O dia amanhecera cinzento, chuvoso, e eu estava confuso. A intrépida Rádio Mayrink Veiga (PRA 9), minha emissora predileta, estava fora do ar. As notícias que chegavam pela Rádio Nacional, já ocupada, falavam de Jango deposto, de Brizola sendo procurado e de Miguel Arraes, deixando o Palácio Campo das Princesas, no Recife, preso.

Não dava pra acreditar. Há poucos dias (13 de março), num comício memorável, na Central do Brasil, o nosso presidente João Goulart falara para uma multidão, sobre seu projeto de reformas, que mudaria completamente a história da República brasileira. No entanto, desde a noite anterior corriam rumores (antes fossem apenas rumores) de que tropas militares de prontidão em diversos pontos do país, se preparavam pra marchar em direção ao Rio.

Por volta das 18 horas, eu, no ímpeto dos meus 16 anos de idade, contrariando recomendações expressas de minha mãe, fui pra rua, em busca de informações que fizessem sossegar meu coração juvenil. Me dirigi ao Centro de Caxias, e o que vi foram ruas desertas. Um amigo do meu pai, que encontrei no caminho, me confirmou tudo aquilo que eu passara o dia ouvindo pelo rádio. Mas a opinião dele não valia pra mim, já que era um udenista empedernido.

Foi preciso encontrar o meu dileto companheiro de lutas estudantis, Delton Peçanha, para que a ficha caísse. Era tudo verdade, embora fosse primeiro de abril.