Central do Brasil, 18h 45 min. Sou um dos primeiros a entrar no trem recém estacionado, mas não consigo lugar. Era um desses trens novos, com ar condicionado, telas de LCD e letreiro digital. Me escoro ao lado da porta, enquanto vejo o vagão encher cada vez mais. Dentre as pessoas, uma moça, pele clara, cabelos castanhos encaracolados, com blusinha de alça branca com dizeres em letra preta, segurando uma bolsa no ombro e seu Samsung na mão e fone no ouvido, aparentando uns 20 anos. Posiciona-se de frente para mim, segurando a pilastra da extremidade do último banco antes da porta, onde se sentava uma senhora que assistia novela no seu Samsung. Do meu lado direito um rapaz alto, também com um Samsung, via o Facebook e, ao lado dele, bem no meio da porta, um homem de meia idade lia o caderno de esportes do Extra.

O trem parte, e a moça liga:
– Oi, amor, tô saindo. Vai me esperar aonde? Daqui a meia hora estou aí. Beijos!
A senhora conseguiu assistir a novela toda, enquanto meu Xperia se encontrava com 8% de bateria, em modo econômico, com o tráfego de dados desligado. Sem WhatsApp, tive a intenção de assistir o telejornal, mas ela desligou a TV quando a novela acabou. Ora, então, eu observava o caderno de esportes, ora observava o empenho da moça ao jogar um joguinho de Super Nintendo em seu celular, interrompido apenas quando ela me perguntou em que estação estávamos. Eu, como ia para a terminal, não tinha ideia. Aliás, há tempos esquecera a ordem das estações. Mas antes mesmo que eu terminasse a frase: “sabe que não sei?”, o rapaz ao meu lado rapidamente respondeu: “Penha”.
A moça, então, faz outra ligação:
– Amor, tô em Cordovil. Vai deixar o carro lá do lado da loja? Tá bom! Tô chegando.
Então ela, que já havia interrompido a jogatina, liga a câmera frontal como se fosse um espelho, saca um batom vermelho da bolsa, passa nos lábios e faz dois riscos em cada bochecha. Guarda o batom e espalha os riscos pela face. Depois joga o cabelo para frente, ajeitando os cachos com a mão. Um make feito em dois minutos. Guarda o celular, ajeita a bolsa no ombro e desce na estação Duque de Caxias.

Filipo Tardim