{"id":3366,"date":"2013-03-20T04:36:37","date_gmt":"2013-03-20T04:36:37","guid":{"rendered":"http:\/\/lurdinha.org\/site\/?p=3366"},"modified":"2018-03-17T03:52:09","modified_gmt":"2018-03-17T03:52:09","slug":"a-trajetoria-do-bairro-jardim-primavera-do-sonho-elitista-a-realidade-popular","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lurdinha.org\/site\/a-trajetoria-do-bairro-jardim-primavera-do-sonho-elitista-a-realidade-popular\/","title":{"rendered":"A trajet\u00f3ria do bairro Jardim Primavera: do sonho elitista \u00e0 realidade popular"},"content":{"rendered":"<p>A an\u00e1lise da tem\u00e1tica urbana de modo geral nos remete a uma variedade de escalas, todavia os eventos que interferem na din\u00e2mica espacial se refletem no \u201clugar\u201d, independente, da escala adotada. A \u00e1rea institu\u00edda que mais se aproxima desse conceito \u00e9 a que corresponde aos limites de um bairro. O Jardim Primavera &#8211; bairro situado no distrito de Campos El\u00edseos em Duque de Caxias &#8211; nos apresenta uma hist\u00f3ria riqu\u00edssima, ratificadora das considera\u00e7\u00f5es iniciais, constitu\u00edda em alguns momentos por ciclos definidos de uso do solo. No transcorrer dessas etapas, emerge um personagem central, na figura do m\u00fasico paulista Nelson da Silveira Cintra, provedor de toda infraestrutura inicial do bairro, que o projeta como um enclave, uma \u00e1rea nobre, aos p\u00e9s da serra de Petr\u00f3polis, para ser uma esp\u00e9cie de ref\u00fagio das elites. Cintra faz desse projeto um objetivo de vida e busca viabilizar sua execu\u00e7\u00e3o de todas as formas poss\u00edveis. No entanto, algumas a\u00e7\u00f5es e condi\u00e7\u00f5es espaciais e socioecon\u00f4micas gerais, para al\u00e9m da escala local, apresentaram-se contr\u00e1rias \u00e0 execu\u00e7\u00e3o plena do mesmo, acarretando em conflitos e contradi\u00e7\u00f5es que conferem uma \u201cpluralidade singular\u201d ao ordenamento territorial do bairro no decorrer de sua hist\u00f3ria, tornando-se um convite a uma estimulante pesquisa que resultou no presente artigo.<\/p>\n<p><strong>PALAVRAS-CHAVES<\/strong>:\u00a0<em>Escalas, Bairro, Jardim Primavera, Ordenamento Territorial.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1 \u2013 INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p><strong>1.1 &#8211; JARDIM PRIMAVERA: DO SONHO ELITISTA \u00c0 REALIDADE POPULAR.<\/strong><\/p>\n<p>O bairro de Jardim Primavera, no munic\u00edpio de Duque de Caxias, reflete em parte o processo hist\u00f3rico brasileiro. A emancipa\u00e7\u00e3o do referido munic\u00edpio \u00e9 historicamente recente, datando de 31 de dezembro de 1943, e a \u00e1rea hoje ocupada pela cidade integrava o\u00a0antigo munic\u00edpio de Meriti, do qual Caxias era uma esp\u00e9cie de distrito.<\/p>\n<p>Seu povoamento prov\u00e9m do s\u00e9culo XVI, \u00e9poca das sesmarias doadas \u00e0 Capitania do Rio de Janeiro. Em 1568, Crist\u00f3v\u00e3o Monteiro, um dos grandes provedores de fazendas da regi\u00e3o, recebeu algumas terras \u00e0s margens do Rio Igua\u00e7u. Parte delas daria origem a Duque de Caxias.<\/p>\n<p>De in\u00edcio, a agricultura foi a principal atividade econ\u00f4mica do lugar. Concentrando-se, principalmente, no cultivo da cana-de-a\u00e7\u00facar, seguindo os padr\u00f5es da forma\u00e7\u00e3o espacial brasileira naquele s\u00e9culo, embora ainda contasse com a produ\u00e7\u00e3o auxiliar voltada para a subsist\u00eancia &#8211; baseada em culturas como\u00a0milho, arroz\u00a0e feij\u00e3o. Durante o ciclo da minera\u00e7\u00e3o, Duque de Caxias foi um importante ponto de passagem daqueles que se dirigiam \u00e0s minas ou dos que de l\u00e1 retornavam. Assim, as atividades relativas \u00e0 hospedagem, como os pequenos dormit\u00f3rios, pousadas, bem como o com\u00e9rcio de beira de estrada, desenvolveram-se na regi\u00e3o, aquecendo a economia local ao longo do s\u00e9culo XVIII. A possibilidade de liga\u00e7\u00e3o hidrovi\u00e1ria direta com a Baia de Guanabara tornou Caxias uma esp\u00e9cie de elo entre o Rio de Janeiro e os caminhos da serra rumo ao interior, tendo sido o antigo Porto de Estrela (hoje sub-bairro do munic\u00edpio) o grande marco desta fun\u00e7\u00e3o e desta \u00e9poca. A proximidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cidade do Rio de Janeiro, ent\u00e3o capital federal, bem como a expans\u00e3o da mesma, que desde aquela \u00e9poca trazia a futura regi\u00e3o metropolitana a reboque, s\u00f3 fez refor\u00e7ar o papel de Duque de Caxias como \u00e1rea de entroncamento.\u00a0\u00a0Nessa fase de transi\u00e7\u00e3o, o aspecto mais relevante \u00e9 a chegada da estrada de ferro a Meriti, trazendo novas perspectivas para a pol\u00edtica e a economia locais e fortalecendo o jogo de interesses que sempre foi marcante no lugar. Quanto \u00e0 estrada de ferro, devemos observar que ela reordena territorialmente o Estado do Rio de Janeiro, gerando uma nova forma\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica na economia regional. Esse fen\u00f4meno se observa da seguinte maneira: nos\u00a0locais onde a estrada\u00a0passar\u00e1, o desenvolvimento far-se-\u00e1 de maneira mais intensa, sempre no entorno das esta\u00e7\u00f5es; nas localidades antes fortes economicamente por causa de seus portos &#8211; como Estrela, Vila de Igua\u00e7u e Porto das Caixas, em Itabora\u00ed, todos na Baixada Fluminense &#8211; o esvaziamento ocorre de maneira r\u00e1pida, o que as leva, em seguida, ao ocaso econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Essa extens\u00e3o do eixo econ\u00f4mico induzida pelas ferrovias, novamente reproduz o cen\u00e1rio nacional e promove uma esp\u00e9cie de deslocamento de progresso &#8211; se \u00e9 que podemos assim cham\u00e1-lo. O certo \u00e9 que ao redor das esta\u00e7\u00f5es ferrovi\u00e1rias come\u00e7am a se formar grandes povoados, por diversos fatores, dando origem &#8211; no caso espec\u00edfico da Baixada Fluminense &#8211; a algumas cidades, dentre elas Duque de Caxias. Ainda como Meriti, esta passar\u00e1 a sofrer por sua proximidade com a metr\u00f3pole as consequ\u00eancias do progresso e o incha\u00e7o populacional ocorridos no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>O atual bairro de Jardim Primavera, em seus prim\u00f3rdios, era parte integrante de uma grande fazenda, a Luis Ferreira, que seguia os moldes das culturas da \u00e9poca, passando por canaviais, laranjais e uma pequena parte de planta\u00e7\u00e3o de subsist\u00eancia, demonstrando, assim, a fun\u00e7\u00e3o rural da regi\u00e3o na \u00e9poca.<\/p>\n<p>Em um segundo momento essa fazenda passa por um grande loteamento, e \u00e9 dividida em diversas partes, dando origem a alguns bairros do 2\u00ba distrito de Caxias (Campos El\u00edseos), como Saracuruna, Campos El\u00edseos, al\u00e9m do pr\u00f3prio Jardim Primavera, entre outros.<\/p>\n<p>O loteamento que deu origem ao bairro foi adquirido pelo Sr. Nelson da Silveira Cintra, em 27 de dezembro de 1945, \u00e9poca na qual Duque de Caxias j\u00e1 havia se emancipado, mas ainda n\u00e3o possu\u00eda um aparelho de Estado com prefeito e vereadores. A \u00e1rea do Jardim Primavera\u00a0compreendia 577.288.39 m, divididos segundo as distintas\u00a0\u201cfun\u00e7\u00f5es espaciais\u201d, conforme podemos observar no quadro a seguir:<\/p>\n<p><strong><em>QUADRO I<\/em><\/strong><\/p>\n<table border=\"1\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td valign=\"top\" width=\"456\">\uf0b7\u00a0\u00a0\u00a0<strong>\u00c1rea a ser loteada: 452.029.19 m<\/strong><strong>\uf0b7\u00a0\u00a0\u00a0\u00c1rea reservada as estradas e espa\u00e7o livre: 110.078.66m<\/strong><\/p>\n<p><strong>\uf0b7\u00a0\u00a0\u00a0\u00c1rea doada a futura prefeitura: 11.545.77 m<\/strong><\/p>\n<p><strong>\uf0b7\u00a0\u00a0\u00a0\u00c1rea de prote\u00e7\u00e3o a manancial: 3.643.77 m<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><em>Distribui\u00e7\u00e3o das fun\u00e7\u00f5es por \u00e1rea em Jardim Primavera<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pela distribui\u00e7\u00e3o explicitada no quadro, fica clara a prioridade de cunho financeiro no ato da realiza\u00e7\u00e3o do neg\u00f3cio, haja vista a extens\u00e3o destinada aos lotes e \u00e0 especula\u00e7\u00e3o que se sucederia. Ficou determinado, posteriormente, que fossem criados 451 lotes com cerca de\u00a0500 a\u00a01500 m\u00b2\u00a0em m\u00e9dia para serem vendidos a presta\u00e7\u00f5es, sob condi\u00e7\u00f5es especiais sobre as quais discorreremos adiante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2 \u2013 DESENVOLVIMENTO<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2.1 &#8211;\u00a0O SONHO DE CINTRA: UM CONDOM\u00cdNIO DE LUXO NO 2\u00b0 DISTRITO, O JARDIM PRIMAVERA.<\/strong><\/p>\n<p>O Jardim Primavera vivenciou a maior parte das fases e\/ou ciclos econ\u00f4micos brasileiros supracitados, entretanto, carrega consigo uma s\u00e9rie de particularidades que o tornam um interessant\u00edssimo objeto de estudo, principalmente para o\u00a0ramo da geografia nas suas diversas modalidades como a Geografia Agr\u00e1ria, Pol\u00edtica, da Popula\u00e7\u00e3o, Urbana e, principalmente, daquela que remete a an\u00e1lise dos espa\u00e7os perif\u00e9ricos.<\/p>\n<p>O bairro fica no centro geogr\u00e1fico do munic\u00edpio, caracter\u00edstica que ser\u00e1 extremamente relevante no cen\u00e1rio contempor\u00e2neo em raz\u00e3o\u00a0de quest\u00f5es pol\u00edticas que levaram a sede da prefeitura a deixar o Centro de Caxias para ocupar o Jardim Primavera &#8211; conforme se observa em Santana (2010) &#8211; desencadeando uma s\u00e9rie de transforma\u00e7\u00f5es no mesmo.\u00a0\u00a0Localizado \u00e0s margens da Rodovia Washington Luis, nota-se com facilidade sua posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica como parte do caminho da minera\u00e7\u00e3o citado anteriormente.<\/p>\n<p>No que tange ao papel desempenhado por Nelson Cintra na regi\u00e3o, sabe-se que o mesmo desenvolvia diversas atividades, dentre elas, est\u00e3o a de m\u00fasico do Theatro Municipal, professor de m\u00fasica em Campinas e corretor de im\u00f3veis que destinava as arrecada\u00e7\u00f5es de suas vendas \u00e0 compra de outros im\u00f3veis em novas \u00e1reas de desenvolvimento promissor, atuando desde ent\u00e3o como grande agente no ramo imobili\u00e1rio, sendo essa aparentemente sua principal atividade, condizente com os rumos que pretendia dar ao Jardim Primavera.<\/p>\n<p>Independente de sua principal\u00a0forma\u00e7\u00e3o ou ramo profissional, o que se sabe ao certo \u00e9 que Nelson Cintra \u00e9 o personagem mais importante dos atores sociais que passaram por Jardim Primavera, iniciando todo e qualquer desenvolvimento na localidade, sendo poss\u00edvel encontrar suas marcas at\u00e9 hoje na regi\u00e3o, embora a maioria da popula\u00e7\u00e3o local n\u00e3o preserve sua mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>No que concerne \u00e0 cultura agr\u00e1ria desenvolvida no bairro no per\u00edodo pr\u00e9-loteamento, o abacaxi era o principal produto, sendo toda a extens\u00e3o da Primavera uma enorme fazenda produtora da fruta. Cintra compra os lotes no intuito de tornar o lugar um bairro de elite, diferenciado, que primasse pela qualidade de vida. Baseou-se na geografia da regi\u00e3o para desenvolver esse racioc\u00ednio, um bairro aos p\u00e9s da serra de Petr\u00f3polis, de clima agradabil\u00edssimo, cercado de muito verde e que certamente atrairia uma popula\u00e7\u00e3o de maior poder aquisitivo.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o provedor do bairro passa a instalar equipamentos urbanos no local e a iniciar um longo ciclo de inaugura\u00e7\u00f5es que fizesse parecer valer a pena pagar o alto pre\u00e7o pedido por ele nos terrenos da regi\u00e3o e acentuasse as poss\u00edveis vantagens de se viver ali. Cintra parte, ent\u00e3o, para as obras estruturais: abre in\u00fameras\u00a0ruas, constr\u00f3i uma escola, um posto de atendimento m\u00e9dico, instala \u00e1gua encanada e funda o Clube Primavera, principal local de lazer e entretenimento da regi\u00e3o durante muitos anos. Ainda no \u00e2mbito das realiza\u00e7\u00f5es, ele promove a constru\u00e7\u00e3o da primeira farm\u00e1cia do local, onde anos depois instalar-se-\u00eda a primeira igreja, em uma transforma\u00e7\u00e3o do pr\u00e9dio da farm\u00e1cia no templo de S\u00e3o Judas Tadeu.<\/p>\n<p>Com todas essas obras, Cintra\u00a0eleva os custos dos lotes e exige de seus compradores a constru\u00e7\u00e3o de im\u00f3veis bonitos e imponentes, que fa\u00e7am jus a um bairro elitista. Essa atitude faz com que a procura por lotes seja pequena e a ocupa\u00e7\u00e3o se d\u00ea no entorno da estrada, transformando-se\u00a0<em>a posteriori<\/em>em uma esp\u00e9cie de centro do bairro, que manter\u00e1 tra\u00e7os dessa ocupa\u00e7\u00e3o at\u00e9 os dias de hoje.<\/p>\n<p>Os compradores desses primeiros lotes s\u00e3o em sua maioria imigrantes europeus, principalmente poloneses, alem\u00e3es, russos, austr\u00edacos e italianos. Isso \u00e9 impens\u00e1vel contemporaneamente, tendo em vista que Duque de Caxias, ou mesmo a Baixada Fluminense, est\u00e1\u00a0estigmatizada como s\u00edmbolo da miscigena\u00e7\u00e3o &#8211; conceito introduzido desde a d\u00e9cada de 40 de forma marcante naquele munic\u00edpio, e reproduzindo tamb\u00e9m o cen\u00e1rio encontrado na maior parte do Brasil.<\/p>\n<p>Tais imigrantes se encaixavam no perfil proposto por Cintra de bom poder aquisitivo, e traziam consigo a possibilidade de \u201cbranqueamento\u201d da popula\u00e7\u00e3o do local, j\u00e1 que na antiga fazenda Luis Ferreira os habitantes eram quase exclusivamente escravos negros.<\/p>\n<p>Dessa forma, aos poucos parecia que Cintra conseguiria realizar seu sonho elitista para o Jardim Primavera, ao qual ele nomeou assim por achar que belos nomes atrairiam bons fluidos para o lugar, al\u00e9m \u00e9 claro, de o bairro ter sido fundado na esta\u00e7\u00e3o das flores.<\/p>\n<p>No prosseguimento de suas realiza\u00e7\u00f5es, Nelson Cintra tamb\u00e9m foi o respons\u00e1vel pela constru\u00e7\u00e3o da esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria do bairro, alvo de muita pol\u00eamica, j\u00e1 que o mesmo a fez \u201cpor conta pr\u00f3pria\u201d, haja vista que a Estrada de Ferro Leopoldina (empresa do governo que coordenava o transporte ferrovi\u00e1rio na \u00e9poca) n\u00e3o tinha planos para o local, por considerar suficientes para suprir \u00e0 demanda as esta\u00e7\u00f5es de Saracuruna e Campos El\u00edseos, bairros pr\u00f3ximos ao Jardim Primavera.<\/p>\n<p>Com esse tipo de atitude, em beneficio da popula\u00e7\u00e3o local e visando seu pr\u00f3prio futuro, Cintra pode ser considerado um dos precursores do clientelismo na regi\u00e3o, apesar de muitos defenderem seu senso comunit\u00e1rio. Pois em seguida se lan\u00e7a na vida pol\u00edtica, chegando a concorrer por duas vezes \u00e0 prefeitura de Caxias, e desde ent\u00e3o formando o seu \u201ccurral eleitoral\u201d, pr\u00e1tica comum na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>A estrada de ferro constru\u00edda por ele foi doada \u00e0 rede federal &#8211; e entregue num evento pomposo &#8211; pelo ent\u00e3o prefeito Duque de Caxias, Sr. Gast\u00e3o Reis\u00a0<a href=\"http:\/\/www.feth.ggf.br\/Cintra.htm#_ftn1\">[1]<\/a>, que ofereceria, junto \u00e0 rec\u00e9m instalada C\u00e2mara Municipal, o t\u00edtulo de cidad\u00e3o Duquecaxiense a Cintra, condecorando-o com a medalha do m\u00e9rito do munic\u00edpio no ano de 1961.<\/p>\n<p>Tendo Gast\u00e3o como\u00a0aliado, Cintra\u00a0ainda inaugura a ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica do bairro, promove a visita de Jo\u00e3o Goulart ao lugar e, ao ceder o terreno para constru\u00e7\u00e3o do Col\u00e9gio Primavera, pioneiro na regi\u00e3o, ganha o apoio de Heitor Combat, professor influente na pol\u00edtica Caxiense, de fam\u00edlia respeitad\u00edssima na educa\u00e7\u00e3o do munic\u00edpio. Ainda assim, n\u00e3o consegue se eleger prefeito da cidade, por motivos escusos na apura\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es, que reproduziam a pol\u00edtica olig\u00e1rquica\/coronelista vigentes no pa\u00eds, apresentando den\u00fancias de compra de votos, e falta de crit\u00e9rio na composi\u00e7\u00e3o do eleitorado, com a presen\u00e7a de loucos votando, e a considera\u00e7\u00e3o de votos de in\u00fameros cidad\u00e3os mortos a favor dos candidatos mais influentes, dentre outros empecilhos que o impediram de assumir o poder em Caxias. No entanto, outros fatores tamb\u00e9m contribu\u00edram para inviabilizar os sonhos de Cintra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2.2 O JARDIM PRIVAVERA NA CONTRAM\u00c3O DA EXPANS\u00c3O DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO<\/strong><\/p>\n<p>O crescimento desenfreado da cidade do Rio de Janeiro e o consequente encarecimento do solo urbano, aliado \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o intensa dos espa\u00e7os no primeiro distrito do munic\u00edpio, principalmente no entorno da esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria, como visto anteriormente, \u201cempurra\u201d uma grande massa de popula\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o aos demais distritos da cidade e a outros munic\u00edpios da Baixada Fluminense. No \u201ccaminho\u201d dessa expans\u00e3o, o Jardim Primavera de Cintra n\u00e3o consegue \u201cescapar\u201d da fuga das popula\u00e7\u00f5es de menor poder aquisitivo que precisavam fazer uma moradia qualquer, por mais improvisada que fosse para fugir dos alugu\u00e9is abusivos. Assim, o bairro \u201cPrimaveril\u201d termina por perder suas caracter\u00edsticas originais abrindo espa\u00e7os para uma ocupa\u00e7\u00e3o desordenada e desesperada de prolet\u00e1rios que se refugiavam por l\u00e1. Com a diminui\u00e7\u00e3o da \u00e1rea de cada lote e incremento do tamanho das comunidades houve um princ\u00edpio de faveliza\u00e7\u00e3o no bairro.<\/p>\n<p>Ainda assim, devido a sua consider\u00e1vel extens\u00e3o, por um longo per\u00edodo o mesmo apresentar\u00e1 alguns vazios urbanos que desaparecer\u00e3o no decorrer do processo evolutivo que se dar\u00e1 at\u00e9 o cen\u00e1rio atual.<\/p>\n<p>Cabe ressaltar, nesse curto ensaio a respeito dos prim\u00f3rdios do bairro, que a abertura da Rodovia Presidente Washington Luis ocasionar\u00e1 a decad\u00eancia do transporte ferrovi\u00e1rio da regi\u00e3o, e mais uma vez retratando fielmente a pol\u00edtica adotada no Brasil, o Jardim Primavera abandonar\u00e1, ou ser\u00e1 abandonado pela \u201cestrada de ferro\u201d, passando a sua popula\u00e7\u00e3o a depender exclusivamente das empresas de \u00f4nibus que viriam a cobrar valores abusivos nas passagens. Esse abandono \u00e9 decorrente do sucateamento da \u201cestrada de ferro\u201d, que deixa de usar trens de bitola estreita, e com isso n\u00e3o passar\u00e1 mais pelo Jardim Primavera.<\/p>\n<p>Ainda assim, na d\u00e9cada de 70, Cintra disponibiliza dois \u00f4nibus para a popula\u00e7\u00e3o, fazendo a linha \u201cJardim Primavera x Caxias x Castelo\u201d, em um hor\u00e1rio pela manh\u00e3 e outro \u00e0 noite, para levar e buscar a popula\u00e7\u00e3o de seus respectivos trabalhos no Rio, j\u00e1 deixando clara a fun\u00e7\u00e3o de dormit\u00f3rio assumida por Caxias desde antes de sua emancipa\u00e7\u00e3o. Portanto,\u00a0em que pese os esfor\u00e7os de Cintra no sentido de construir um enclave para a elite da regi\u00e3o, esse \u00e9 o panorama do bairro e do munic\u00edpio at\u00e9 meados da d\u00e9cada de 70.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CONCLUS\u00d5ES<\/strong><\/p>\n<p>Embora a regi\u00e3o do Jardim Primavera tenha seguido os modelos de ocupa\u00e7\u00e3o caracter\u00edsticos da Baixada (monoculturas, ciclos econ\u00f4micos&#8230;), o projeto de Cintra buscou reverter essa tend\u00eancia iniciando\u00a0um processo de urbaniza\u00e7\u00e3o elitista, com a chegada de imigrantes estrangeiros de consider\u00e1vel poder aquisitivo.<\/p>\n<p>Na proposta do provedor local, visualizamos uma tentativa incipiente de forma\u00e7\u00e3o de condom\u00ednios fechados, como os que proliferam atualmente em \u00e1reas consideradas nobres de grandes cidades, cuja base seria uma infra-estrutura s\u00f3lida e a constru\u00e7\u00e3o de casas imponentes e bem acabadas, antecipando a proposta contempor\u00e2nea de homogeneiza\u00e7\u00e3o de classes sociais em um mesmo espa\u00e7o, representada por enclaves fortificados segundo Lavinas e Nabuco (1994) que, por vezes, formam cidades de muros, afastadas dos Centros, em prol da referida homogeneiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Raffestin (1993) afirma que do poder p\u00fablico ao indiv\u00edduo, passando por organiza\u00e7\u00f5es grandes e pequenas, h\u00e1 atores sintagm\u00e1ticos que produzem o territ\u00f3rio. Nessa an\u00e1lise, depreendemos a import\u00e2ncia do papel de Cintra, enquanto ator individual, e reafirmamos ser deveras ambicioso seu projeto, quando observamos suas tentativas de participar do poder p\u00fablico, aumentando sua esfera de atua\u00e7\u00e3o. Para o mesmo autor, o territ\u00f3rio \u00e9 um espa\u00e7o onde h\u00e1 o exerc\u00edcio do controle. No caso de Jardim Primavera, tal controle centrava-se na figura de um s\u00f3 homem &#8211; quando da cria\u00e7\u00e3o\u00a0do bairro &#8211; formando uma territorialidade particular, em um primeiro momento, e\u00a0<em>a posteriori<\/em>\u00a0buscando a forma\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o adequado \u00e0s suas aspira\u00e7\u00f5es e prefer\u00eancias. Ao tentar homogeneizar classe social e etnia em um mesmo local, promoveu, atrav\u00e9s de sua atividade de corretor, a forma\u00e7\u00e3o de uma \u00e1rea de segrega\u00e7\u00e3o socioespacial evidente, baseada no processo especulativo que elevou os pre\u00e7os dos lotes a patamares inacess\u00edveis para a popula\u00e7\u00e3o \u201cindesejada\u201d pelas classes mais abastadas.<\/p>\n<p>O Jardim Primavera desejado por Cintra se caracteriza como o lugar do viver, nos escritos de Harvey (1982). Todavia, esse lugar projetado como espa\u00e7o de homogeneidade social, torna-se palco de uma heterogeneidade conflituosa, haja vista que\u00a0o insucesso de Cintra na tentativa de formar um bairro totalmente elitista ocasiona o surgimento de \u201cdois bairros em um\u201d, com \u00e1reas ricas e pobres estabelecidas e a manuten\u00e7\u00e3o de uma variedade na composi\u00e7\u00e3o social que denota uma territorialidade associada ao conceito defendido por\u00a0Santos e Silveira (2001), que fornecem uma perspectiva de territ\u00f3rio onde o mesmo \u00e9 conceituado como uma unidade com diversidade.<\/p>\n<p>Refor\u00e7ando a hip\u00f3tese de segrega\u00e7\u00e3o socioespacial, decorrente da \u201cinvas\u00e3o\u201d promovida pela popula\u00e7\u00e3o de baixa renda oriunda da cidade do Rio de Janeiro e dos migrantes que chegavam de toda parte do pa\u00eds, inaugurando um processo de faveliza\u00e7\u00e3o no que seria o condom\u00ednio de Cintra. Adentramos, assim, no que seria o terceiro ciclo, o da suburbanizac\u00e3o, no qual vislumbramos uma luta de classes, com territorialidades distintas habitando o mesmo espa\u00e7o, marcado pela segrega\u00e7\u00e3o at\u00e9 os dias atuais.<\/p>\n<p>Tal segrega\u00e7\u00e3o, iniciada ainda nos tempos de Cintra, foi fortalecida na d\u00e9cada de 90 com a transfer\u00eancia da sede da prefeitura para a \u00e1rea nobre de Jardim Primavera, refletindo a import\u00e2ncia de seu papel enquanto agente transformador do espa\u00e7o e um dos respons\u00e1veis, ou mesmo o principal deles, pelos (re)ordenamentos\u00a0territoriais promovidos na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Portanto, no cen\u00e1rio atual, configura-se um novo ciclo, o da revitaliza\u00e7\u00e3o, acompanhada pela segrega\u00e7\u00e3o, que ratificam o resultado do projeto de Cintra e conferem ao Jardim Primavera uma identidade plural, mas predominantemente popular, distante do sonho inicial, mas que deixou tra\u00e7os que perduram no bairro at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>BIBLIOGRAFIA<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>HARVEY,\u00a0D.\u00a0<em>\u201cO trabalho, o capital e o conflito de classes em torno do ambiente constru\u00eddo nas sociedades capitalistas avan\u00e7adas\u201d<\/em>\u00a0<strong>Espa\u00e7o &amp; Debates<\/strong>, S\u00e3o Paulo, n.6, p. 6-35, jun.\/set., 1982.<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li>LAVINAS, Lena e NABUCO, Maria Regina. \u201c<em>Regionaliza\u00e7\u00e3o: problemas de m\u00e9todo<\/em>\u201d. Espa\u00e7o e Debates, n.38, ano XIV, 1994, p. 21-26.<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li>MARICATO, Erm\u00ednia.\u00a0<em>\u201cBrasil 2000: qual planejamento urbano?\u201d.<\/em>\u00a0Cadernos IPPUR, n.\u00a01\u00a0e 2, Ano XI, 1997, p. 113 \u2013 130.<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li>RAFFESTIN, C.\u00a0<em>Por uma geografia do poder<\/em>. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1993.<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li>SANTANA, Thiago C.\u00a0<em>Reordenamento pol\u00edtico-territorial de Duque de Caxias, mudan\u00e7a de sede da prefeitura e seus impactos.<\/em>\u00a0Niter\u00f3i, 2010, VI, Trabalho de conclus\u00e3o de curso, EDUFF.<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li>SANTOS, Milton; SILVEIRA, A.\u00a0<em>O Brasil<\/em>. Rio de Janeiro: Record, 2001.<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li>SOUZA, Marl\u00facia Santos de.\u00a0<em>Escavando o passado da cidade: Duque de Caxias e os projetos de poder pol\u00edtico local (1900 \u2013 1964).<\/em>\u00a0Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado. Niter\u00f3i, UFF\/PPGH, 2002.<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li>TORRES, Rog\u00e9rio.\u00a0<em>Evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica dos distritos e os processos de emancipa\u00e7\u00e3o.<\/em>\u00a0Duque de Caxias. In: TORRES, G\u00eanesis (org.). Baixada Fluminense: a constru\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria: sociedade, economia, pol\u00edtica. S\u00e3o Jo\u00e3o de Meriti, IPAHB Editora, 2004.<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>SANTANA, Thiago\u00a0Coutinho<\/p>\n<p>Graduado em Geografia pela UFF<\/p>\n<p>E-mail:\u00a0<a href=\"mailto:tcs1986@gmail.com\">tcs1986@gmail.com<\/a><\/p>\n<p>Link:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.feth.ggf.br\/Cintra.htm\" target=\"_blank\">http:\/\/www.feth.ggf.br\/Cintra.htm<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_3527\" aria-describedby=\"caption-attachment-3527\" style=\"width: 590px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3527\" alt=\"Entrada de Jardim Primavera - 1957\" src=\"http:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/jardimprimavera57-.jpg\" width=\"590\" height=\"455\" srcset=\"https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/jardimprimavera57-.jpg 590w, https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/jardimprimavera57--300x231.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 590px) 100vw, 590px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3527\" class=\"wp-caption-text\">Entrada de Jardim Primavera &#8211; 1957. 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