Vivi durante seis anos nas mágicas Minas Gerais. Esbarrei no sertanejo mineiro, na calma das montanhas e no som de um Brasil profundo feito na viola de gente de muita fé. Gostei. E muito.

Entretanto, não tirei o meu pé desse chão que aqui ficou. O chão do Parque Amorim, do Lote XV, de Belford Roxo, do calçadão de Caxias, do Gramacho, do Jardim Leal, do Amapá. Chão da infância, do cabelo solto, do calor das três da tarde, das luzes amareladas dos postes, chão de asfalto frágil onde todas minhas vontades sempre foram convocadas.

O chão de terra batida da Rua do Ouvidor, “a minha rua”, foi o primeiro palco e onde, pela primeira vez, me foi dado a oportunidade de acessar a emoção teatral. No quintal de minha tia-avó, pude constatar como árvores e cães ficavam, sem pressa, mais velhos e como evangélicos eram recepcionados sob um abacateiro para tomar café e conversar sobre a palavra do Senhor com aquela católica tão atenta às outras religiões e crenças. Uma doce botafoguense roxa.

Foi no mesmo chão, de lama e água suja, que caí na tentativa de andar de patins, febre do momento. Coisa de norte-americano. Não aprendi e devolvi aquilo que não era meu, primeira lição de civilidade. Ao longo do tempo, algumas ruas ganharam a roupagem de um asfalto mais duradouro, embora não menos resistente. Alguns esgotos a céu aberto foram saneados. Orelhões foram instalados, algumas praças construídas, outras destruídas assim que um novo governo municipal tomava posse.

Um longo trecho de mangue, que ficava quase em frente à minha casa, foi soterrado por toneladas de barro retiradas da barreira da rua detrás. Conclusão: as fotografias do bairro vistas de cima nunca mais foram as mesmas e as cobras deixaram em paz os vizinhos.
O mangue hoje são três quarteirões. Com casas, calçadas, meio-fios e postes. Entretanto, porcos e vacas ainda perambulam pra lá e pra cá. Vocação rural. Onde era a linha do trem, hoje é uma estradinha sem graça, com muito mato e pedras que relembram a história de uma Baixada com muitos caminhos históricos e de trens que apitavam um cheiro de interior que agora não existe mais.

Não, não é que não tenha mais. É que estamos tão ocupados em envolver pelas bordas a cidade grande, que nos desligamos da dinâmica da terra, da natureza e de nossa ancestralidade negra, nordestina, popular e mestiça a qual originou, por exemplo, as matizes da capoeira, do samba-ritual e do jongo na Baixada Fluminense.

Personagens de uma formação territorial e humana tão rica e significativa para a história do Rio de Janeiro e do Brasil, que se torna insuportável a burra insistência dos meios tradicionais de comunicação em colar à Baixada Fluminense a única, estéril e ignóbil imagem de uma região cercada por violência, miserabilidade humana e corrupção.

É raso esse tal discurso em torno dos termos periferia e centro. É preciso sacar qual o interesse que envolve a fragmentação dos territórios e por onde anda o nosso direito de transitar pelo espaço urbano.

O fato é que as classes dominantes sempre acreditaram, realmente, que possuíam o domínio das classes “de baixo”. Dessa maneira, foram e continuam a ser inúmeras as tentativas de esvaziamento de sentido dos valores da cultura popular. Tudo em nome de um modo classista de ver, apreender e amordaçar o mundo.

A questão que me coloco é se estamos tão na mira assim, tão passivos assim, se merecemos ser e se vestimos a carapuça dessa massa tão subestimada e se somos mesmo tão alienados a tudo que nos é empurrado como verdades e fatos irrevogáveis.

Sabendo que as retinas de todo o Brasil são teleguiadas a partir de uma “carioca way of life” vendida a doses cavalares por telejornais, publicidades, programas de auditórios e novelas, e que o resto é pé na jaca também, podemos bater no peito com orgulho e afirmar que somos uma nação de bestializados pelo dogma do controle remoto?

E as nossas crianças que crescem à aura de formatos prontos, retrógrados e preconceituosos de se fazer notícia, teledramaturgia e entretenimento, estão mesmo expostas e fadadas a todo esse drama xuxesco?

Claro que não. Em primeiro lugar, não é “todo o Brasil” que tá ligadinho no canal 4. Algumas partes do país simplesmente não ficam “ligadinhas”: a energia elétrica nem chegou. Cidadãos e cidadãs em toda a parte do território nacional têm se organizado pra discutir, questionar, reivindicar e propor, através de horizontes éticos, mudanças de realidade. Amadurecendo, dessa maneira, a noção de democracia e gestão participativa e o dever do Estado sobre o conjunto social. E ainda desligando a TV.

Indo na contramão de tudo que nos é pautado, coletivos populares articulados e em dinâmica conscientização da importância da partilha de valores e vínculos sociais, tecem suas ações na força da criatividade, da cooperação e na idéia que a existência humana é uma existência dialógica, pois o homem é, primordialmente, um ser de relação. Eis a palavra: relação.

Metodologias e ações de educação não-formal se espalham pelos quatro cantos do país: rádios e jornais comunitários, audiovisuais realizados por pescadores, grupos lésbicos feministas, técnicas circenses oferecidas em praça pública, ações sociais promovidas por grêmios de estudantes da rede pública, empreendimentos de economia solidária, escolas de comunicação crítica, movimentos do campo pela reforma agrária, associações de moradores, a saúde da mulher negra sendo debatida em terreiros de candomblé, espetáculos teatrais com temáticas sociais, cooperativas e associações populares, entre tantas e tantas outras iniciativas as quais vislumbram um outro repertório sociopolítico para o país a partir da energia transformadora da mobilização social. Mobilização essa ativada, também, pelo poder da emoção vivida e sentida em grupo. Vão dizer que eu romantizo. Não tô nem aí.

Essas ações, quando veiculadas pela grande mídia, são exibidas às 6h da manhã de sábado. Cê tá acordado? Nem eu. As retinas enxergam a Baixada Fluminense da violência, da miserabilidade humana e da corrupção, mas não percebem a Baixada Fluminense das gentilezas, das tentativas de emancipação, dos movimentos sociais, do cinema artesanal popular, da inventividade, do grito dos excluídos, dos poetas marginais.

Será que só a carroça dos enjeitados nos serve como manchete?

Iniciativas que atuam pelo desenvolvimento humano de regiões como a Baixada Fluminense não estão no Caldeirão do Huck. E por que estariam, cara pálida? Muitas vezes elas passam pela gente, dizem alô, e a gente continua a olhar o sinal fechado e esse trânsito que não anda.

O mangue soterrado, a linha de trem arrancada, o abacateiro de minha tia, as noites de lua cheia no Amapá, o teatro na Rua do Ouvidor e as praças inacabadas, hoje são retratos amarelados pela poeira da minha memória. Porém, vivos na emoção e na carne. Imagens que me impulsionam na direção de tudo aquilo em que acredito e que não quero esquecer. E o chão disso tudo é a valiosa cultura conservada nos pés descalços.

No Chão, Raízes - Dani Francisco

 

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