(De como Caxias assistiu a uma peça premiada na França, por iniciativa do Caec)

Em novembro de 1967, treze meses antes da promulgação do Ato Institucional número cinco – o famigerado AI-5 –, dois jovens decidiram trazer a Caxias a montagem da peça Morte e Vida Severina, um poema de João Cabral de Melo Neto, musicado por Chico Buarque – então uma das maiores promessas de renovação da música popular brasileira. A dificuldade para arranjar um local adequado à apresentação do espetáculo foi o maior problema que a dupla teve pela frente. Felizmente, o Centro Acadêmico Euclides da Cunha (Caec), então presidido por Stélio Lacerda, resolveu bancar o jogo. Foi assim que os caxienses puderam aplaudir o Grupo Acerto, que trouxe ao município comovente interpretação do que veio a tornar-se um dos maiores clássicos da dramaturgia brasileira, no auditório do Instituto de Educação Roberto Silveira, em cujas dependências funcionou, por vários anos, a primeira faculdade pública de todo o antigo Estado do Rio de Janeiro.

Creio ser impossível contar tal história, sem mencionar o Bar Garoto Fluminense. Isto porque, no decorrer dos anos 60, poucas atividades culturais se realizaram em Caxias, sem que o projeto fosse discutido (ou mesmo elaborado) às mesas do seu Augusto – o “muito justo”, como se autodenominava o dono do estabelecimento. Não sei se eu não quero me dar ao trabalho ou se, realmente, me faltam “talento e formosura para descrever tão bem o Garoto, como o fez Alcmeno Bastos, na revista Recado de Cultura (01/87). Disse ele:

…ali se criou um clima especial, viveu-se um instante mágico. A minha tribo não era dona do Garoto, mas esteve próxima disso. Ocupávamos sempre as mesas do restaurante, eventualmente até para jantar. Ali, escondidos da agitação da porta da rua, em duas ou três mesas que juntávamos com ou sem a permissão dos garçons, travavam-se memoráveis e informais (…) debates sobre todos os assuntos dignos da curiosidade humana. Os simpósios versavam sobre política, economia, arte, sociologia, educação etc., e a todos, indistintamente, era dado o direito de opinar”.

Pois foi naquele clima agitado, que o Renato Brandão me passou, gratuitamente, um convite para assistir ao espetáculo em questão. Deixa-me, antes, apresentar o Renato ao distinto leitorado. Irmão do Pedro Paulo, o James Bond, que cursava estatística numa universidade pública e namorava a Vilma, aluna da Faculdade de Pedagogia, onde estudavam o Rogério Torres e o Hermes Machado, imprescindíveis nos debates do Garoto. O Renato, além disso, trabalhava no estaleiro Ishikawagima e fazia o último ano de contabilidade, no antigo Colégio Cardeal Leme, em Ramos, em cujo auditório se daria a apresentação da peça.

Era um sábado – 14 de outubro. Cheguei com alguma antecedência, pelo menos o suficiente para reencontrar Nonato Teixeira, com quem eu havia estudado nos tempos de ginásio e que ali estava como músico do grupo: tocava percussão. Com um pouco mais de sorte, ainda assisti a um recital relâmpago de Paulo Romário, que mandou lá o Noturno, de Chopin, e a Marcha Turca, de Mozart,por um velho piano relegado à penumbra no fundo do palco. O mesmo palco, aliás, onde logo teve início a apresentação de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, com música de Chico Buarque.

O meu nome é Severino,

não tenho outro de pia.

Como há muitos Severinos,

que é santo de romaria,

deram então de me chamar

Severino de Maria;

como há muitos Severinos

com mães chamadas Maria,

fiquei sendo o da Maria

do finado Zacarias.*

A rapaziada do Grupo Acerto, realmente, acertou. Texto na ponta da língua, marcação bem apropriada às condições do local e interpretação sem grandes riscos. Mas a música, a música do Chico, redesenhando aqueles versos agrestes, foi o que mais me chamou a atenção. As vozes e o instrumental que acompanhava davam mais relevoà contundência do texto: “E foi morrida essa morte,/irmãos das almas,/essa morte foi morrida/ou foi matada?”… “Essa cova em que estás,/com palmos medida,/é a conta menor/que tiraste em vida (…) é a parte que te cabe/deste latifúndio… é a parte que te cabe… é a parte…”. E a parte que eu mais gostei, foi a do Severino dialogando com a mulher da janela. Sua fala tem uma melodia assobiada ao fundo, entrecortada por uma cantiga, tão seca quanto as respostas que ela dá ao retirante:

Muito bom dia, senhora,

que nessa janela está;

sabe dizer se é possível

algum trabalho encontrar?

Trabalho aqui nunca falta

a quem sabe trabalhar;

o que fazia o compadre

na sua terra de lá?

Pois sempre fui lavrador,

lavrador de terra má…

Isso aqui de nada adianta,

pouco existe o que lavrar…

Saí do Cardeal Leme de alma lavada. Pelo resto da noite, aquela música assobiada me acompanhou. Cheguei tarde em Caxias, encontrando o Garoto já fechado. Que pena! Não teria com quem partilhar tal estado de êxtase. O bar não abria aos domingos; logo, na manhã seguinte o jeito seria procurar alguém, pelos bares dos arredores da feira. Era exatamente o que eu estava fazendo, quando encontrei Rogério Torres no trajeto. Pronto: descarreguei falação. Contei detalhes da peça, caprichando na cena da janela. Certo de que estava diante da pessoa também certa, para dar asas a tanto entusiasmo, abri: Quero trazer este grupo a Caxias. E Rogério respondeu algo como: “Vamos trazer, sim”.

Levantar o paradeiro do Grupo Acerto, segunda-feira, não foi difícil. Passei à noite no Cardeal Leme, sendo informado que o responsável pelo espetáculo era um diretor do Social Ramos Clube, para aonde me dirigi. O homem não estava lá, tinha ido jogar sueca na quadra do Cacique de Ramos. Ali o encontrei. Era o médico Irã Araújo, que se tornou mais conhecido por seu interesse pela cultura popular, especialmente o que tem laços com o Carnaval. Ele foi muito gentil comigo, me passando o número do telefone de um membro do grupo. Ao final da tarde seguinte, liguei. Atendeu Virgínia, justamente a garota que fazia a mulher da janela. Falei das minhas pretensões e sondei as possibilidades. Como os tempos ainda não eram de tanta violência, ela me convidou ao seu apartamento, no Flamengo, a fim de me pôr em contato com outros integrantes do elenco.

Virgínia, Henrique Tavares, Luiz Filipe Oiticica e Mercedes, com quem conversei, acharam ótima a idéia de se apresentarem em Caxias. Mais tarde, já no Garoto, contei tudo pro Rogério, que reiterou sua cumplicidade nessa empreitada. E se era assim, que tal se ele me ajudasse a encontrar o local adequado à encenação? Pra falar francamente, local, mesmo, praticamente não havia. O antigo auditório da UDN (isso mesmo, União Democrática Nacional), dos bons tempos do TMC (Teatro Moderno Caxiense), agora era sede da Rádio Difusora. O Clube dos Quinhentos, aonde Ratinho (o músico Severino Rangel de Carvalho) e o velho Armando Mello montaram vários espetáculos, tinha então o epíteto de Aristocrático – logo, descartável para as nossas pretensões. Dos antigos tempos de Morre um Gato na China (de Pedro Bloch), só restava o auditório do Sesi, mas a implorar reformas urgentes. Também descartamos.

Estávamos diante de um impasse. Queríamos trazer à cidade um espetáculo bonito, impactante, e não tínhamos aonde encená-lo. Aparentemente, não era tão difícil resolver a questão. Em pouco mais de um mês, seria inaugurado o Teatro Municipal Amando Mello (Temam), mas eu não queria esperar. Afinal, eu tinha apenas 20 anos, e quando se tem 20 anos tem-se muita pressa. Não sei bem por quê… O fato é que ficara fechado entre mim e o grupo, que a apresentação seria dia 11 de novembro, e o Temam só seria aberto ao público no dia 30 daquele mês. Alguns meses depois, já por conta do musical Peço a Palavra, que escrevi em parceria com Maurício Mamede, constatei que, nas mãos de Laís Costa Velho, o nosso teatro municipal não teria dado boa acolhida ao Grupo Acerto.

Foi o Rogério quem propôs: “Por que não levamos a rapaziada para o auditório do Instituto de Educação, com a chancela da Faculdade de Pedagogia?” Matou no peito e fez o gol. Afinal, para isso íamos precisar, apenas, do consentimento do professor Álvaro Lopes, diretor do IE, com quem se entenderia o Stélio Lacerda, presidente do Caec-Centro Acadêmico Euclides da Cunha, órgão que representava os universitários. Assim mesmo aconteceu: Rogério falou com Stélio, que falou com Álvaro, que falou que sim: estava liberado o auditório.

O Grupo Acerto era formado por jovens da Zona Sul do Rio. Moradores, em sua maioria, nos bairros Flamengo, Laranjeiras, Botafogo e Copacabana eles se reuniram para prestar uma homenagem ao casal Renato Mascarenhas de Souza/Joselina Menezes de Souza, que comemorava bodas de prata naquele ano. Renatão e Zelina (Zélis, para os mais chegados) eram pais de boa parte do elenco. Seus filhos – Paulo Romário, Mercedes, Maria das Mercês, Virgínia e Luciano – juntaram-se a alguns amigos, como Henrique Tavares, Luiz Antonio Peres, Vivian Hirson, Luiz Filipe Oiticica, Márcia de Mello Bastos, Solange de Mello Bastos, Michel Rabinowitch, Nonato Teixeira, entre outros, para montar a peça no Iate Clube Guanabara (Botafogo), onde a data festiva foi celebrada.

Aqueles jovens tinham por que escolher Morte e Vida Severina para aquela ocasião. Nutridospelo som da bossa nova, esses descendentes de Tom Jobim e João Gilberto seguiram a mesma trilha da música popular brasileira, que depois de passar pelos shows produzidos pelo CPC da Une, desembocou naonda de festivais de música, que eclodiu em todo o país – a partir de 1965, até os primeiros anos da década de 70. O CPC-Centro Popular de Cultura, da Une-União Nacional dos Estudantes, foi fundado em 1959, tendo como marco inicial a encenação da peça Eles não Usam Blak-Tie, de Gianfrancesco Guarniere (1934-2006). Liderados por este, Oduvaldo Vianna Filho, Carlos Lyra, Ferreira Gullar, Leon Hirszman, Carlos Estevam, entre outros, os CPCs se espalharam por todo o país, produzindo espetáculos populares de teatro, música e poesia, a exemplo de A Mais Valia Vai Acabar, Seu Edgar (Vianninha) e Um Americano em Brasília (Chico de Assis e Nelson Lins e Barros), ambos musicados por Carlos Lyra. Pelo CPC da Une passaram vários outros artistas, como o escritor Ziraldo, o compositor Geraldo Vandré, poetas José Carlos Capinan e Geyr Campos, além de Augusto Boal, o teórico do Teatro do Oprimido, reconhecido e prestigiado nos mais diversos pontos do planeta.

Nesse meio tempo, surgiu o movimento Teatro Universitário, que deu origem ao Tuca-Teatro da Universidade Católica, de São Paulo; o Tuca/Rio-Teatro Universitário Carioca (dirigido por Amir Haddad); o Tema (da Universidade Mackenzie, também paulistano) e o Tusp-Teatro dos Universitários de São Paulo. O Tuca era dirigido pelo Roberto Freire (não o ex-deputado, é claro, mas o misto de psicanalista e homem das artes, autor dos livros Cleo e Daniel, Coyote, Sem Tesão não Há Solução…). Coube ao Freire converter o poema de Cabral – então um épico da nossa poesia recente – num clássico do nosso teatro contemporâneo. E para encarar a empreitada, ele convidou o diretor de teatro Silnei Siqueira e um aluno da Fau-Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, de nome Francisco Buarque de Hollanda, irmão de sua amiga Miúcha.

O trio Freire-Siqueira-Chico fez o que fez com o poema de Cabral. Depois de uma temporada vitoriosa na universidade, o Tuca confirmou seu sucesso em outros palcos paulistanos e foi representar o Brasil no Festival Internacional de Teatro Universitário, em Nice, na França – 1965. De lá voltou com o prêmio de melhor espetáculo e o orgulho de ter representado seu país no exterior, sem nenhuma ajuda oficial. Nada mais claro. O concurso francês se dera no ano seguinte ao golpe militar de 64. Logo, não havia interesse do governo brasileiro em patrocinar viagens de grupos de teatro formados por estudantes, numa época em que o poder público ao ouvir falar de cultura levava “a mão ao coldre”. Ao voltar da Europa premiada, Morte e Vida Severina foi encenada em algumas capitais brasileiras, ora pelo próprio Tuca, ora por outros grupos, a exemplo do Acerto, no Rio de Janeiro.

Entre os dias 14 de outubro (quando assisti ao espetáculo) e 11 de novembro (quando o apresentamos em Caxias), muita coisa aconteceu; inclusive, perdi o emprego na Companhia Nacional de Guindastes (Guinasa), um dos únicos lugares aonde trabalhei, que nada tinham a ver com o universo das letras. Sim, teve isso. Eu já não estava sendo bem visto na casa, por defender, sem meias palavras, os princípios marxistas que me eram transmitidos no Garoto. A empresa, diga-se, era norte-americana. Quando deixei a barba crescer, então, foi aquilo… Mas foram os dias em que driblei o expediente, para ultimar os detalhes da chegada do Grupo Acerto a Caxias, que ajudaram a sujar geral. Afinal, tinha que levar um memorando ao Álvaro Lopes, que só se achava no colégio durante o dia; pegar os convites, impressos na gráfica do Antonio Carlos Menezes, distribuí-los para a venda; fazer mil contatos com o grupo…

E o Rogério, por onde andava? Ele não havia dito algo como “vamos trazer, sim” esse grupo a Caxias? Foi. Mas ele – tanto quanto quase todos nós, do círculo do Garoto – batia cartão e ralava das oito às cinco. Enquanto me tiravam o couro, no departamento de compras da Guinasa, ele começava a perder os cabelos na Marvin – departamento de contabilidade. Só que eu era um dos pontos de contato entre a empresa e os fornecedores (passava boa parte do dia na rua), enquanto Rogério ficava pegado entre quatro paredes, frente a uma velha máquina manual Facit, de calcular. Logo, nada mais justo que eu ficasse encarregado de tudo.

Demitido na quinta-feira, dia 9 de novembro, eu tive toda a sexta-feira e boa parte do sábado, para resolver o que ainda faltava. Tinha que arranjar um ônibus para buscar (e levar de volta) a rapaziada no Flamengo. Isto eu consegui na empresa de transportes Limousine Carioca, através do Newley Lopes Martins, que mandava à beça na cidade. Além disso, tinha que encomendar o jantar do elenco, para depois do espetáculo. O rango foi tratado na Lanchonete Las Vegas, primeiro estabelecimento do ramo implantado em Caxias, à Avenida Presidente Kennedy. Tais compromissos faziam parte das poucas exigências feitas pelo grupo, que vinha apresentar-se de graça em nosso município.

No dia marcado, tudo perfeito. O Grupo Acerto precisava estar em Caxias, no máximo, às 15 horas, a fim de refazer as marcações de cena, de acordo com as dimensões minúsculas do palco. Quanto a isso, não tinha problema, pois às 13 horas em ponto, o ônibus estava à disposição, na Praça do Pacificador. Se atraso houve, este ficou por conta do elenco, pois antes das duas da tarde já estávamos no local combinado, mas só chegamos ao Instituto de Educação quase às 17 horas. Silmar Viana já nos aguardava. Único funcionário da Guinasa a fazer-se presente, dentre os poucos convidados na empresa, ele era uma das duas pessoas com quem mais me identificava, naquele ambiente. A outra era o irmão do compositor Sérgio Ricardo, o violinista do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e da orquestra Românticos de Cuba, Tuffi Luffit, o qual, a exemplo de Silmar, exercia ali a função de desenhista industrial.

Refeitas as marcações cênicas, surgiu um problema. O Henrique Tavares, que acumulava as funções de diretor e ator principal, havia esquecido o seu pau em casa. Se dito assim isto já soa indecente, pior foi o ultimato que o cara me deu: “Sem pau, não entro em cena”. Deixa-me explicar logo, que diabo de pauera este. Para compor o personagem Severino, o ator trazia às mãos um saco – cheio de jornais velhos, o qual jogava às costas – e um cabo de vassoura, transmutado em bordão de peregrino. Pois foi esse bordão que ele não trouxe, e agora exigia que eu lho substituísse. Recorri ao zelador do colégio, sem sucesso. Contando apenas com a solidariedade do Silmar, vasculhei palmo a palmo o estabelecimento, em busca de um porrete, um sarrafo que fosse, e nada. Sabia que estava correndo contra o tempo e não queria sequer imaginar o que aconteceria, se este bendito pau não aparecesse.

Três características marcantes em Silmar Viana eram o talento revelado nas artes plásticas, o dom de filosofar e a vocação inata para a irreverência. Foi a única pessoa de quem já ouvi falar, em toda a minha vida, que compareceu ao trabalho no dia do seu próprio casamento. Após o ato, realizado numa quarta-feira, por volta das 11 horas, ele seguiu para a Guinasa, aonde chegou a tempo de nos pegar no refeitório, almoçando. Sem mais delongas, sacou da marmita (que havia levado consigo ao cartório) e começou a comer, enquanto contava detalhes acerca da cerimônia. Dá pra ver que eu estava em boa companhia, no cumprimento da tarefa de achar um pau. A essa altura, a busca já se estendera às ruas dos arredores.

Nas proximidades do Clube dos Quinhentos tinha uma vila de casas, com um varal de roupas sustentado por um bambu; nem alto, nem baixo: na medida exata que Henrique precisava. Nem mesmo os cachorros que vimos dormitando pelo quintal nos intimidaram. Só lembro que quando o varal desabou ao peso das roupas, uma mulher nos viu e fez alusão nada lisonjeira às nossas mães. Com a cachorrada latindo no nosso encalço, ganhamos as ruas e chegamos ao colégio, sãos e salvos. Sim, e com a missão cumprida.

Passava um pouco das 20 horas, quando o espetáculo começou. De posse de seus adereços de mão, Henrique soltava o verbo: “O meu nome é Severino,/não tenho outro de pia.(…) E se somos Severinos/iguais em tudo na vida,/morremos de morte igual,/mesma morte Severina:/que é a morte de que se morre/de velhice antes dos trinta,/de emboscada antes dos vinte,/de fome um pouco por dia…”. E o público reagia à altura, guardando silêncio respeitoso.. Eram quase 200 espectadores, num espaço que cabia pouco mais de cem pessoas sentadas. Apesar do desconforto – agravado pelo calor de novembro e a mosquitada que enfestava o ambiente –, dava pra ver que muita gente se emocionava com o texto, a música e, por que não dizer, o bom desempenho dos artistas. “Compadre José, compadre,/que na relva estais deitado:/conversai e não sabeis/que vosso filho é chegado?/Estais aí conversando/em vossa prosa entretida:/não sabeis que vosso filho/saltou para dentro da vida?..”.

E não há melhor resposta

que o espetáculo da vida:

vê-la desfiar seu fio,

que também se chama vida,

ver a fábrica que ela mesma,

teimosamente, se fabrica,

vê-la brotar como há pouco

em nova vida explodida;

mesmo quando é assim pequena

a explosão, como a ocorrida;

mesmo quando é uma explosão

como a de há pouco, franzina;

mesmo quando é a explosão

de uma vida severina.

Caiu o pano e a galera aplaudiu de pé. Após alguns minutos de comentários trocados entre si, o público ouviu rápida saudação do Stélio Lacerda e se dispersou, enquanto o elenco trocava de roupa, juntava as tralhas e embarcava no ônibus especial, rumo ao jantar na Las Vegas. A casa, embora inaugurada havia uns três anos, era ainda uma sensação na Caxias da época, tão desprovida de novidades. Sua sofisticação consistia em ter dois ambientes: a loja, propriamente dita, com seus petiscos prontos ou preparados na hora, e o mezanino, onde eram servidas refeições. Neste, o Grupo Acerto, Rogério, eu e uns poucos convidados especiais, matamos um churrasco à campanha, regado a muito chope. Tudo pago com a grana arrecadada na venda dos convites. Pensa que tudo se deu sem nenhuma saia justa? Engano. Tão logo os garçons liberaram o serviço, o grupo deu início a uma guerra de pão, tendo um dos pedaços cruzado todo o mezanino, indo atingir o chope do cliente que bebia sentado ao balcão. Apressei-me escada abaixo, a fim de evitar que tal “acinte” gerasse uma confusão. Cheguei a propor o pagamento de outro chope, mas a “vítima” nem se deu por achada. Pedindo uma colher ao copeiro, “pescou” aquele corpo estranho que boiava em seu copo e continuou bebendo, como se nada tivesse acontecido.

Jantar encerrado, acompanhei o Grupo Acerto até o Flamengo (Rua Ferreira Viana, 36), aonde moravam Renatão e Zelina, cuja comemoração dos 25 anos de casados dera início a tudo aquilo. De volta a Caxias, com o ônibus às escuras, eu só tinha a companhia do motorista e do cobrador. Este, àquela altura, cobrava apenas o direito de descansar sossegado, encolhido numa das poltronas. Encolhido em uma outra, vinha eu, que mesmo de olhos fechados visualizava a cena da mulher da janela, a qual, entre outras coisas, advertia Severino: “Só os roçados da morte/compensam aqui cultivar,/e cultivá-los é fácil:/simples questão de plantar;/não se precisa de limpa,/de adubar nem de regar;/as estiagens e as pragas/fazem-nos mais prosperar;/e dão lucro imediato;/nem é preciso esperar/pela colheita:recebe-se/na hora mesma de semear”.

*Todos os trechos do musical Morte e Vida Severina inseridos neste texto, foram extraídos do livro Morte e Vida Severina e Outros Poemas em Voz Alta, de João Cabral de Melo Neto – Livraria José Olimpio Editora – 20ª edição – Rio de Janeiro – 1984.

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