Eu cultivo o saudável péssimo hábito de ouvir conversas alheias. Sei que isso é falta de educação, e confessar em público, como estou fazendo agora, chega a ser falta de pudor na cara. Mas, que posso fazer? É só eu estar sozinho num bar, no ônibus ou mesmo transitando anonimamente por uma via movimentada, e pronto: as antenas se ligam automaticamente e começo a captar palavras e frases soltas – ou até assuntos inteiros, como já aconteceu diversas vezes.

Foi assim que escutei pela primeira vez, há quase 40 anos, o hoje popularizado uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. De outra vez, na Praça 15, ouvi quando um cidadão “respeitável”, pagando um esporro em regra pro filho adolescente, saiu-se com esta pérola: “Um homem de caráter não faz uma coisa disso”. E se não fosse esse belo mau costume, eu não teria ouvido a falsa loura, numa livraria em Copacabana, usar como argumento definitivo para dissuadir o seu homem (dela) de comprar um best-seller: “Ah, mozão, gastar dinheiro à toa… A gente já não temos um livro, lá em casa?”.

Pois foi isso que aconteceu naquela tarde, por volta das quatro, quando entrei cheio de fome num restaurante da Rua Buenos Aires. A casa estava quase vazia. Só havia um casal tomando cerveja, o português no caixa, é claro, e três garçons trocando idéia, próximos ao balcão. Me dirigi a um deles, perguntando se ainda tinha almoço. Ele confirmou, com duas ressalvas. A primeira é que só tinha carne assada com batatas coradas (coradas de vergonha, pelo preço que me cobraram depois). A outra: eu teria que esperar um pouco, até que a comida esquentasse, já que o fogão estava desligado, havia um tempo. Concordei e, enquanto esperava, resolvi tomar uma cerveja, me sentando a uma mesa à frente do casal.

Garrafa na mesa, cerveja no copo… e aquele silêncio me instigando a sacar o que o homem e a mulher conversavam. Não demorou muito para que eu começasse a entender a coisa. De cara, não formavam propriamente um casal, mas eram dois colegas de trabalho: advogados de porta de xadrez. Antes que eu sorvesse a metade do segundo copo, pude perceber que ela era mais rodada na profissão que ele. Como eu sei disso? Ora, muito simples. No decorrer do papo, a cada bairro do Rio a que ele se referia, ela citava o número da DP que atuava na área. Se ele falava em Botafogo, por exemplo, ela dizia: “Sim, jurisdição da 10ª”. Se o fato relatado se dera em Madureira, a doutora garantia: “Ali é a 21”. E assim, sucessivamente.

A comida chegou, mas o papo tava tão animado, que não consegui me desligar dele enquanto comia. E se o fizesse, teria perdido um de seus segmentos mais emocionantes. Aliás, pelo que deram a entender, aquele ponto da conversa era o vamos direto ao assunto. Imagine você, que ele estava incumbido de intermediar com policiais, a fuga de um cliente seu, preso numa delegacia do subúrbio. Só não sabia exatamente com quem falar e temia falar com a pessoa errada. A advogada imediatamente identificou o bairro com a Delegacia e se dispôs a “ajudar”. Segundo ela, era só procurar um certo carcereiro fulano, lotado naquela DP, que, “modéstia à parte, é meu fechamento” – explanou, orgulhosa.

Passaram então a traçar o plano, com o desembaraço e o tom de voz de quem planeja uma viagem de férias. O homem concordava com tudo, afinal, era ela quem tinha os contatos. “Mas tem uma coisa: isso vai custar um bom dinheiro”. Disso ele sabia, mas “quanto”? A mulher chutou: “Uns 700 cruzados”. Não sei converter isso em real, mas posso garantir que era grana pra cacete. Não havia problema, pois “a família do meu cliente tem posses”. Mesmo assim, pra desencargo de “consciência”, a doutora discriminou os gastos:
– Porque, não é só o carcereiro fulano que vai levar, né? Ele não dá plantão sozinho. Têm mais três ou quatro da equipe, que vão sair no camburão, simulando uma diligência. E mais um ou dois, que vão estar dormindo, enquanto um outro sai pra tomar um café.

Era uma verdadeira exaltação à corrupção e à impunidade. Só a certeza desta, poderia fazê-los falar tão abertamente, sem se importarem com a minha presença tão próxima. Plano traçado, começaram a conversar amenidades. Ele falou um pouco sobre a sua mulher de casa e ela, de um sobrinho que gostava de corrida de cavalos. Até que o papo descambou de novo no terreno profissional. Foi quando o homem relatou uma ocorrência, envolvendo um cliente na Delegacia de Atendimento à Mulher, em Caxias. Pedi outra cerveja, pois isso eu queria ouvir, nos mínimos detalhes.

Segundo o relato, o cliente morava no Parque Araruama (São João de Meriti). Chegou em casa com os cornos cheios de cachaça e aplicou uma sessão de porrada na mulher. A vítima se mandou pra Caxias, dando queixa do agressor. Uma guarnição de mulheres foi prender o indivíduo, que, àquela altura, já puxava um ronco pra curar o porre. Levado algemado para a DEAM, foi recebido por uma policial “truculenta”, que mandou desalgemar o preso, enquanto ela mantinha uma conversa com ele.

Nesse ponto, a advogada interrompeu a narrativa e passou a descrever a policial. “Uma grandona, forte, de cabelo louro, cortado baixinho?”. O cara confirmou, e ela deu a ficha: “Ah, é a Geraldona. Aquela mulher é greluda. Ela adora dar porrada em homem”. E pelo que ouvi, foi isso mesmo que aconteceu. A cana dura pediu que o preso lhe batesse. É claro que ele se recusou. “Mas, você não gosta de bater em mulher, por que não bate em mim? Ah, eu adoro apanhar de homem. Me bate, vai”. Diante de nova recusa, a policial sentenciou: “Então, sendo assim, eu vou bater em você”.

O saldo, segundo o advogado, foram duas costelas fraturadas e lesão em um dos tímpanos, além de escoriações generalizadas. A doutora deu um risinho, que não entendi se em solidariedade à mulher espancada ou de prazer, por demonstrar ao parceiro a extensão de seus conhecimentos, nas DPs do Grande Rio. E comentou: “É bem o estilo dela… Era a Geraldona, sim”. Na sequência, pagaram a conta e se retiraram. Mas, um pouco antes de alcançar a porta, ela puxou com um sonoro stilep a calcinha que entrava no rabo, e mandou:

– Mas que azar ele deu. Bater na mulher, logo no plantão da Geraldona.