Massa Experiência
Massa Experiência - No sentido horário: Marçal, Paulo Romário, Gigante, Roberto e Aldemir Duval

(Módulo 1)

Você conhece a galera aí da foto? É a Massa Experiência, primeira banda pop-rock surgida em Caxias, no bojo do pós-tropicalismo. Não há notícia de nenhum outro grupo de músicos na Baixada Fluminense, que a tenha precedido em apresentações no circuito musical de sua época, nos teatros da Zona Sul carioca. Formada por Aldemir Duval (baixo, composição e voz), Paulo Romário (piano e vocal), Marçal (guitarra), Gigante (percussão e vocal) e Roberto (bateria), a banda atuou por cerca de três anos (tocando no Rio, São Paulo e Belo Horizonte) e teve sua gênese numa roda de papo no quintal da minha casa, ao primeiro sábado de julho de 1971.

É essa história que agora passo a contar aqui, em alguns módulos. Vai comigo?

Era meu aniversário (24 anos) e eu tinha reunido um pequeníssimo grupo de amigos pro almoço. Após o rango, estávamos conversando à sombra de um abacateiro, que já não há: eu, Marluce Ribeiro (a então namorada), Luci Henriques de Oliveira (ainda hoje grande amiga), o compositor Francisco Rodrigues e os poetas Odemir Capistrano e Maurício Mamede. Num dado momento, pintou a idéia de se fazer um show com o Chico (Rodrigues, é claro) no Teatro Municipal Armando Mello.  O negócio era pôr o cara cantando suas composições, as quais, em boa parte, tinham letras assinadas por mim.

Tá. Só que pra realizar isso, tínhamos que ter um instrumental responsa e o Maurício ficou de arregimentar o pessoal. Parecia papo de cervejada de aniversário, mas não foi. No meio da semana seguinte, Maurício e Capistrano pintaram aqui, cheios das idéias. O primeiro foi logo falando de seus contatos com músicos, remanescentes de grupos de baile caxienses. E, na despedida, ficou de trazer alguns deles à minha casa, dentro de poucos dias. Assim fez. Na outra semana, ele já pintou com Aldemir e Gigante a tiracolo.

Aldemir tinha experiência como baixista de um grupo já inexistente, chamado Choral Snakes (ou seria SN?). Fiquei impressionado com a sua intimidade com o violão, principalmente nas músicas dos Beatles. Conversamos um pouco e ele se mostrou interessado em participar do show. Quanto a Gigante, este falou muito pouco. Aliás, o negrão quase não falava. Do alto de seus cerca de dois metros de altura, apenas emitia um conceito aqui e outro ali, sempre com alguma pitada de humor irônico. Não tinha qualquer experiência de tocar em público, mas mesmo assim se fez presente no vocal e no ritmo, usando um velho balde de plástico emborcado.

Aquelas reuniões foram se sucedendo, cada vez com maior freqüência. Como havia um piano na casa, resolvi convidar Paulo Romário pra formar com a gente. Paulo reagiu como eu esperava: disse que não queria, que não tinha tempo (nem saco) pra vir a Caxias ensaiar; enfim, fez o maior cu doce. Diante da minha insistência, em contatos sucessivos, acabou topando conhecer os caras. No que conheceu, se amarrou. Pronto. Já tínhamos três músicos excelentes, só faltando agora um guitarrista e um baterista, para dar início aos ensaios do show. A aquisição de Paulo Romário foi de grande valia. Afinal, ele tinha formação de piano clássico, profundo conhecimento de teoria e harmonia e já tinha estreado como arranjador, na peça Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto, com músicas de Chico Buarque.

O show em questão jamais foi ensaiado e, por conseguinte, nunca chegou ao palco. Mas, em compensação, começaram a brotar composições de Aldemir, com os parceiros de que dispunha. Desta safra inicial, lembro de Maribel (“O tesouro do capitão lhe pertence./Sozinha, temendo as coisas da vida/na busca do papel picado, na viagem/do carro-gente, que corre com o tempo…”. Entre as primeiras obras estão, também, Gás lacrimejanteVox populiA lata (todas dele com Maurício Mamede), Nada (com Chico),Liquidação para mudança de ramo (com Capistrano) e Façafossa (dele comigo), entre outras. Em apenas três ou quatro meses foi se formando um repertório, que ia tornando cada vez mais distante a idéia inicial do show. Queríamos agora formar uma banda que se apresentasse com suas próprias músicas.

Em outubro, Maurício chegou com a novidade: havia inscrito três músicas num festival que ia pintar em Paracambi, no mês seguinte. As composições escolhidas por Maurício foram Gás lacrimejanteA lata (ambas com Aldemir) eVoltas do relógio (com Chico Rodrigues). Quando saiu o resultado da seleção, não deu outra: tinham emplacado as três.  A iminência de uma apresentação pública tão próxima, nos levou a intensificar as buscas de um guitarrista e um batera. Quanto ao primeiro, Maurício acenou com a possibilidade de chamar Marçal, segundo ele, um negrão canhoto, ex-músico de um grupo de baile chamado Hei, Bulldog. Mas na hora H, ele trouxe mesmo foi o Erivaldo, que fazia jus ao apelido de Baixinho, ex-integrante do SN (Sem Nome).

Às vésperas do festival, Marco Bomfim salvou a pátria: apresentou-nos um baterista estreante, Jorge Trinca, que sequer tinha instrumento. Fez bem mais, o Marco: arranjou lugar para ensaiarmos, onde havia todo instrumental necessário, inclusive um órgão sem muitos recursos, que marcou a estréia de Paulo Romário como organista. No quesito interpretação, entramos eu (A lata), Chico (Voltas do relógio) e Marco Bomfim (Gás lacrimejante). Sim, o Marco Bomfim de quem falo é o mesmo Marquinho Maluco, que além de talentoso como pintor, desenhista, artesão e decorador, canta pra cacete.

No meio do primeiro ensaio, a três dias do festival, Maurício nos chegou com nova informação: ele tinha curto prazo para fornecer o nome dos intérpretes à organização do concurso. Parou tudo e ficamos olhando um pro outro, com aquela cara de “meu Deus, que é isso?”. É que até ali não tínhamos nos dado conta, de que o nosso estágio de evolução (ainda que precário) estava a nos exigir o mínimo: um nome. Sugeri do nada Cinto de Castidade. Por falta de coisa melhor, no momento, foi assim que a banda se apresentou e assim se manteve por alguns meses.

Sobre o festival de Paracambi, falo depois, no próximo módulo. Mas posso garantir, desde já, que foi uma puta aventura.

Vamos manter a sintonia.

 

 

Façafossa

(Aldemir Duval e Eldemar de Souza)

O sol ardendo a imagem de Cristo.

Não há mal, a festa é nossa.

Anjos, arcanjos, demônios

são todos da mesma família,

de mãos dadas cantam e dançam

em volta à imensa fogueira.

O sol ardendo a imagem de Cristo.

Não há mal, a festa é nossa.

O homem sobre o caixote,

nas mãos o livro, a História.

O homem sobre o caixote

pregando a Filosofia.

Nada é novo, nada é novo.

Estou vivo. Viva! Eu vivo.

Sem origem, submerso,

sobrevivo, sub-existo.

Porém, hoje a festa é nossa

e o sol arde a imagem de Cristo:

Faça a História, façafossa.

(1971)


Hoje é hoje

(Aldemir Duval e Eldemar de Souza)

Não pense você

que falo pra dentro:

sou repousante num reinado brusco

de medo, de susto, de ferro e cetim.

Até que eu diga: não nasci pra isso!

tem muito osso pra me distrair.

Mas hoje é hoje

em qualquer dimensão,

por mais que eu esqueça

me lembro de tudo,

não mostro meu medo,

meu modo não mudo:

não sei disfarçar.

No entanto, eu falo,

me despeço e passo

na sombra do meu novo amor.

(1972)


Vox populi

(Aldemir Duval e Maurício Mamede)

Esta é a canção tema

da fotonovela,

que nada revela

e a vida sublima.

Do mocinho

com olhos de gelatina,

doces pássaros

numa floresta encantada.

Declara, santa,

a morta moça pálida:

– Eu te amo, eu te amo.

Salva de pipocas,

salmos de fanzocas

estouram, explodem

nas páginas do Sétimo Céu.

(1971)