{"id":295,"date":"2011-03-19T16:13:59","date_gmt":"2011-03-19T16:13:59","guid":{"rendered":"http:\/\/lurdinha.org\/site\/?p=295"},"modified":"2011-04-03T19:08:01","modified_gmt":"2011-04-03T19:08:01","slug":"funk","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lurdinha.org\/site\/funk\/","title":{"rendered":"funk"},"content":{"rendered":"<p>funk&#8230;<\/p>\n<p>VAMOS ENTENDER A HIST\u00d3RIA<\/p>\n<p>Por Moscafrita e Slow DaBF<\/p>\n<p>O funk, caracterizado por um segmento musical provindo de uma sonoriza\u00e7\u00e3o imediata da raiz africana, surgiu nos EUA no final dos anos 60 \u2013 com um conceito transcendente de negritude, empregando ritmos mais marcados, pesados e com arranjos mais agressivos.<\/p>\n<p>De acordo com alguns especialistas, seria o irm\u00e3o mais radical do soul music.<br \/>\nA soul music emergiu no inicio dos anos 60 descrevendo de forma \u00edntima e \u00fanica as experi\u00eancias de vida dos afro-americanos.<\/p>\n<p>Muito embora a maioria das m\u00fasicas do repert\u00f3rio soul n\u00e3o fossem destinadas \u00e0s causas do movimento pelos direitos civis \u2013 que estava em curso nos EUA dos anos 60 \u2013 a comunidade negra adotou tal estilo musical como s\u00edmbolo de orgulho negro e de consci\u00eancia racial.<\/p>\n<p>Nos anos 70, em plena ditadura militar, no elegante bairro de Botafogo \u2013 mais precisamente na casa de espet\u00e1culos Canec\u00e3o \u2013 foram realizados os primeiros encontros que posteriormente viriam a ficar conhecidos como bailes funk.<\/p>\n<p>Nestes bailes reuniam-se todos os domingos cerca de cinco mil jovens, vindos de todos os cantos da cidade, que esperavam ansiosos para ouvir os principais sucessos cantados por James Brown, Wilson Pickett , Kool and the Gang e Sly and Family Stone.<\/p>\n<p>Estes encontros domingueiros (denominados \u201cBailes da Pesada\u201d e idealizados por Big Boy e Ademir Lemos), em virtude de algumas restri\u00e7\u00f5es impostas pelos diretores da casa, que supostamente passaram a privilegiar apresenta\u00e7\u00f5es de artistas da MPB, foram transferidos para alguns clubes do sub\u00farbio do Rio, mesmo gozando de muito sucesso e aceita\u00e7\u00e3o de p\u00fablico.<\/p>\n<p>No entanto, as restri\u00e7\u00f5es que culminaram com a transfer\u00eancia dos \u201cBailes da Pesada\u201d para o sub\u00farbio, economicamente n\u00e3o condiziam com a resposta do p\u00fablico, que lotava o Canec\u00e3o dos ditatoriais anos 70.<\/p>\n<p>Segundo Ademir Lemos, \u201cas coisas estavam indo muito bem por l\u00e1. Os resultados financeiros estavam correspondendo \u00e0 expectativa. Por\u00e9m, come\u00e7ou a haver falta de liberdade do pessoal que freq\u00fcentava.<\/p>\n<p>Os diretores come\u00e7aram a pichar tudo, a por restri\u00e7\u00e3o em tudo. Mas n\u00f3s \u00edamos ,levamos , at\u00e9 que pintou a id\u00e9ia da dire\u00e7\u00e3o do Canec\u00e3o de fazer um show com o Roberto Carlos. Era a oportunidade deles para intelectualizar a casa, e eles n\u00e3o iam perd\u00ea-la, por isso fomos convidados pela dire\u00e7\u00e3o a acabar com o baile.\u201d<\/p>\n<p>As m\u00fasicas politicamente rebeldes de James Brown definitivamente n\u00e3o poderiam continuar sendo executadas no cora\u00e7\u00e3o da cidade nos conhecidos anos de chumbo.<\/p>\n<p>No sub\u00farbio, estes bailes embalados pelos sucessos da m\u00fasica negra norte-americana puderam contar com a receptividade calorosa de um p\u00fablico empolgado com as realiza\u00e7\u00f5es daqueles encontros musicais pr\u00f3ximo \u00e0s suas casas. Em pouco tempo os bailes suburbanos se multiplicaram.<\/p>\n<p>Alguns de seus freq\u00fcentadores ass\u00edduos passaram a montar suas pr\u00f3prias equipes de som para animar pequenas festas em seus bairros. O ecletismo musical do inicio \u2013 adotado pelos \u201cBailes da Pesada\u201d que contavam tamb\u00e9m com a sele\u00e7\u00e3o de m\u00fasicas como o rock e o pop \u2013 foi sendo deixado de lado e os bailes passaram a ser exclusivamente de m\u00fasica negra como funk e soul.<\/p>\n<p>Assim, as levadas dan\u00e7antes marcadas por pegadas de guitarras e baixos muito bem definidos, sustentadas pelo swing peculiar dos bateristas negros norte-americanos e embaladas nas vozes de cantores que utilizavam em suas dan\u00e7as e roupas uma est\u00e9tica de elementos de rebeldia e de identifica\u00e7\u00e3o negra, proporcionavam uma experi\u00eancia sonora agressiva e extremamente sensual ao p\u00fablico suburbano.<\/p>\n<p>Logo aquelas pequenas equipes, que outrora realizavam aquelas pequenas festas em seus bairros, passaram a circular de bairro em bairro acompanhadas de seus cativos e fi\u00e9is seguidores, possibilitando, assim, o surgimento de equipes de som (Revolu\u00e7\u00e3o da mente, Uma mente numa boa, Atabaque, Black Power, Soul Grand Prix) e o sucesso de determinadas m\u00fasicas, dan\u00e7as e indument\u00e1ria peculiar em todos os bailes.<\/p>\n<p>DJ Paul\u00e3o, meu parceiro. Eu no fundo e o Peixinho ao meu lado. Local Gr\u00eamio de Rocha Miranda. N\u00e3o sei aonde est\u00e1 a outra foto que al\u00e9m dos tr\u00eas o &#8220;Big Boy&#8221; est\u00e1 presente.<\/p>\n<p>DJ Paul\u00e3o. Paulinho e Peixinho . Local Gr\u00eamio de Rocha Miranda.<\/p>\n<p>Os anos de 74, 75 e 76 foram decisivos para a exposi\u00e7\u00e3o dos bailes.<\/p>\n<p>Foi o per\u00edodo em que as pessoas n\u00e3o escondiam suas caracter\u00edsticas negras, exibiam orgulhosamente seus cabelos afros, cal\u00e7avam seus pisantes, vestiam cal\u00e7as de bocas abertas, imitavam as dan\u00e7as sensuais de James Brown, e estava tudo vinculado \u00e0 express\u00e3o \u201cblack is beautiful\u201d.<\/p>\n<p>Proliferaram-se dessa maneira enormes encontros populares, divulgados apenas pelas equipes nos finais de cada baile e por cartazes espalhados pelo sub\u00farbio. Surgiam os bailes black, respons\u00e1veis pela mobiliza\u00e7\u00e3o de um p\u00fablico bastante homog\u00eaneo, formado predominantemente por pessoas de pele negra.<\/p>\n<p>O clube Renascen\u00e7a, fundado no M\u00e9ier e logo transferido para o Andara\u00ed no final dos anos 50, pode ser considerado decisivo na exposi\u00e7\u00e3o definitiva dos bailes black: nesse espa\u00e7o foram promovidos encontros culturais nos quais eram realizadas reuni\u00f5es e apresenta\u00e7\u00f5es teatrais objetivando o m\u00e1ximo c\u00e2mbio de informa\u00e7\u00f5es sobre a cultura negra.<\/p>\n<p>Por volta de 1975 a equipe Soul Grand Prix, fundada por Dom Fil\u00f3 e surgida desta efervesc\u00eancia cultural, desencadeou uma nova fase no funk carioca, apelidada pela imprensa de \u201cBlack Rio\u201d.<\/p>\n<p>Nas festas promovidas pela Soul Grand Prix \u2013 onde se reuniam at\u00e9 quinze mil pessoas num baile comum \u2013 havia uma intensa campanha de conscientiza\u00e7\u00e3o feita por meio de slides de personalidades negras.<\/p>\n<p>\u00c0 medida em que os bailes eram realizados e o p\u00fablico interagia com as m\u00fasicas, eram projetados slides com cenas de filmes e fotografias de m\u00fasicos e esportistas negros. A id\u00e9ia era simples: aquelas proje\u00e7\u00f5es serviam para uma aproxima\u00e7\u00e3o e reciprocidade entre os negros, mostrando-lhes que a condi\u00e7\u00e3o rotulada diariamente e noticiada pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o era a \u00fanica.<\/p>\n<p>Dessa forma os jovens negros, politizados ou n\u00e3o, reuniam-se para ouvirem o melhor do soul e funk, inspirando-se nas conquistas pol\u00edticas,esportistas e art\u00edsticas dos negros norte-americanos.<\/p>\n<p>Os bailes lotados, as roupas seguindo um estilo determinado, os cabelos \u201cblack power\u201d e as m\u00fasicas sempre pedidas e aguardadas resultavam numa espera consumidora por parte dos freq\u00fcentadores que participavam ativamente destes encontros.<\/p>\n<p>Deste modo, em 1976, o movimento Black Rio contribuiu em grande escala para a consolida\u00e7\u00e3o de um segmento cultural que culminou com o surgimento de um grande mercado consumidor.<br \/>\nAinda que seus freq\u00fcentadores e os pr\u00f3prios idealizadores n\u00e3o pretendessem ser vinculados a movimentos com militantes esquerdistas, a cultura dominante viu com bastante receio o espa\u00e7o alcan\u00e7ado pelo movimento Black Rio.<\/p>\n<p>Os organizadores destes bailes por vezes foram conduzidos ao Departamento de Ordem e Pol\u00edtica Social (DOPS) e submetidos a interrogat\u00f3rios pela suposi\u00e7\u00e3o de envolvimento com grupos pol\u00edticos clandestinos.<\/p>\n<p>O mundo funk, definitivamente, havia sido descoberto. A partir da\u00ed, mat\u00e9rias de jornais e revistas estampavam em suas p\u00e1ginas informa\u00e7\u00f5es de um movimento que grande parte da popula\u00e7\u00e3o nunca tinha ouvido falar.<\/p>\n<p>Neste momento, os ritmos funk e soul, que serviam de fundo musical para os bailes black, cambiavam o seu prop\u00f3sito de divers\u00e3o para se tornarem um potencial instrumento de apoio e supera\u00e7\u00e3o do racismo. O car\u00e1ter pol\u00edtico, ainda que n\u00e3o fosse uma caracter\u00edstica pretendida por seus principais idealizadores e colaboradores, surgia espontaneamente da mesma forma com que ocorria a mobiliza\u00e7\u00e3o dos freq\u00fcentadores de bailes black.<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que tal movimento foi de suma import\u00e2ncia para que aqueles encontros fossem encarados com especial seriedade e, assim, reconhecidos como um consistente movimento cultural.<\/p>\n<p>A segunda metade da d\u00e9cada de 70 tamb\u00e9m foi marcada pela inser\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica no universo funk. A equipe Soul Grand Prix foi a pioneira no lan\u00e7amento de discos de \u201cequipe de som\u201d, sendo logo seguida pela Dynamc Soul, Black Power e Furac\u00e3o 2000, que lan\u00e7ou um de seus vinis no Maracan\u00e3nzinho.<\/p>\n<p>Por\u00e9m todo aquele sucesso ef\u00eamero, conquistado com a chegada do soul e conseq\u00fcentemente do funk, no inicio da d\u00e9cada de 70 no Rio de Janeiro, n\u00e3o se manteve na mesma dire\u00e7\u00e3o nos primeiros anos da d\u00e9cada de 80.<\/p>\n<p>A onda febril das discotecas, introduzidas com os filmes de John Travolta, ocupou boa parte dos notici\u00e1rios musicais do Rio de Janeiro e, conseq\u00fcentemente, as pequenas equipes de funk se contentaram com a transi\u00e7\u00e3o para a discotheque.<\/p>\n<p>Na car\u00eancia de um som que proporcionasse o prazer daquelas nost\u00e1lgicas reuni\u00f5es musicais, o sub\u00farbio promoveu a propaga\u00e7\u00e3o nos primeiros anos da d\u00e9cada de 80 do disco-funk, realizada pelo ent\u00e3o DJ Cidinho Cambalhota.<\/p>\n<p>Essa mais nova ramifica\u00e7\u00e3o do funk caracterizou, no Rio, a retomada da negritude funk do esquema cada vez mais polido e cada vez mais eletr\u00f4nico da discothique, reconhecida como respons\u00e1vel pela indefini\u00e7\u00e3o do funk nas programa\u00e7\u00f5es cariocas.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o fosse um estilo totalmente derivado da musicalidade negra, seu foco musical n\u00e3o deixou de manter o ritmo negro e a tradi\u00e7\u00e3o dan\u00e7ante. Outro estilo provindo do funk, respons\u00e1vel pela retomada dos bailes nos sub\u00farbios do Rio, foi o chamado \u201ccharme\u201d, nome dado pelo DJ Corello a um tipo de m\u00fasica mais rom\u00e2ntica, desacelerada.<\/p>\n<p>Aos poucos os bailes da periferia retomavam o seu papel de protagonista na prefer\u00eancia dos jovens suburbanos que, lenta e gradativamente, voltavam a freq\u00fcent\u00e1-los nos clubes da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Por\u00e9m nenhum outro estilo musical foi t\u00e3o respons\u00e1vel pela retomada dos bailes quanto o hip hop, que come\u00e7ava a ganhar visibilidade fora dos guetos de Nova Iorque \u2013 local onde surgiu. Esses raps eram cantados pelos MCs (mestres de cerim\u00f4nia) em cima de uma base eletr\u00f4nica executada pelos DJs (disc-j\u00f3queis) americanos.<\/p>\n<p>Em pleno processo de reformula\u00e7\u00e3o, o funk carioca p\u00f4de contar ainda com o surgimento de outro estilo musical que veio a ser batizado de \u201cmiami bass\u201d. Caracterizado por um estilo de batidas pesadas, aceleradas, com graves de freq\u00fc\u00eancia muito baixa, marcados por uma certa semelhan\u00e7a com o surdo do samba e com versos mais curtos, o \u201cmiami bass\u201d surge na Fl\u00f3rida, com uma batida hipnotizante.<\/p>\n<p>Com m\u00fasicas erotizadas e batidas eletr\u00f4nicas r\u00e1pidas, ele se tornou um fen\u00f4meno nos bailes. O sucesso alcan\u00e7ado foi tamanho, que este estilo musical foi fundamental para uma nova conceitua\u00e7\u00e3o do funk.<\/p>\n<p>O \u201cmiami Bass\u201d, emboratenha sido criado nos EUA, estourou e se tornou realmente conhecido no Brasil. Este g\u00eanero de funk, adaptado, recriado e abrasileirado pelos DJs cariocas, at\u00e9 os dias atuais serve de base para uma boa parte das m\u00fasicas que explodem no cen\u00e1rio funk do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Em 1986, equipes j\u00e1 consagradas como a Soul Grand Prix e a Furac\u00e3o 2000 e outras surgidas no embalo como a Live, Studio 58, Super Quente, Cassino Disco Clube, animavam um circuito de bailes funk na Zona Norte, que compreendia o Gr\u00eamio Recreativo de Rocha Miranda e Madureira Esporte Clube, o Esporte Clube Pavunense e a Quadra da Mangueira.<\/p>\n<p>Na Baixada Fluminense, estes bailes se realizavam no Mesquita Futebol Clube, no Ideal de Olinda, no Esporte Clube Gramacho, no Farolito e na Quadra da Beija-Flor.<\/p>\n<p>De acordo com estat\u00edsticas, no Grande Rio, na metade dos anos 80, foram realizados cerca de 700 bailes por fim de semana; deles em pelo menos 100 o p\u00fablico ultrapassava a marca de duas mil pessoas. Significava isto que quase um milh\u00e3o de jovens freq\u00fcentavam bailes funk todas as sextas, s\u00e1bados e domingos.<\/p>\n<p>Nenhuma outra atividade de lazer reunia tantas pessoas. A tem\u00e1tica do orgulho negro, observado nos bailes da \u00e9poca \u201cBlack Rio\u201d, j\u00e1 n\u00e3o era a principal caracter\u00edstica dos bailes da segunda metade da d\u00e9cada de 80, embora o predom\u00ednio da ra\u00e7a negra fosse flagrante.<\/p>\n<p>O sucesso internacional alcan\u00e7ado pelo hip hop e as montagens de trechos das m\u00fasicas de maior sucesso tocadas com bateria eletr\u00f4nica, sintetizador e scratch \u2013 t\u00e9cnica de utiliza\u00e7\u00e3o dos discos pelos DJs nos bailes \u2013 contribu\u00edram para que aquela movimenta\u00e7\u00e3o nos bailes da periferia carioca fosse percebida pelos moradores da Zona Sul e, mais tarde, novamente pela grande m\u00eddia. Neste momento todos as grandes equipes e DJs j\u00e1 possu\u00edam seus programas de r\u00e1dio.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s destes programas de r\u00e1dio eram divulgadas as m\u00fasicas, as g\u00edrias, al\u00e9m do dia, da hora e dos bairros onde os bailes da Zona Norte e Baixada Fluminense aconteceriam. Embora esses locais soassem como algo in\u00e9dito aos ouvintes moradores da Zona Sul, a realidade funk ensaiava, atrav\u00e9s de sua m\u00fasica, a congru\u00eancia de dois mundos t\u00e3o pr\u00f3ximos, mas, paradoxalmente, t\u00e3o distantes.<\/p>\n<p>No final dos anos 80 e inicio dos anos 90 os bailes foram se multiplicando de forma avassaladora, sendo, assim, criadas certas classifica\u00e7\u00f5es para esses eventos. Entre as mais conhecidas est\u00e3o os bailes de clube e os de comunidade \u2013 difundida amplamente com as proibi\u00e7\u00f5es dos bailes de clube.<\/p>\n<p>Os de clube eram classificados em \u201cnormais\u201d e de \u201cembate\u201d ou \u201ccorredor\u201d.<\/p>\n<p>Nos bailes classificados como \u201cnormais\u201d o tempo e o espa\u00e7o para os confrontos eram controlados e limitados mais severamente pelos seus organizadores. J\u00e1 nos chamados \u201cembate\u201d ou \u201ccorredor\u201d a briga era previamente organizada, sendo os bailes divididos em territ\u00f3rios para que as pessoas se confrontassem livremente.<\/p>\n<p>Os bailes de \u201cembate\u201d ou \u201ccorredor\u201d eram em sua grande maioria, realizados em clubes onde os grupos representavam seus territ\u00f3rios de origem. Neles havia uma divis\u00e3o no sal\u00e3o entre dois lados, formando verdadeiros corredores onde as pessoas se posicionavam de acordo com as alian\u00e7as feitas entre os representantes das galeras.<\/p>\n<p>Do lado de fora as brigas tamb\u00e9m eram freq\u00fcentes, e na maioria das vezes mais s\u00e9rias. Embora estas brigas fossem principiadas por desentendimentos pessoais ou at\u00e9 mesmo por rivalidades de morros e favelas (n\u00e3o seria exagero nenhum em afirmar terem sido iniciadas antes mesmo at\u00e9 da chegada do soul e do funk no Rio no in\u00edcio dos anos 70), para os setores conservadores o principal motivo dos embates, por mais incr\u00edvel que pare\u00e7a, era o funk.<\/p>\n<p>Embora aquelas brigas fossem uma realidade em determinados e conhecidos bailes, a m\u00eddia passou a publicar noticias tendenciosas com estat\u00edsticas exageradas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0queles encontros marcados por m\u00fatuos confrontos f\u00edsicos.<\/p>\n<p>A partir de den\u00fancias feitas por moradores vizinhos aos clubes onde esses bailes se realizavam, a m\u00eddia patrocinou campanhas que tinham como fundamento combater os bailes funk e n\u00e3o a viol\u00eancia observada neles.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que, a partir dos anos 90, observou-se um intenso processo de estigmatiza\u00e7\u00e3o do funk, promovido pela m\u00eddia, onde o termo funkeiro \u2013 dado a todos os jovens que freq\u00fcentavam bailes funk \u2013 passava a identificar a juventude \u201cperigosa\u201d das favelas da cidade.<\/p>\n<p>O tipo de abordagem feita aos bailes n\u00e3o combatia a viol\u00eancia em si, mas os pr\u00f3prios bailes funk. Neste contexto, o baile funk aparece concentrado na figura do funkeiro, desvalorizado e depreciado. Falar de baile funk correspondia a falar de pessoas feias, horrorosas e incivilizadas.<\/p>\n<p>Toda a campanha de criminaliza\u00e7\u00e3o daqueles bailes, promovida pelos meios conservadores de comunica\u00e7\u00e3o, resultou em apelos constantes da opini\u00e3o p\u00fablica pela proibi\u00e7\u00e3o daqueles encontros.<\/p>\n<p>A resposta imediata foi dada atrav\u00e9s de concursos de galeras pelos pr\u00f3prios organizadores das festas funk na tentativa de suprimir a viol\u00eancia entre os freq\u00fcentadores. Os concursos consistiam em competi\u00e7\u00f5es nas quais as galeras cumpriam determinadas tarefas, tais como as \u201cfantasias mais bonitas\u201d, os \u201cmelhores gritos\u201d, as \u201cgaleras mais atuantes\u201d e etc.<\/p>\n<p>Entre estas \u00e9 que, de acordo com um dos principais respons\u00e1veis pela consolida\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o do funk no Rio de Janeiro, R\u00f4mulo Costa, dono da equipe Furac\u00e3o 2000, surgiram os primeiros concursos de MCs.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed os garotos pobres e estigmatizados assumiriam o papel de not\u00f3rios representantes de suas comunidades de origem, utilizando, em suas letras, mensagens contra os confrontos f\u00edsicos e violentos nos bailes, cr\u00edticas a discrimina\u00e7\u00e3o racial e social, homenagens a personalidades e outros temas.<\/p>\n<p>Mesmo assim, nos primeiros anos da d\u00e9cada de 90, ainda que o poder executivo do Estado estivesse incorporando pol\u00edticas p\u00fablicas comprometidas intrinsecamente com a popula\u00e7\u00e3o pobre do Rio de Janeiro, por press\u00f5es exteriores aqueles encontros musicais tiveram que ser proibidos. Desta maneira, os bailes de comunidades surgiram.<\/p>\n<p>O funk, determinadamente combatido, rotulado, proibido e desvalorizado passou a ser acolhido dentro das comunidades onde p\u00f4de sobreviver, proliferar e se desenvolver.<\/p>\n<p>Nestes bailes o som era comandado pelas mesmas equipes que se apresentavam nas festas em clubes. A principal diferen\u00e7a observada entre os dois tipos de baile era que nos bailes de comunidades as brigas n\u00e3o existiam, tendo em vista o grande n\u00famero de seguran\u00e7as que os cercavam. A m\u00fasica funk passava a envolver, definitivamente, todo o cotidiano pobre das comunidades e seus personagens.<\/p>\n<p>Paralelamente a essas confus\u00f5es nos bailes em clubes e no acolhimento nos morros e favelas cariocas, o funk deixou de ser um fen\u00f4meno restrito aos jovens oriundos das camadas de baixa renda e, gradativamente, entrou no universo das classes m\u00e9dias ou vice-versa.<\/p>\n<p>Foi o momento em que os jovens de classe m\u00e9dia subiam os morros seduzidos pela batida e universo funk que, descoberto pelos moradores \u2018ricos\u2019 da Zona Sul com toda sua peculiaridade, permitia aos jovens visitantes uma sensa\u00e7\u00e3o de enfrentamento, de amadurecimento, de engrandecimento, tornando suas visitas quase que freq\u00fcentes nos dias de realiza\u00e7\u00e3o daqueles eventos.<\/p>\n<p>O funk, assim, poderia ter sido um ex\u00edmio instrumento de socializa\u00e7\u00e3o da juventude carioca oriunda de classes distintas. No entanto, a demoniza\u00e7\u00e3o e o isolamento das favelas do Rio de Janeiro produziram um efeito perverso, associando tal ritmo ao crime e estigmatizando seus freq\u00fcentadores.<\/p>\n<p>Logo os bailes de comunidades passaram a ser criminalizados atrav\u00e9s de insinua\u00e7\u00f5es que fomentavam o envolvimento do \u201ctr\u00e1fico de drogas\u201d com seus organizadores. N\u00e3o demorou muito para que aqueles bailes fossem apresentados como um espa\u00e7o perigoso, marcado por mortes e desgra\u00e7as.<\/p>\n<p>A participa\u00e7\u00e3o dos jovens da Zona Sul nos bailes de comunidade gerou tamanha preocupa\u00e7\u00e3o, que a conservadora classe m\u00e9dia passou a protagonizar os editoriais dos maiores jornais cariocas, com cartas repudiando os bailes realizados em morros e favelas.<\/p>\n<p>Por conseq\u00fc\u00eancia, em 1995 foi organizada uma CPI municipal de resolu\u00e7\u00e3o 127 de 95, para investigar o suposto envolvimento do funk com o tr\u00e1fico de drogas.<\/p>\n<p>Tal CPI, se dera, por den\u00fancias alegando o suposto consumo livre de drogas nos morros e favelas da Zona Sul onde os bailes eram realizados. Dessa forma, as autoridades p\u00fablicas se mobilizaram em investigar a origem do dinheiro que financiava os bailes de Comunidade. E assim, mais uma vez, os bailes foram proibidos.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que as caracter\u00edsticas de confraterniza\u00e7\u00e3o, integra\u00e7\u00e3o, divers\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o geradas por estes eventos foram, da mesma forma como aconteceu com os clubes, escamoteadas. Um fator importante \u2013 tamb\u00e9m impedido de ser aproveitado \u2013 era a utiliza\u00e7\u00e3o destes bailes de comunidades e clubes como instrumentos geradores de empregos.<\/p>\n<p>Em todos os bailes, um ex\u00e9rcito de m\u00e3o de obra, tais como bilheteiros, seguran\u00e7as, DJs, MCs, t\u00e9cnicos das equipes de som, carregadores de aparelhagens,ambulantes ou vendedores de bebidas e lanches, dependiam das movimenta\u00e7\u00f5es dos bailes para sustentarem suas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Todos os funkeiros \u201cviolentos\u201d e \u201cperigosos\u201d, constantemente vistos em supostas \u201catitudes suspeitas\u201d \u2013 subindo ou descendo o morro para ir ou sair dos bailes, andando pelas noites cariocas em dire\u00e7\u00e3o aos bailes \u2013 eram distinguidos, ent\u00e3o, de acordo com o meio social do qual faziam parte. Falar dos jovens funkeiros correspondia a falar do perigo, dos assaltos, do arrast\u00e3o e da morte.<\/p>\n<p>Situa\u00e7\u00e3o semelhante ocorria nos EUA. Em 1993, a policia de Denver tinha fichado diversos jovens \u201csuspeitos\u201d de pertencerem a gangues, quando, na realidade segundo as estimativas da pr\u00f3pria policia americana, a quantidade de membros de gangues em toda a cidade n\u00e3o alcan\u00e7ava nem sete por cento dos \u201csuspeitos\u201d fichados.<\/p>\n<p>Ocorre que para figurar neste fich\u00e1rio policial, bastava que o selecionado tivesse sido detido ao mesmo tempo em que um \u201csuposto\u201d membro de gangue, que se vestisse com as cores de uma determinada gangue ou que simplesmente tivesse sido visto na companhia de um membro de gangue.<\/p>\n<p>A segunda metade da d\u00e9cada de 90, com certeza a \u00e9poca em que o funk passou a ser mais \u00edntimo dos jovens de classe m\u00e9dia, ficou marcada principalmente pelos raps cantados pelos MCs que representavam suas comunidades de origem.<\/p>\n<p>Os meninos pobres cantando suas m\u00fasicas, faziam-se unicamente ser ouvidos em uma situa\u00e7\u00e3o diferente das que os selecionavam diariamente aos interrogat\u00f3rios e mat\u00e9rias policias.<\/p>\n<p>O rap contribu\u00eda para fortalecer a auto-estima da juventude pobre, promovendo uma integra\u00e7\u00e3o denegada em outras vias de inser\u00e7\u00e3o social, servindo tamb\u00e9m como uma estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Programas de r\u00e1dio, televis\u00e3o e mat\u00e9rias de jornais possibilitaram que alguns MCs assumissem a posi\u00e7\u00e3o de estrelas em suas comunidades e em festas realizadas na Zona Sul da cidade. Bases musicais de batidas eletr\u00f4nicas, como o volt mix, serviam de estrutura para as mensagens rimadas.<\/p>\n<p>Os raps passaram a ser o principal meio de comunica\u00e7\u00e3o entre os jovens da cidade.<\/p>\n<p>Os bailes de clubes suburbanos, que alternavam entre a proibi\u00e7\u00e3o e a aceita\u00e7\u00e3o, enchiam seus corredores de p\u00fablico. As casas de festas da Zona Sul recepcionavam os jovens funkeiros, entusiasmadas com o retorno financeiro proporcionado.<\/p>\n<p>Equipes de som, como a Furac\u00e3o 2000, condicionavam a exposi\u00e7\u00e3o daqueles eventos a n\u00edvel nacional, em programas de televis\u00e3o, r\u00e1dio e jornais.<\/p>\n<p>Aquela segunda metade dos anos 90, definitivamente, tra\u00e7ou a import\u00e2ncia e a consist\u00eancia de um movimento popular cultural surgido na d\u00e9cada de 70.<\/p>\n<p>O funk marcava sua import\u00e2ncia hist\u00f3rica com a mobiliza\u00e7\u00e3o de diferentes gera\u00e7\u00f5es e de milh\u00f5es de jovens pertencentes a distintas classes sociais. Por\u00e9m na medida em que o funk alcan\u00e7ava espa\u00e7os inimagin\u00e1veis no cotidiano social dos moradores do Rio de Janeiro, novamente o combate contra a produ\u00e7\u00e3o dos pobres ia se evidenciando.<\/p>\n<p>O mundo funk permanecia historicamente alternando entre a proibi\u00e7\u00e3o e aceita\u00e7\u00e3o, a clandestinidade e a notoriedade, fossem nos bailes de clubes ou em bailes de comunidades.<\/p>\n<p>Diante de tantas fomenta\u00e7\u00f5es de envolvimento do funk com o crime, da falta de seguran\u00e7a e fiscaliza\u00e7\u00e3o na realiza\u00e7\u00e3o dos bailes, a Assembl\u00e9ia Legislativa do Rio de Janeiro promulgou a lei estadual 3.410, de 29 de maio de 2000, que estabelecia uma s\u00e9rie de restri\u00e7\u00f5es para as realiza\u00e7\u00f5es dos encontros musicais de divers\u00e3o nos locais dos pobres.<\/p>\n<p>As festas de funk em casas de eventos da Zona Sul n\u00e3o recebiam o mesmo tratamento: fossem em clubes ou nas resid\u00eancias dos jovens ricos, o funk podia ser ouvido sem nenhuma restri\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO inicio dos anos 2000 ficou marcado pelos raps e montagens com conte\u00fados mais er\u00f3ticos.<\/p>\n<p>Na mesma d\u00e9cada em que outros estilos musicais exibiam em televis\u00f5es dan\u00e7as altamente sensuais, o funk sensual protagonizava mat\u00e9rias jornal\u00edsticas tendenciosas ligando o ritmo a orgias em bailes.<\/p>\n<p>Cabem as seguintes indaga\u00e7\u00f5es: ser\u00e1 que nos encontros de jovens ricos n\u00e3o existem com\u00e9rcio de drogas, momentos de erotiza\u00e7\u00e3o, apedrejamento de \u00f4nibus ou brigas? Ser\u00e1 que essas pr\u00e1ticas est\u00e3o sempre voltadas intrinsecamente nas comunidades e favelas do Rio?<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que entre 1999 e 2000 surgia nas favelas cariocas, diante da proibi\u00e7\u00e3o, um novo conceito de rapdenominado pela imprensa carioca de \u201cproibid\u00e3o\u201d. Este g\u00eanero de rapdesigna funks que narram de forma realista hist\u00f3rias em que os varejistas de drogas impuseram seu poder contra os oponentes, fosse pol\u00edcia ou alguma fac\u00e7\u00e3o rival.<\/p>\n<p>Esses raps, interpretados pelos MCs de suas comunidades, muitas vezes citavam tamb\u00e9m nomes dos l\u00edderes dessas comunidades e pediam sua liberta\u00e7\u00e3o dos pres\u00eddios cariocas.<\/p>\n<p>A grava\u00e7\u00e3o dessas m\u00fasicas, feitas ao vivo nas pr\u00f3prias comunidades, era produzida de forma amadora, e as m\u00fasicas comercializadas em cds \u201cpiratas\u201d ou baixadas na internet pela classe m\u00e9dia carioca. O interesse de estudantes secundaristas e da juventude universit\u00e1ria pelo \u201cproibid\u00e3o\u201d se tornava, assim como com os raps versados, uma realidade.<\/p>\n<p>O mesmo fen\u00f4meno de interesse musical pelo \u201cpoliticamente incorreto\u201d, p\u00f4de ser observado em uma outra conjuntura pol\u00edtica nos EUA.<\/p>\n<p>Durante os anos 50, os jovens brancos de classe m\u00e9dia norte-americanos passaram a se interessar pela m\u00fasica negra pelo seu conte\u00fado abertamente sexual, tanto nas letras quanto nas apresenta\u00e7\u00f5es. Nesta mesma d\u00e9cada, tamb\u00e9m nos EUA, um jovem e not\u00f3rio representante da era do rock \u2018n roll cl\u00e1ssico, Elvis Presley, chocava o conservadorismo yankie com seu jeito \u201ccafajeste\u201d e suas dan\u00e7as sugestivas.<\/p>\n<p>Ainda que tenha sofrido persegui\u00e7\u00f5es do governo e da Igreja, as cr\u00edticas n\u00e3o detiveram o aumento do p\u00fablico de Elvis \u2013 ao contr\u00e1rio: aumentaram o status do astro junto aos adolescentes.<\/p>\n<p>Voltando ao \u201cproibid\u00e3o\u201d, uma de suas bases musicais, denominada \u201ctamborz\u00e3o\u201d, arquitetada por uma batida ritmicamente brasileira marcada por tambores eletr\u00f4nicos com som semelhante aos dos terreiros umbandistas servia de estrutura para esse tipo de SOM.<\/p>\n<p>O \u201ctamborz\u00e3o\u201d pode ser considerado a principal batida do funk carioca do inicio do s\u00e9culo XXI. Refor\u00e7ado por ser uma batida genuinamente da favela e completamente distante do g\u00eanero pop, esta fus\u00e3o inovadora logo ganhou a simpatia dos jovens de classe m\u00e9dia empolgados com o ritmo contagiante.<\/p>\n<p>De acordo com alguns MCs, os raps cantados nos palcos da Zona Sul, que narravam historias aceit\u00e1veis, mudaram de enredo quando come\u00e7aram a proibir a realiza\u00e7\u00e3o dos bailes funk.<\/p>\n<p>Dessa forma os MCs, que n\u00e3o recebiam nenhum favorecimento financeiro com a reprodu\u00e7\u00e3o dos \u201cproibid\u00f5es\u201d, passaram a cantar para a comunidade as hist\u00f3rias que aconteciam diariamente nas comunidades.<\/p>\n<p>A exalta\u00e7\u00e3o do crime e de seu cotidiano, narrado nos \u201cproibid\u00f5es\u201d, marcava muito mais uma express\u00e3o de insatisfa\u00e7\u00e3o, de uma \u201crebeldia jovem\u201d delineada pela realidade que os circundava, pelas experi\u00eancias semelhantes de vida ocasionadas pelo isolamento oferecido, do que v\u00ednculo com o com\u00e9rcio varejista.<\/p>\n<p>Os varejistas de drogas \u2013 jovens que a pol\u00edcia, a Justi\u00e7a, os meios de comunica\u00e7\u00e3o e a burguesia conservadora rotulam como bandidos e traficantes \u2013 s\u00e3o condicionados a essa fun\u00e7\u00e3o como fonte de emprego diretamente acess\u00edvel, e os MCs que dessa realidade compartilham e, portanto sofrem as mesmas conseq\u00fc\u00eancias, n\u00e3o os v\u00eaem limitadamente como infratores de lei e sim como pessoas normais que com eles brincaram, estudaram, cresceram e desenvolveram amizade e respeito, como em qualquer outro ambiente social marcado por conviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Os anos seguintes marcariam os anos de maior persegui\u00e7\u00e3o ao funk e a seus protagonistas. A realidade documentada musicalmente passava a pautar mat\u00e9rias policias jornal\u00edsticas interessadas em silenciar as vozes verdadeiras vindas das comunidades hiperbolicamente vigiadas.<\/p>\n<p>Rascunhava-se assim o golpe mais covarde que os artistas rimadores sofreriam.<\/p>\n<p>Em agosto de 2004, um rep\u00f3rter de S\u00e3o Paulo, membro da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Jornalismo Investigativo, enviava uma correspond\u00eancia ao Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, de forma gen\u00e9rica, fazendo indaga\u00e7\u00f5es sobre m\u00fasicas ditas proibidas divulgadas na internet.<\/p>\n<p>Tais indaga\u00e7\u00f5es tinham por finalidade \u00e0 apura\u00e7\u00e3o dos fatos narrados nas m\u00fasicas e dos envolvidos em suas grava\u00e7\u00f5es e dissemina\u00e7\u00e3o, alentando supostos casos de pedofilia envolvendo, por mais incr\u00edvel que pare\u00e7a, um determinado estilo musical \u2013 o funk.<\/p>\n<p>Pois bem. Diante de tais constata\u00e7\u00f5es, no dia 22 de setembro de 2004, a Procuradoria Geral de Justi\u00e7a do Estado do Rio de Janeiro encaminhava um oficio \u00e0 Procuradoria da Rep\u00fablica, dando conta de poss\u00edvel ocorr\u00eancia de apologia de crime ou criminoso. N\u00e3o demorou muito para que quase todos os MCs de destaque do cen\u00e1rio funk carioca fossem indiciados por suposta apologia ao tr\u00e1fico de drogas.<\/p>\n<p>Nos bailes funk realizados eram montadas verdadeiras opera\u00e7\u00f5es policiais, fosse para intimar os MCs indiciados, para espionar os discos dos DJs, para apreender equipamentos ou para proibir a realiza\u00e7\u00e3o dos bailes. Mais uma vez o funk se tornava proibido.<\/p>\n<p>Epis\u00f3dios intrigantes marcam o momento atual do funk.<\/p>\n<p>Um diz respeito a apresenta\u00e7\u00e3o da equipe Furac\u00e3o 2000, num local p\u00fablico de um munic\u00edpio do Rio de Janeiro. De acordo com o pr\u00f3prio propriet\u00e1rio da equipe, R\u00f4mulo Costa, o mesmo foi surpreendido por uma ordem judicial que proibia o funkno local.<\/p>\n<p>A resposta imediata da popula\u00e7\u00e3o \u2013 que aguardava ansiosamente para ouvir o som potente da Furac\u00e3o \u2013 n\u00e3o foi outra, se n\u00e3o, rebelar-se contra a proibi\u00e7\u00e3o. Com a confus\u00e3o iniciada, pris\u00f5es foram efetuadas e mais uma vez o funk protagonizava um epis\u00f3dio de puro preconceito.<\/p>\n<p>Em um outro epis\u00f3dio, em pleno Maracan\u00e3, no intervalo de uma partida do flamengo, enquanto um DJ tocava alguns raps de dentro do campo para descontrair a torcida, policiais apreenderam seu equipamento e proibiram a apresenta\u00e7\u00e3o, que at\u00e9 ent\u00e3o estava autorizada pela pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o da partida.<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o da torcida n\u00e3o poderia ter sido diferente, passaram a xingar os policias militares e a Institui\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Outros fatos, verdadeiros ou n\u00e3o, revelam ao funk o papel sempre destinado.<\/p>\n<p>Supostas hist\u00f3rias noticiadas em jornais, narram o desaparecimento de pessoas vistas pela \u201c\u00faltima vez\u201d em bailes funk de comunidades, apontando sempre a elucidada \u201cpericulosidade\u201d dos locais. Outras noticiam pris\u00f5es de varejistas de drogas, surpreendidos no momento da a\u00e7\u00e3o, ouvindo funk.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o raras, tamb\u00e9m, as mat\u00e9rias noticiando o uso dos bailes funk de comunidade pelos \u201ctraficantes de droga\u201d como espa\u00e7o voltado exclusivamente para o com\u00e9rcio e uso de drogas, como se nestes espa\u00e7os a divers\u00e3o e confraterniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o fossem uma realidade.Um espec\u00edfico jornal carioca chegou a publicar at\u00e9 mesmo uma nova \u201cmodalidade de tr\u00e1fico\u201d, tendo como seus principais atores os traficantes de \u201cbailes funk\u201d.<\/p>\n<p>O estilo musical funk, ouvido diariamente por milh\u00f5es de jovens cariocas, surge sempre com o destaque que s\u00f3 se explica pela vincula\u00e7\u00e3o do ritmo a qualquer conduta criminalizada.A \u00fanica certeza dessas mat\u00e9rias sempre noticiadas \u00e9 a associa\u00e7\u00e3o da principal forma de identifica\u00e7\u00e3o coletiva da juventude pobre a crimes e desgra\u00e7as.<\/p>\n<p>O que efetivamente se pode observar em todos esses anos de funk no Rio de Janeiro, desde o inicio da d\u00e9cada de 70, passando pela realiza\u00e7\u00e3o dos primeiros bailes no Canec\u00e3o, at\u00e9 os dias atuais caracterizados por um intenso e hist\u00f3rico processo de criminaliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 que sua ess\u00eancia naturalmente mobilizadora, embora combatida pelos setores conservadores, ainda sobrevive nas comunidades e nas vozes roucas dos seus resistentes cantores e freq\u00fcentadores.<\/p>\n<p>O funk, assim, permanece no cotidiano social carioca contempor\u00e2neo como um importante instrumento de integra\u00e7\u00e3o de classes distintas, carregando consigo, o peso pol\u00edtico de ser a principal forma de manifesta\u00e7\u00e3o cultural de um meio social vigiado e estigmatizado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>funk&#8230; VAMOS ENTENDER A HIST\u00d3RIA Por Moscafrita e Slow DaBF O funk, caracterizado por um&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,9,7,4],"tags":[12,79,80,77,78,21,40,72],"class_list":["post-295","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-evento","category-historia","category-musica","category-opiniao","tag-baixada-fluminense","tag-black-music","tag-charme","tag-funk","tag-funk-rio-de-janeiro","tag-lurdinha","tag-slow-da-bf","tag-tododiaumtextonovo"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.3 - 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