O tempo é Rei, disse um, ou já disseram vários sábios. O distanciamento nos proporciona de fato não apenas uma visão menos parcial, ou apaixonada dos fatos. Como também nos dá a chance de descobrir coisas inusitadas que só acontecem em decorrência de certos fatos.

Essa breve introdução me ajuda a organizar, mesmo pra mim, o que Alemanha, Suécia, Inglaterra, Brasil e Chile podem ter em comum quando pensamos no binômio Ditadura (civil militar) e Hip-hop.

Curiosamente, na Era das Ditaduras que assolaram a América Latina a tal da Cultura Hip-hop nem existia. Mas a política era assunto na ordem do dia de grande parte da população. Pessoas de diferentes origens e classes sociais se engajaram na luta contra os ditadores e, de acordo com o nível deste engajamento, sofreram também represálias macabras.

Entre tortura e o mais direto assassinato alguns envolvidos na luta política conseguiram segurança apenas refugiando-se em países estrangeiros, e esse foi o caso de um casal fundamental para esta nossa estória. Ela chilena, ele brasileiro, cada qual vítima da intransigência da Ditadura de seu país, conceberam em meio ao ambiente traumático do exílio uma menina chamada Yarah.

 

“Eu nasci de vários mundos diferentes, eu nasci de vários lugares diferentes, então eu abraço o que vale a pena neste mundo, porque eu nasci de lugares diferentes”

Trecho de “Freedom Fighters”, faixado disco “Good girls rarely make History”

Yarah Bravo começou cedo suas andanças pelo mundo. Saída da Suécia para Londres conheceu o produtor russo DJ Vadim e assim começou a história do One Self, projeto musical com qual os dois literalmente rodaram o planeta, foram mais de 600 shows. Vivendo atualmente em Berlin (celebrada por muitos artistas como a capital com custo de vida mais baixo da Europa) Yarah trabalha na divulgação de seu primeiro disco solo “Good girls rarely make History” (Boas meninas raramente fazem História).

Um disco de Rap legitimamente feminino, onde Yarah expõe suas interpretações do amor de forma muito particular (e mais respeitosas do que a maior parte do mundo Pop o faz), e narra com sutileza à história de seus pais (como na canção “Freedom Fighters”). Musicalmente o disco passeia com habilidade entre Rap e Soul e conta com algumas dedicadas produções de DJ Vadim. E dispõe inclusive de alguns trechos belamente cantados em espanhol, como em “Agujitas”.

Impossível dizer se Yarah se tornaria o que é caso tivesse nascido e crescido no Brasil ou Chile, o fato é que a ouvindo ou assistindo em ação é possível sim a imaginar como uma das milhares de meninas suburbanas que lotam o Baile Black do Viaduto de Madureira todos os finais de semana. E se Yarah ainda não o fez, deveria experimentar a pedida em sua próxima passagem pelo Brasil.

Ouça, saiba mais em:

http://soundcloud.com/yarah-bravo