e todos os tipos de intelectuais. Nas festas, encontravam-se Antonio Bandeira e Jean Louis Barrault, Aladir, Augusto Rodrigues e Aníbal Machado.
Solano iniciava o espetáculo: Batuques, Lundus, Jongos, Samba Carioca, Pastoris, Bumba-Meu-Boi, Chegança, Guerreiros de Alagoas, Folia de reis, Baião, Candomblé, Dança das Fitas etc.
O T.P.B. realizou espetáculos especiais para companhias estrangeiras como ” Comedie Française”, ” Cia. Marcel Marceau”, ” Cia. Madeleine Renault-Jean Louis Barrault”, ” Ópera de Pequim”, ” Cia. Italiana de Comédia”, e para personalidades como Edite Piaf, Jean Sablon etc.

VISITA A SÃO PAULO E SUCESSO NA EUROPA
Em 1954, veio para São Paulo pela primeira vez para, com o Teatro Popular Brasileiro, participar das comemorações do IV Centenário da cidade.
Em 1955, sempre com o T.P.B., Solano viajou para Europa. Deu espetáculos de cantos e de danças e entrevistas na televisão. Participou do Concurso Internacional de Danças Populares e ganhou medalha de ouro. Apresentou-se em estádios para platéias de 2 e 5 mil espectadores. Exibiu-se em oito cidades da Polônia e treze cidades da Tchecoslováquia.
Na Europa, foram filmadas as danças para o documentário ” Brasil Danças”.
De volta para o Rio, Solano Trindade, com o seu T.P.B., se apresentou nos teatros João Caetano, Carlos Gomes, República, Municipal do Rio, no estádio de Niterói, em faculdades, na televisão e em clubes (Fluminense, Cabiras, Sociedade Hípica etc.). Para Silveira Sampaio, em ” O país dos Cadilacs”, Solano forneceu todo o material folclórico, coreógrafo e musical. Em “de Pedro a Pedro” coube a Margarida Trindade, uma das fundadoras do T.P.B., ensinar o Jongo e o Bumba-Meu-Boi.
Separou-se de Margarida e começou a amar Dione.
Realizou espetáculos em São Paulo para o ” Balé Espanhol”, ” Balé Mexicano” e ” Balé Negro Americano”.
Em 1960, publicou seu livro de poemas ” Seis Tempos de poesia”.
No Teatro Aliança Francesa, apresentou o espetáculo ” Sambalelê tá Doente”.

A VOLTA A SÃO PAULO
Em 1957, Solano estava novamente em São Paulo. Sua poesia tinha uma aguda consciência de classe, mas sem ódios.
Participou com integrantes do T.P.B. da peça ” Gimba”, de Gianfrancesco Guarnieri, no Teatro Maria Della Costa.
Separou-se de Margarida e começou a amar Dione.
Realizou espetáculos em São Paulo para o ” Balé Espanhol”, ” Balé Mexicano” e ” Balé Negro Americano”.
Em 1960, publicou seu livro de poemas ” Seis Tempos de poesia”.
No Teatro Aliança Francesa, apresentou o espetáculo ” Sambalelê ta Doente”.

 

EMBU – O ARTISTA NA TERRA DAS ARTES
Em 1961, Solano conheceu o escultor Assis, que o convidou para ir para Embu das Artes ( além de Assis, já estavam lá o Sakai, a Azteca e o Cassio M’Boi).
Solano foi com todo o elenco do T.P.B. e se apaixonou por Embu, sua terceira cidade.
Começou então um movimento seríssimo. O T.P.B. poderia ” mostrar, incentivar e desenvolver as artes populares tradicionais do povo brasileiro, a dança, a música, a escultura, a pintura, a poesia e todas as manifestações folclóricas” ( palavras de Solano).
Solano deu espetáculos no Embu e começou a atrair multidões de turistas para aquela cidade colonial. O Embu foi ficando conhecido no mundo inteiro, atraiu outros artistas plásticos e, com eles, os colecionadores de arte.
Em 1962, Solano editou, pela editora Fulgor o seu livro “Cantares ao meu Povo”(para falar ao povo numa linguagem em que ele entenda) . E deixou Dione para amar Lycia ( a baiana).
Em 1965, chateado com os ” picaretas” e a comercialização que começa a aparecer no Embu, Solano foi morar na Vila Sônia, depois no Ferreira ( bairros da periferia de São Paulo) . Voltou dois anos depois a convite do antiquário Marcos Mariano.
Sua casa transformou-se num verdadeiro núcleo de arte.

 

MISSÃO CUMPRIDA
Em 1969, Solano começou a adoecer, estado que se agravou em 1970 com a morte de sua baiana Lycia. Em 1971, a arteriosclerose já estava num estado bem adiantado e Solano era cuidado por sua filha, a pintora Raquel, e pelo escultor Vicente de Paulo.
Em 1973, Raquel foi para o Rio e pediu à sua mãe, Margarida, que levasse Solano para o Rio também. Margarida transportou-o para sua casa de Jacarepaguá. Solano então contraiu uma pneumonia e foi internado por Margarida e sua filha Godiva em uma clínica de Santa Tereza, onde faleceu, sendo enterrado em Jacarepaguá.

O ESPETÁCULO CONTINUA
Em Embu das Artes, o Teatro Popular Solano Trindade, dirigido por Raquel Trindade e Vitor Trindade, continua a apresentar os espetáculos de danças e cantos que tanto notabilizaram o seu grande criador, Solano Trindade.

Fonte: http://franciscosolanotrindade.blogspot.com/


heraldo hb

. Animador cultural, escritor e produtor audiovisual nascido no século XX. .

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