Poucas pessoas sabem, mas a ideia de Esquerda X Direita remete-se aos tempos da Revolução Francesa (1789-1799). Naqueles tempos, o Parlamento francês se organizava entre os Girôndios, os Moderados e os Jacobinos. Em geral, o Parlamento era crítico ao sistema de monarquia absoluta da véspera da Revolução. Mas, os que se sentavam à Direita do Parlamento, os Girondinos, um grupo formado por banqueiros, grandes industriais etc defendia um rompimento com a monarquia, mas sob o controle daqueles que detinham as fortunas (capital). Em contrapartida, os intelectuais, os trabalhadores pobres etc eram representados pelos Jacobinos, que se sentavam à esquerda do Parlamento. Esses tinham uma posição política mais radical, defendiam que o governo francês precisava fazer uma ruptura mais agressiva, de forma que os mais pobres também tivessem os mesmos direitos que os mais ricos.

Do ponto de vista econômico, considerando apenas o modelo capitalista, a ideia de direita e esquerda está baseada nas ideias de dois importantes economistas. O primeiro é o liberal (direita) Adam Smith (1723-1790) que defende uma economia sem a intervenção do Estado, isto é, o mercado (oferta e demanda) seria capaz de controlar a sociedade e seus interesses econômicos. Essa ideia perdurou no mundo capitalista por todo o século XIX e o início do século XX. Até que tivemos o crach da Bolsa de Nova York (1929). Os anos que se seguiram foi de uma grande depressão econômica. As empresas faliram, os empregos sumiram. O abastecimento ficou comprometido. É desse período que surge uma outra tese econômica de John Keynes (1883-1946). Em linhas gerais, Keynes defendeu a intervenção do Estado na economia, uma vez que o livre mercado provocou a grande recessão de 1929. Nesse sentido, as grandes obras públicas, por exemplo, demandaram empregos, com salários, os operários puderam consumir, o que produziu demanda para indústria, agricultura etc. Isso se repetiria para além do setor de infraestrutura, mas também de Educação, Saúde, Transporte etc.

Em tempos atuais, o Liberalismo (direita), por exemplo, defende que não seria necessário o Sistema Único de Saúde (SUS). Cada um de nós seríamos responsáveis por pagar nossos planos de saúde e quando estivéssemos doentes, nos encaminharíamos para a rede hospitalar do plano. O SUS seria uma intervenção do Estado. Isso é inaceitável para o Liberalismo. O problema é que nem todo mundo pode pagar um plano de saúde. De acordo com o Liberalismo, quem não pode pagar um plano de saúde não tem direito a ficar doente. Recentemente, eu fiquei doente. Mesmo sem poder, eu pago plano de saúde para mim, a minha esposa e minhas filhas. Eu fui bem atendido. Contudo, ao mesmo tempo, duas pessoas da minha família passaram por problemas de saúde que requeriam cirurgia imediata. Porém, nenhuma das duas pessoas têm plano de saúde. Elas foram atendidas pelo SUS. Pela intervenção do Estado que a direita quer acabar. A contradição nisso tudo é que algumas pessoas da minha família estão dizendo ser de direita, mesmo que não tenham como pagar um plano de saúde.

Então, ser de direita ou de esquerda vai muito além de memes e postagens de facebook. Ser de direita ou de esquerda não é a mesma coisa do que ser Flamengo ou Vasco; Corinthians ou Palmeiras. Ser direita ou ser de esquerda interfere diretamente nas nossas vidas. Nós podemos ser o que quisermos ser. Contudo, se sou pobre e não posso pagar um plano de saúde, uma universidade ou ter carro do ano e defendo um modelo de não intervenção do Estado, eu estou, na verdade, defendendo os interesses dos grandes industriais, dos banqueiros, etc. Não se iludam! Essas pessoas sempre estiveram no poder e jamais se importaram com a condições de vida dos trabalhadores mais pobres.

Nielson Bezerra