Não sei exatamente quando foram iniciadas as obras para a construção do Edifício 25 de Agosto. Sei apenas que, antes dele, ali funcionava um parque de diversões. Acredito que as obras tiveram início lá pelos fins dos anos 40 ou início dos 50. Mas isso não é tão importante assim. Fazia (e ainda faz) esquina com a Plínio Casado e a Joaquim Lopes de Macedo. Era um edifício moderno, bem acabado, com três andares, muitos apartamentos e lojas. Porém o que nele mais chamava atenção era a sua enorme galeria em forma de L. Duas coisas desse local ficaram gravadas na minha memória. Uma acontecia no carnaval, isto é, o encontro de blocos dentro da referida galeria. Ali, quando um bloco se encontrava com outro ,saía um tremendo “pau”, o corre-corre era geral, mas sem mortos e com poucos feridos.
Eu, na crueldade natural de adolescente, ficava da sacada do nosso apartamento torcendo para que os blocos se encontrassem dentro da galeria. Queria ver, de camarote, o corre-corre. A outra coisa que me impressionou profundamente foi uma exposição de artes plásticas realizada numa loja que ainda estava desocupada . Ela fora organizada por Barboza Leite, juntamente com o pessoal do jornal “Grupo”. Talvez o jornal mais consciente que circulou no município. Essa exposição foi, sem sombra de dúvidas, a mais importante já realizada em Caxias. Dela participaram artistas internacionalmente consagrados. Era um timaço, artistas para crítico nenhum botar defeito. Claro está que, quase tudo foi arranjado por Barboza Leite. Trabalhando no IBGE, fazendo “free lancer” em grandes jornais cariocas, freqüentando o Vermelhinho e o Amarelinho, Barboza tinha livre trânsito entre a intelectualidade da Capital Federal.
Mas o Edifício 25 de Agosto teve outros momentos grandiosos, por exemplo, quando João Goulart visitou, se não me engano, a sede do PTB, ou algum correligionário que ali tinha escritório, não sei exatamente. Sei, entretanto, que vi Jango manquejando pelos corredores do meu prédio, acompanhado de um montão de gente. Nele morou o publicitário e depois deputado estadual Zoelzer Poubel e, também, Pereira da Silva, “o tenor campista”. Pereira da Silva era um homenzarrão de muitos quilos e dono de uma voz que fazia estremecer as paredes do sólido prédio. Descia as escadas rapidamente, calçado com chinelos, trazendo uma bolsa de feira na mão e cantando a plenos pulmões. Era bonito ver a alegria que brotava daquele homem que, apesar de obeso, tinha uma incrível agilidade. Outro ilustre morador do 25 de Agosto era o dentista José Lustosa, autor do primeiro livro sobre a história do município. Além de morador, Lustosa tinha o seu consultório ali instalado. Eu era amigo do Avelino – um dos filhos do dentista-historiador – e com ele saía sobraçando alguns volumes do “Cidade de Duque de Caxias”, que tentávamos, sem sucesso, vender de porta em porta. Mas naquele momento ninguém estava interessado em saber da história de uma cidade de origem obscura, cujo passado deveria ser esquecido e não lembrado. Será que um lugar pobre, sem graça e cheio de vícios, mereceria ter história? Poucos acreditavam. Quando oferecíamos o livro com suas 275 páginas em papel couché e bem ilustrado, no máximo as pessoas davam uma olhadela rápida em algumas fotografias e nos devolviam a obra acompanhada de um não. Em alguns casos percebia-se a ironia estampada no sorriso do possível comprador. Hoje, curiosamente, o livro de José Lustosa, agora esgotado, é disputadíssimo entre aqueles que desejam estudar o passado daquela cidade que parecia não ter história. O jornal Vector, publicação de estudantes progressistas, que tinha em Antõnio Carlos Meritello um de seus fundadores e editor, também tinha sede no 25 de Agosto.

Da minha janela, ou melhor, da sacada do meu apartamento, não se via o Corcovado nem o Redentor, mas se descortinava a estação ferroviária e a feira de domingo. Dali eu podia acompanhar o movimento dos trens e passageiros que, num vaivém alucinante, circulavam pelas plataformas, escadas e roletas.

Pela manhã, em especial, o pátio da estação ficava superlotado, com pessoas que, na ânsia de conseguir um lugar na desconfortável composição, nem mesmo esperavam que ela parasse. Aos “trancos e barrancos”, a massa humana era “sugada” para dentro do trem. Entrava-se, inclusive, pelas janelas. Era um triste espetáculo. Não faltavam empurrões, cotoveladas e tropeções, tudo devidamente acompanhado de gritos e palavrões. Era um “salve-se-quem-puder”. Mas toda essa tropelia, para se conseguir um lugar sentado, pouco adiantava, pois o trem já chegava lotado, com pessoas que embarcavam em Lucas e Vigário Geral.

Repleta, a composição – formada por meia dúzia de vagões de madeira, puxados por uma locomotiva a vapor – ficava aguardando a ordem de partir para Barão de Mauá. Liberada pelo agente da estação, a velha “maria-fumaça”, resfolegando, silvando e apitando, aos poucos tomava velocidade. Nesse momento uma cortina de fumaça negra, expelida por sua chaminé, nublava as imediações da estação ferroviária. Era a hora em que, se maldizendo, minha mãe, munida de vassoura e esfregão, vinha limpar a fuligem que a infernal máquina arremessara sobre a nossa varanda.

Vez por outra, um acidente, algumas vezes fatal, quebrava a rotina da estação. As freqüentes greves também eram motivo de apreensão para aqueles que necessitavam dos serviços da Leopoldina. Quando uma paralisação era deflagrada, a polícia imediatamente aparecia para conter os ânimos dos mais exaltados. Isso porque os ferroviários eram politizados e atuantes. A população que dependia dos trens, inconformada com a interrupção dos serviços da empresa, partia para o quebra-quebra.
Nesse momento a atuação de Batistinha era fundamental para o sucesso das reivindicações dos ferroviários.

Tive bons amigos no 25 de Agosto: Antônio Carlos Menezes, Quinzinho, Luís Índio, Afonso Jorge Costalonga, Vadinho, Paulinho do Violão e Avelino. O velho prédio ainda está lá, firme e forte, aparentemente com seus apartamentos e escritórios desocupados. Apenas as lojas estão funcionando. Uma parte da galeria foi ocupada por uma grande loja de roupas. Entrava no ocaso a Impecável, onde você se “empapuçava de roupas”, e surgia a moderninha C&A. São os novos tempos.

Rogério Torres