{"id":9845,"date":"2021-05-09T17:28:55","date_gmt":"2021-05-09T17:28:55","guid":{"rendered":"https:\/\/lurdinha.org\/site\/?p=9845"},"modified":"2024-05-19T22:03:21","modified_gmt":"2024-05-19T22:03:21","slug":"quem-tem-medo-da-onca-manos-e-manas-caxias-e-terra-indigena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lurdinha.org\/site\/quem-tem-medo-da-onca-manos-e-manas-caxias-e-terra-indigena\/","title":{"rendered":"Quem tem medo da on\u00e7a? Manos e manas, Caxias \u00e9 terra ind\u00edgena!"},"content":{"rendered":"<p>De acordo com Kak\u00e1 Wer\u00e1 Jacup\u00e9, historiador ind\u00edgena \u201co poder de uma palavra na boca \u00e9 o mesmo de uma flecha no arco\u201d. Em sua sabedoria imensa, Jacup\u00e9 nos mostra a pot\u00eancia criadora e transformadora das palavras e das oralidades. Essa for\u00e7a gigantesca da palavra precisa ser evocada em momentos cruciais como o que estamos vivendo. H\u00e1 um am\u00e1lgama de morte, viol\u00eancia, negacionismos, crise \u00e9tico-pol\u00edtica, intoler\u00e2ncia religiosa, racismo e apagamentos hist\u00f3ricos que nos ronda e amea\u00e7a no tempo presente.<\/p>\n<p>Os projetos de necropol\u00edtica tentam esmagar a alegria, a ci\u00eancia, as mem\u00f3rias, a diversidade \u00e9tnica e cultural, os sonhos, as hist\u00f3rias. Mas o caxiense, como todo brasileiro, \u00e9 aquele que luta, sonha, n\u00e3o desiste. Nunca desiste. Como boa caxiense que sou, n\u00e3o fujo da briga e da luta. Sonho, estudo, pesquiso, escrevo. Porque dias melhores vir\u00e3o. E pensando nas li\u00e7\u00f5es de Jacup\u00e9 (1998), o ato de escrever tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de enviar muitas flechas. \u00c9 nessa tentativa de resistir e lutar que trago para voc\u00eas algumas reflex\u00f5es importantes sobre o passado caxiense para se enfrentar os problemas do presente. Memorializar \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de resistir. Historicizar \u00e9 uma luta contra in\u00fameros agentes do apagamento de grupos sociais e de suas vozes. Dialogar com as epistemologias ancestrais, com autores ind\u00edgenas e outras concep\u00e7\u00f5es de mundo e de Hist\u00f3ria \u00e9 ir dissipando a homogeneidade dos discursos e os perigos da hist\u00f3ria \u00fanica. \u00c9 uma forma de combate contra o exterm\u00ednio de conhecimentos sobre os povos ind\u00edgenas, o epistemic\u00eddio.<\/p>\n<p>Dialogar com o passado, entender como nossos ancestrais, as mulheres e os homens do passado, viviam \u00e9 uma boa alternativa de enfrentamento dos problemas atuais. Os sil\u00eancios sobre certos grupos sociais e os epistemic\u00eddios s\u00e3o frutos de in\u00fameras rela\u00e7\u00f5es de poder e disputas de narrativas em torno do passado. Vou logo entregando o meu ouro: adoro Hist\u00f3ria. Parece ser uma fofoca ampla, geral e irrestrita. Mas n\u00e3o \u00e9 isso. \u00c9 muito mais. \u00c9 ci\u00eancia. \u00c9 entendimento da realidade social. \u00c9 conhecimento e reconhecimento das nossas mazelas. \u00c9 descoloniza\u00e7\u00e3o dos saberes e dos lugares. Al\u00e9m disso, as lutas dos nossos antepassados inspiram as nossas lutas na atualidade. Comecei este texto citando Jacup\u00e9 n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa. Ele e todos os ind\u00edgenas no Brasil viveram e vivem sob a \u00e9gide da luta e da resist\u00eancia. Falar das lutas ind\u00edgenas parece distante das quest\u00f5es de Caxias, n\u00e3o \u00e9? Errado! As lutas ind\u00edgenas s\u00e3o nossas lutas tamb\u00e9m e dizem respeito a todos os brasileiros e brasileiras. Al\u00e9m disso, h\u00e1 uma coisa que precisa ser dita, na verdade, gritada a plenos pulm\u00f5es, escrita faz tempo: Caxias \u00e9 terra ind\u00edgena. Sim, senhor! Caxias \u00e9 terra \u00e9 ind\u00edgena!<\/p>\n<p>Antes de pertencer a Igua\u00e7u, sesmaria doada a Crist\u00f3v\u00e3o Monteiro ap\u00f3s as guerras de conquista e a funda\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro, em 1565, a regi\u00e3o que deu origem aos Munic\u00edpio de Duque de Caxias era habitada por grupos ind\u00edgenas Tupi, os Tupinamb\u00e1 h\u00e1 pelo menos 8000 anos. Cidades coloniais como o Rio de Janeiro e S\u00e3o Salvador (BA) e a ocupa\u00e7\u00e3o portuguesa das suas \u00e1reas adjacentes, tanto no Rec\u00f4ncavo Baiano como no Rec\u00f4ncavo da Guanabara surgiram a partir dos confrontos promovidos lusitanos contra as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. Portanto, as cidades coloniais ocuparam os lugares ind\u00edgenas. Ou seja, o espa\u00e7o urbano fluminense \u00e9 produto das guerras coloniais que impactaram a demografia dos Povos Origin\u00e1rios a partir de 1555. Os conquistadores lusitanos que participaram das guerras de pacifica\u00e7\u00e3o, a Igreja Cat\u00f3lica atrav\u00e9s de ordens religiosas como os beneditinos, os jesu\u00edtas, entre outros, foram agentes da transforma\u00e7\u00e3o da espacialidade e das territorialidades fluminenses. A forma\u00e7\u00e3o das lavouras canavieiras movidas com o trabalho compuls\u00f3rio ind\u00edgena, a alta mortalidade gerada pelas guerras e epidemias e a pol\u00edtica de descimentos para os aldeamentos ind\u00edgenas est\u00e3o na base da depopula\u00e7\u00e3o dos Povos Origin\u00e1rios na regi\u00e3o fluminense. Entre os s\u00e9culos XVI e XVII, a prolifera\u00e7\u00e3o de engenhos de a\u00e7\u00facar na regi\u00e3o do Rec\u00f4ncavo da Guanabara se fez a partir dos usos da m\u00e3o de obra ind\u00edgena. Rememorar a viol\u00eancia desses conflitos e a constru\u00e7\u00e3o de uma economia colonial a\u00e7ucareira a partir da inser\u00e7\u00e3o dos ind\u00edgenas e seus efeitos para aquelas popula\u00e7\u00f5es \u00e9 ponto de partida para \u201cdescolonizar\u201d os corpos, os saberes, as hist\u00f3rias e os lugares.<\/p>\n<p>Nos s\u00e9culos dois seguintes, apesar das estrat\u00e9gias das elites coloniais de apagamento dos Povos Origin\u00e1rios, o arque\u00f3logo Ondemar Dias registrou a presen\u00e7a de ind\u00edgenas nos s\u00e9culos XVII, XVIII e XIX nas Freguesias de Igua\u00e7u e Jacutinga. No in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, a vinda da Fam\u00edlia Real para o Rio de Janeiro inaugurou um novo per\u00edodo de intensas viol\u00eancias contra os ind\u00edgenas. A carta r\u00e9gia de 13 de maio de 1808 foi o documento que embasou a guerra ofensiva contra os ind\u00edgenas \u201cBotocudos\u201d popula\u00e7\u00f5es heterog\u00eaneas e pertencentes ao tronco lingu\u00edstico macro-j\u00ea habitantes das margens do Rio Doce. Receberam a denomina\u00e7\u00e3o por conta do uso de artefatos de madeira nos l\u00e1bios e orelhas. Ao longo do s\u00e9culo XIX, as ideias de desaparecimento das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e foi fortemente difundida por intelectuais e pol\u00edticos. Esses epis\u00f3dios ilustram bem como as viol\u00eancias e os silenciamentos marcam a rela\u00e7\u00e3o entre a sociedade brasileira e as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas.<br \/>\nSobre as trajet\u00f3rias dos ind\u00edgenas no Rec\u00f4ncavo da Guanabara, especificamente, na Vila de Igua\u00e7u, e posteriormente, no Munic\u00edpio de Igua\u00e7u (1833) h\u00e1 enormes lacunas. Desde que se emancipou na d\u00e9cada de 1940, a Esta\u00e7\u00e3o Merity, o 8\u00ba distrito de Nova Igua\u00e7u, substituiu sua denomina\u00e7\u00e3o de origem tupi por uma homenagem \u00e0 Lu\u00eds Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, militar e patrono do Ex\u00e9rcito brasileiro. Esse processo \u00e9 emblem\u00e1tico.<\/p>\n<p>O termo \u201cMeriti\u201d significa, p\u00e9 de buriti ou \u00e1rvore alta de alimento ou vida. E faz refer\u00eancia \u00e0 palmeira <em>Mauritia flexuosa<\/em>, encontrada em todo o territ\u00f3rio nacional. O jacu ou Penelope, ave do g\u00eanero craciforme com cerca de 15 esp\u00e9cies, e a aracu\u00e3, <em>Ortalis guttata<\/em>, uma esp\u00e9cie de galin\u00e1cea consomem as flores do buriti. Seus frutos, ricos em vitamina A, \u00f3leo e betacaroteno podem servir para alimenta\u00e7\u00e3o humana e de animais silvestre. As fibras obtidas nas palhas do buritizeiro s\u00e3o usadas at\u00e9 hoje na confec\u00e7\u00e3o de colares, cestaria. A import\u00e2ncia do buriti na dieta alimentar das popula\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias \u00e9 reconhecida. A \u201c\u00e1rvore alta da vida\u201d deixou de nomear a regi\u00e3o para dar lugar ao ufanismo e exalta\u00e7\u00e3o de um \u201cher\u00f3i da p\u00e1tria\u201d. Por que as elites pol\u00edticas e econ\u00f4micas do Munic\u00edpio de Duque de Caxias esqueceram e apagaram a dimens\u00e3o ind\u00edgena da cidade ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas? \u00c9 algo que cabe aos historiadores e historiadoras investigar.<br \/>\nNa atualidade, o Munic\u00edpio de Duque de Caxias possui 41 bairros, divididos em quatro distritos. Atrav\u00e9s da topon\u00edmia podemos tamb\u00e9m reencontrar esses saberes ancestrais dos Povos Origin\u00e1rios depositados demarcando as territorialidades caxienses. Sarapuy, Saracuruna, Imbari\u00ea, Jardim Anhang\u00e1, Taquara, Parque Capivari, Amap\u00e1 s\u00e3o marcas da presen\u00e7a ind\u00edgena que as in\u00fameras estrat\u00e9gias pol\u00edticas de cerceamento das mem\u00f3rias ind\u00edgenas n\u00e3o conseguiram remover.<\/p>\n<p>De acordo com o censo do IBGE de 2010, Duque de Caxias possui cerca de 865 ind\u00edgenas. Desse total, 860 est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o urbana e 05 encontram-se na zona rural. Qual o significado dessas presen\u00e7as? Caxias segue sendo terra ind\u00edgena.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais de quinhentos anos, Jaguaret\u00ea, Iaguara, a on\u00e7a, av\u00f3 de todas e todos &#8211; mesmo daqueles e daquelas que a desconhecem &#8211; ruge forte para agu\u00e7ar as mem\u00f3rias, fortalecer as resist\u00eancias e as lutas. Continua rugindo e desafiando os sil\u00eancios e silenciadores das mem\u00f3rias e hist\u00f3rias dos povos ind\u00edgenas que habitaram a sesmaria de Igua\u00e7u, o Rec\u00f4ncavo da Guanabara, a Ba\u00eda de Guanabara, o Rio de Janeiro, o Brasil: \u00e9 tudo terra ind\u00edgena, Caxias \u00e9 terra ind\u00edgena!<\/p>\n<p>&#8211;<\/p>\n<p class=\"western\"><strong><em>Silene Orlando Ribeiro<br \/>\n<\/em><\/strong><em>Pesquisadora de Hist\u00f3ria dos Povos Origin\u00e1rios e\u00a0do Indigenismo<br \/>\nDocente de Hist\u00f3ria &#8211; SEEDUC\/RJ<br \/>\nMembro da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Hist\u00f3ria do Trabalho &#8211; \u201cGT Mundos do Trabalho\/ANPUH\u201d<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_9848\" aria-describedby=\"caption-attachment-9848\" style=\"width: 793px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-9848 size-full\" src=\"https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/Caxias_terra_indigena_DenilsonBaniwa.jpg\" alt=\"Caxias, terra indigena. arte de Denilson Baniwa\" width=\"793\" height=\"1044\" srcset=\"https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/Caxias_terra_indigena_DenilsonBaniwa.jpg 793w, https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/Caxias_terra_indigena_DenilsonBaniwa-228x300.jpg 228w, https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/Caxias_terra_indigena_DenilsonBaniwa-610x803.jpg 610w, https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/Caxias_terra_indigena_DenilsonBaniwa-768x1011.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 793px) 100vw, 793px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-9848\" class=\"wp-caption-text\">Arte do Denilson Baniwa, especialmente para este texto<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De acordo com Kak\u00e1 Wer\u00e1 Jacup\u00e9, historiador ind\u00edgena \u201co poder de uma palavra na boca&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":80,"featured_media":9848,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,4],"tags":[710,11,1359,1360,22,1358],"class_list":["post-9845","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia","category-opiniao","tag-cultura-em-caxias","tag-duque-de-caxias","tag-jaguarete","tag-onca","tag-rio-de-janeiro","tag-terra-indigena"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Quem tem medo da on\u00e7a? 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