Toninho Café em CaxiasA notícia não é tão recente, mas só chegou ao meu conhecimento por esses dias. Morreu o cantor e compositor mineiro Toninho Café, em dezembro passado, na França, onde morava desde o início da década de 80. Segundo contam, Café teria cometido o suicídio. Contudo, nada se sabe sobre seu sepultamento, nem as razões que o teriam levado a apelar para o chamado “extremo gesto”. O artista deixou um disco antológico, lançado pela Continental (1978) e mais dois ou três compactos (com duas canções cada). Mas registrou seu talento como compositor, vocalista e instrumentista, participando de dezenas de gravações, a exemplo do álbum Baiano e os Novos Caetanos, de Chico Anysio e Arnaud Rodrigues.

Nascido Antonio Carlos de Jesus, em Belo Horizonte (1950), Toninho Café veio para o Rio em 1971, buscando dar sequência à carreira musical, iniciada em sua terra. No então Estado da Guanabara, tornou-se cantor da noite, atuando na extinta Boate Drink. Pra garantir a sobrevivência, foi exercer uma atividade burocrática no clube Botafogo, na Rua General Severiano. Entre o clube e a boate, o violão – seu principal parceiro na composição de canções que, em breve, seriam mostradas ao público carioca.

Em 1973, juntou-se à banda Massa Experiência (Aldemir Duval, baixo; Paulo Romário, piano; Marçal, guitarra; Gigante, percussão; e Roberto, bateria), galera de Caxias que já começava a se apresentar nos circuitos alternativos do Rio. Com a Massa, Toninho Café fez shows memoráveis nos teatros Tereza Rachel, Cachimbo da Paz, Opinião e João Caetano, no Rio, além do Teatro Marília, em BH. Lembro-me que suas músicas, carregadas de certa mineirice, causavam impacto. As letras falavam de Ouro Preto e “licor de pequi”, mas também de “pax armata, oposta misere in nobis mundi” (Voândola, dele e Mário Margutti). Já nesse tempo, sua voz era inconfundível, interpretação marcante e as canções tinham a sua cara.

O passo seguinte foi sua parceria com Arnaud Rodrigues, humorista já bastante popular à época, que pretendia se lançar também como cantor. Juntos fizeram várias músicas, sendo que uma delas, Nega, foi o carro chefe do disco, lançado em 1974. A Aranha, outra composição deles, foi sucesso na voz de Vanusa, pouco depois.

A fim de se preparar pra fazer aquele que viria a ser seu disco definitivo, Toninho Café veio se refugiar em Caxias, indo morar na casa de um de seus parceiros, o baixista Aldemir Duval – Vila São José. Ali, compôs sozinho Chapéu de Palha Viola e Navalha; com Aldemir, Ao São Francisco; com Mário Margutti, Espadas Cruzadas; e, entre outras, Oremos, que no disco virou uma obra prima, com o nome de Vitória Régia e letra do Margutti.

O disco saiu em 1978, pela gravadora Continental, que já estava pelas tabelas desde a dissolução do Secos e Molhados, poucos anos antes. Sem a divulgação merecida, a crítica pouco se pronunciou e das únicas rádios que tocavam alguma das músicas era a JB/AM. Mesmo assim foi um trabalho primoroso, desde a capa aos arranjos. Estão ali o compositor mais amadurecido, o intérprete seguro e a criatividade que orientou toda a produção do trabalho.

No início da década de 80, Toninho Café foi pra França. Desde então, só o revi uma vez, durante uma manifestação pública no centro do Rio. Estava de passagem. Voltaria à Europa dali a alguns dias. Chegara a gravar algumas coisas por lá, como CD Le Top du Brésil , do qual participa com 2 composições, vocais e violões.

Vários anos mais tarde, um amigo comum que viera daquelas bandas, contou que o cantor tinha se envolvido com movimento de drogas e que se achava preso, num presídio francês. Da última vez que tive notícias, ele já estava em liberdade, só que já não compunha ou cantava, mas agenciava um grupo de artistas que viajavam pelo interior da França. Agora, fico sabendo que Toninho Café se foi. Deve se juntar a Marçal, Roberto, Paulo Romário e Gigante, seus antigos companheiros da Massa Experiência, que também já foram, e o show recomeça. Até porque, não vejo nenhum sentido se não for assim.

 

[Nota da Lurdinha: o vídeo do youtube não pode mais ser incorporado, a pedido de quem o enviou… Chato isso. Mas segue o link da música: http://www.youtube.com/watch?v=r4PKaVrGisw ]

Outra:

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O show de Café em Caxias
A passagem de Toninho Café por Caxias durou cerca de um ano e meio (1975/76). Mas podemos concluir que foi um período proveitoso pro artista. Sua meta era o álbum, para o qual já preparara várias músicas, entre elas Estrela do Silêncio, com Mário Margutti, e Luar Cheio, com Aldemir Duval, que não entrou. Paralelamente, vinha tocando outros projetos. Fez um jingle comigo, para uma concessionária de veículos, e retomou a parceria com Arnaud Rodrigues, tendo em vista um novo disco dele com Chico Anysio. E tinha a idéia de um show no Teatro Municipal Armando Mello, que rapidamente tomou corpo.

Tudo muito simples. Seriam ele (voz e violão), Aldemir (baixo) e Almir Duval (percussão). Tão sumária quanto a banda era a produção executiva, formada por Maurício Mamede e Mariinha Amaral de Pinho, com quem eu era casado na época. Acabei ficando com a parte de divulgação. Apesar de todo o empenho dos envolvidos com o espetáculo, ele foi um fracasso de público. Sábado e domingo, tocando pra vinte e poucas pessoas. Agora, mesmo assim o show foi ótimo, pela qualidade do trabalho.

Desse show, aliás, guardo um episódio curioso, que serve pra mensurar o grau da capacidade do ser humano de ser cara-de-pau.

Na noite da estréia, marcada para as 20h, até as seis e meia da tarde não havia aparecido nenhum funcionário municipal, para nos dar um suporte. Não havia ninguém na bilheteria, muito menos quem recebesse os ingressos à entrada. Marquei um tempo na portaria, pra pelo menos dar alguma informação a quem chegasse. Não mais que de repente, me pinta um negrão comprido, de calça jeans por dentro dos coturnos marrons, de paraquedista, e camiseta justa, exibindo os músculos bem delineados. Alisou a cabeça pelada à máquina e me “impôs” um diálogo bastante surrealista.
– Que horas começa o show? – quis saber.

– Oito horas.

– Quanto custa o ingresso?

Respondi alguma coisa em torno de 10 reais, na moeda da época.

– Mas eu também pago pra entrar?

Expliquei que sim e acrescentei, pra ser bem claro:

– Se a minha mãe chegar aqui sem grana e quiser entrar, eu pago o ingresso dela, mas de graça a velha não entra.

– Mas até eu tenho que pagar???

– ???

– Já vi que você não está me reconhecendo. Mas vai lembrar agora mesmo, quer ver?

Daí o cara se perfilou todo, juntou as mãos cruzadas sobre o peito e desandou a cantar:

– “Mas um ano se passoou/e nem sequer ouvi falar seu nome…”.

 

Explico. No ano de 1976, um dos lançamentos musicais de maior sucesso foi A Lua e Eu, do Cassiano. E pelo que eu estava entendo, tinha diante de mim aquele 171, querendo se passar pelo autor de Primavera. O que ele não sabia (e eu não quis explicar) é que eu conheço Cassiano desde os tempos dos Diagonais, banda com que gravou suas primeiras músicas (já com acentuada influência soul), ainda nos anos 60. Além do porte físico, que em nada se assemelhava ao compositor, sua voz não agradava. E o sorriso… Sim, tinha o detalhe do sorriso. Cassiano tem (ou tinha) os dentes exageradamente separados um do outro, dando-nos a impressão de só possuía 16 dentes, pois os 32 que couberam a todos os mortais, sua boca não comportaria. Em resumo, quem já viu Cassiano sorrindo jamais irá confundi-lo com ninguém.

Mas não abri nada disso pro cara. Deixei que ele prosseguisse em sua viagem.

– “Quando eu olho no espelho/estou ficando velho e acabado…”.

Terminada a canção, ele abriu os braços, deu um sorriso e perguntou:

– E então? Já tá sabendo quem sou eu?

E eu, pagando na mesma moeda:

– Sim, claro. Você é o Cassiano.

O negrão repetiu gesto e sorriso, e mandou a pergunta que (ele achava) seria o final feliz da história:

– E aí, ainda preciso pagar?

– Vai pagar sim, Cassiano. Você está com um disco novo tocando o dia inteiro, tá descolando uma graninha responsa, precisa ajudar Toninho Café a gravar seu disco também.

Não me respondeu mais que um simples…

– Bem, já que o show começa às 8, vou dar um rolé e depois volto aqui.

E lá se foi, caminhando lento, naquela ginga toda própria desse tipo de “malandro”.

 

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eldemardesouza@hotmail.com

 

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