Como diria Jack, o estripador, vamos por partes… Para compreender (Duque de) Caxias é fundamental analisar sua formação, principalmente do ponto de vista sociológico e econômico, mesmo que rudimentarmente.

Nós não fomos colonizados, fomos ocupados e tudo se deu de forma anárquica e confusa, sem planejamento, sem objetivos definidos, sem distribuições de papeis, sem nada.

A Baixada Fluminense era um baita laranjal que foi sendo ocupado a partir do processo de evolução econômica. O Brasil saiu do mundo agrário para arriscar alguns passos na industrialização e com isso as necessidades da galera foram se modificando, se modernizando, metamorfoseando, sei lá… O fato é que fomos da figura A para a figura B.

O Rio era a capital do país e, por conta disso, o processo aqui se deu de forma acelerada. Alguém tinha que construir os prédios, praças, pontes, viadutos, panelas e caldeirões para a nova civilização que se formava, por isso veio gente de todo canto para o Rio, principalmente do Norte e do Nordeste. Por uma série de fatores inexplicáveis, acabamos nos tornando, felizmente, uma referência para o povo nordestino no Sudeste. Ataulfo Alves tinha um sítio em Xerém e o vendeu para Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Aquele pedaço de terra foi o embrião de todo um processo de herança cultural que nos influencia até hoje. Para muitos, tudo pode ter ocorrido por coincidência. Eu, particularmente, acho que foi uma benigna conspiração do universo.

Por outro lado, aquele povo que veio construir as coisas precisava de um lugar relativamente próximo à capital para morar. Como o Rio já era uma cidade bastante cara naquela época para o padrão dos imigrantes, boa parte do pessoal foi se assentando por aqui mesmo. A galera precisava de grandes espaços para viver com suas famílias vindas da terra natal, e isso a gente tinha de sobra.

Com o tempo, foi se formando uma incipiente estrutura de comércio e serviços. Coisa bem simples, o armarinho, a quitanda, a tendinha, depois as padarias, os açougues etc, agregando portugueses e outros imigrantes à nossa história.

A formação foi mais ou menos isso, meio na base da combustão espontânea, o que nos deu a riqueza da cultura nordestina e a angústia de uma economia filosoficamente baseada no lucro imediato e sem maiores preocupações sociais, filosóficas ou até mesmo estruturais.

Isso tudo evoluiu muito pouco com o passar dos anos e Caxias foi cada vez mais se tornando sombra da capital, a ponto de ser considerada uma mera cidade dormitório por muito tempo.

Na prática, mesmo com a vinda da indústria e com o crescimento da economia, a cidade nunca chegou a formar uma burguesia local, pois os comerciantes daqui nunca desenvolveram um espírito de grupo ou de apreço a coisas locais e os investidores da indústria, vindos de fora, não fincaram suas raízes em Caxias. A própria REDUC, apesar de gerar ganhos econômicos via royalties e impostos, não tem, a rigor, qualquer vínculo sociológico com o município. As pessoas trabalham aqui, ganham dinheiro aqui, mas gastam e investem em outras plagas, principalmente no Rio. Graças a isso ficamos sem escolas, sem instituições, sem cultura, sem noção de solidariedade, sem senso de preservação coletiva e sem mais um montão de sentimentos comuns aos povos de outras cidades. Somos a terra dos mandões. Quem ganha o tiroteio político exerce o poder durante algum tempo ao seu bel prazer, sem regras nem freios, e depois se manda. Vai embora. E o próximo mandão vem e faz o mesmo.

Isso tudo faz de Caxias uma cidade perneta. Tem gente talentosa em todas as vertentes, artistas fantásticos, profissionais capazes, etc, mas carece tanto de investidores quanto de público interessados na evolução da alma e do pensamento humano. É como uma pessoa que tem dinheiro para comprar o que precisa, mas não encontra vendedores do produto. Baixo interesse não gera mercado e a lógica atual é sempre a do mercado.

E aí, meu caro leitor pode estar se perguntando: tudo bem, isso todo mundo sabe, mas qual a solução? A solução é o poder, digo eu.

O poder em Caxias sempre foi exercido de forma isolada, sempre por um determinado grupo completamente dissociado da aspiração coletiva e isso se dá porque participação individual e coletiva é mínima. As pessoas tratam o voto como um ferro quente imposto à mão e que precisa ser jogado fora o mais rapidamente possível. Não há envolvimento. Quase ninguém vê um Vereador ou um Prefeito como representante seu. A participação política é sempre colocada na última prateleira de uma estante gigantesca e a consequência direta disso é a usurpação do poder, pois permite que pequenos grupos possam dividi-lo entre si.

Só para deixar claro, não me refiro a partidos, pois a coisa independe disso. Em todos os partidos há, certamente, ou pelo menos deveria haver, pessoas de bem. O partido, aliás, deveria ser simplesmente um agregador de correntes de pensamento, de filosofias, de concepções e de convicções, sejam estas à direita, à esquerda ou ao centro, se é que tudo isso ainda existe. Quando falo em participação me refiro ao verdadeiro conceito de cidadania. Saber o que alguém faz com o teu dinheiro e que regras serão criadas para o desenvolvimento da tua vida são coisas que deveriam interessar a todos, mas como não interessam, quem detem o poder e o dinheiro faz o que bem entende.

Se a gente reparar bem, percebe que esse desinteresse pela condução da vida na pólis reside tanto no individual quanto no coletivo. Pessoas inteligentíssimas detonam o conceito de participação política, e profissionais de todas as áreas abrem mão de conspirar a favor de seus mais legítimos interesses. Chega a ser engraçado perceber como pessoas e grupos convergem para a concentração do poder nas mãos de poucos e maus políticos. As pessoas de bem, infelizmente, recusam-se a construir possibilidades de evolução coletiva.

Curiosamente isso gera uma situação, além de desastrosa, confusa, pois, na cidade, não havendo exercício de poder nem da parte da burguesia, nem da parte do povo, como ocorre, de certa forma, em Caxias, o conflito de interesses é estéril, fazendo com que a estagnação seja a primeira dama do Município.

Resumindo a ópera, na falta de uma Geni de plantão, só o exercício consciente do poder pode vir a salvar nossa cidade. Todos os setores da sociedade Caxiense deveriam pensar nisso.

Quando o poder for exercido por trabalhadores, burgueses, artistas, pensadores, profissionais liberais, estudantes etc, todos convictos na defesa de seus interesses, seremos uma cidade de verdade. Dói menos e sai mais barato do que sustentar parasitas a pão de ló.

Tenho dito.

***************

***************

Vicente Portella

http://vicenteportella.blogspot.com/