Quem trafega pela Rodovia Washington Luiz do Rio de Janeiro em direção à região serrana ou à Magé percebe a imponência da Refinaria Duque de Caxias. O seminário “50 anos de REDUC: ganhos, perdas e danos” organizado em 2011 por vários pesquisadores da cidade lembrou a história desta empresa na cidade assim como os malefícios por ela causados.

Segundo o biólogo Sebastião Paulino ela foi projetada antes do surgimento da PETROBRÀS e foi a primeira a ser construída no país. Em 1954 a Foster Wheeler Corportion venceu a concorrência para a construção aberta pelo governo Vargas. Em 1957, durante o governo JK, foi iniciada sua construção. No início era chamada de REFRIO, Refinaria Rio de Janeiro e, simbolicamente, sua inauguração foi marcada para o dia 20 de janeiro de 1961. Dia de São Sebastião e padroeiro da cidade do Rio de Janeiro. Depois passou a denominar-se REDUC.
Sua função estratégica de distribuir derivados de petróleo nos grandes centros urbanos do Sudeste, a movimentação dos operários organizados em sindicatos ligados ao Partido Comunista, as constantes mobilizações por melhores salários, as denúncias sobre as condições de trabalho e sobre os constantes acidentes na linha de produção foram os principais motivos para que Duque de Caxias se tornasse, entre 1971 e 1982, Área de Segurança Nacional e fosse governada por prefeitos militares interventores.

A construção da refinaria atraiu milhares de migrantes de várias regiões do país que após a conclusão das obras se instalaram em seus arredores constituindo o atual bairro de Campos Elíseos que espantosamente possuí uma população de aproximadamente 243.767 habitantes. Um bairro com uma população maior do que a de muitas capitais do Brasil. Um local de muitos rostos, hábitos e cultura diversificada e totalmente exposto aos dejetos químicos desta empresa.

Esta população, juntamente com a da restante da cidade e a dos municípios vizinhos está exposta aos poluentes lançadas no ar e à constante ameaça de acidentes. Destes acidentes os mais lembrados são os de 1972 quando uma esfera explodiu e juntamente com ele várias janelas de Duque de Caxias e do Rio de Janeiro. Muita gente pensou que era o fim do mundo. Outros, mais politizados, achavam que era um ataque comunista, pois vivíamos tempos de Guerra Fria.

Os vazamentos ocorridos em 1998 e 2000 ficaram marcados não só pela poluição provocada nas águas da Baía de Guanabara mas pelas imagens dos pássaros que, cobertos de óleo não conseguiam voar e da grande mortandade de peixes que eram vistas por todo o mundo através da televisão. Outra marca foi a ação inibidora da PETROBRÁS sobre as Associações de Pescadores e sobre os catadores de caranguejo das cidades que circundam a Baía de Guanabara.

Muitos ainda se lembram do dia que “nevou” na cidade. Em 2001 parte da cidade foi surpreendida ao amanhecer. Um pó branco caía do céu e as crianças, ingenuamente, achavam que estava nevando. Muitas delas chegaram a brincar com o pó. Apesar da REDUC afirmar que ele não era maléfico à saúde, seus funcionários apareceram nos bairros portando modernos equipamentos de proteção. Numa típica operação de guerra, só vista em filmes, tiveram a preocupação de lavar todas as casas e ruas e, em centenas de carros alugados, conduzir os afetados aos melhores hospitais particulares do Rio de Janeiro.

O seminário foi o único momento em que se discutiu a atuação da REDUC na Baixada Fluminense. Outros aspectos merecem se analisados. Em junho deste ano a cidade do Rio de Janeiro sediará a “Rio+20” que será grande encontro internacional para discutir as questões ambientais e o futuro sustentável da humanidade. Seria muito bom discutirmos o mundo a partir de nosso quintal.


Alexandre Marques

Alexandre Marques é professor de História. Contato: alxmarques@ig.com.br

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