{"id":2139,"date":"2012-01-11T21:12:17","date_gmt":"2012-01-11T21:12:17","guid":{"rendered":"http:\/\/lurdinha.org\/site\/?p=2139"},"modified":"2012-01-11T21:18:42","modified_gmt":"2012-01-11T21:18:42","slug":"a-noite-em-que-severina-brilhou-no-instituto-de-educacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lurdinha.org\/site\/a-noite-em-que-severina-brilhou-no-instituto-de-educacao\/","title":{"rendered":"A noite em que Severina brilhou no Instituto de Educa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p align=\"JUSTIFY\">\u00a0<em style=\"text-align: -webkit-auto; font-size: medium;\"><strong>(De como Caxias assistiu a uma pe\u00e7a premiada na Fran\u00e7a, por iniciativa do Caec)<\/strong><\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-2196\" title=\"220px-Cartaz-morte-e-vida-severina\" src=\"http:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/220px-Cartaz-morte-e-vida-severina.jpg\" alt=\"\" width=\"220\" height=\"221\" srcset=\"https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/220px-Cartaz-morte-e-vida-severina.jpg 220w, https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/220px-Cartaz-morte-e-vida-severina-150x150.jpg 150w, https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/220px-Cartaz-morte-e-vida-severina-120x120.jpg 120w\" sizes=\"auto, (max-width: 220px) 100vw, 220px\" \/>Em novembro de 1967, treze meses antes da promulga\u00e7\u00e3o do Ato Institucional n\u00famero cinco \u2013 o famigerado AI-5 \u2013, dois jovens decidiram trazer a Caxias a montagem da pe\u00e7a Morte e Vida Severina, um poema de Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, musicado por Chico Buarque \u2013 ent\u00e3o uma das maiores promessas de renova\u00e7\u00e3o da m\u00fasica popular brasileira. A dificuldade para arranjar um local adequado \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo foi o maior problema que a dupla teve pela frente. Felizmente, o Centro Acad\u00eamico Euclides da Cunha (Caec), ent\u00e3o presidido por St\u00e9lio Lacerda, resolveu bancar o jogo. Foi assim que os caxienses puderam aplaudir o Grupo Acerto, que trouxe ao munic\u00edpio comovente interpreta\u00e7\u00e3o do que veio a tornar-se um dos maiores cl\u00e1ssicos da dramaturgia brasileira, no audit\u00f3rio do Instituto de Educa\u00e7\u00e3o Roberto Silveira, em cujas depend\u00eancias funcionou, por v\u00e1rios anos, a primeira faculdade p\u00fablica de todo o antigo Estado do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Creio ser imposs\u00edvel contar tal hist\u00f3ria, sem mencionar o Bar Garoto Fluminense. Isto porque, no decorrer dos anos 60, poucas atividades culturais se realizaram em Caxias, sem que o projeto fosse discutido (ou mesmo elaborado) \u00e0s mesas do seu Augusto \u2013 o \u201c<em>muito justo<\/em>\u201d, como se autodenominava o dono do estabelecimento. N\u00e3o sei se eu n\u00e3o quero me dar ao trabalho ou se, realmente, me faltam \u201ctalento e formosura<span style=\"font-size: x-small;\"><strong>\u201d<\/strong><\/span> para descrever t\u00e3o bem o Garoto, como o fez Alcmeno Bastos, na revista Recado de Cultura (01\/87). Disse ele:<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">\u201c<em>&#8230;ali se criou um clima especial, viveu-se um instante m\u00e1gico. A minha tribo n\u00e3o era dona do Garoto, mas esteve pr\u00f3xima disso. Ocup\u00e1vamos sempre as mesas do restaurante, eventualmente at\u00e9 para jantar. Ali, escondidos da agita\u00e7\u00e3o da porta da rua, em duas ou tr\u00eas mesas que junt\u00e1vamos com ou sem a permiss\u00e3o dos gar\u00e7ons, travavam-se memor\u00e1veis e informais (&#8230;) debates sobre todos os assuntos dignos da curiosidade humana. Os simp\u00f3sios versavam sobre pol\u00edtica, economia, arte, sociologia, educa\u00e7\u00e3o etc., e a todos, indistintamente, era dado o direito de opinar<\/em>\u201d.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Pois foi naquele clima agitado, que o Renato Brand\u00e3o me passou, gratuitamente, um convite para assistir ao espet\u00e1culo em quest\u00e3o. Deixa-me, antes, apresentar o Renato ao distinto leitorado. Irm\u00e3o do Pedro Paulo, o <em>James Bond<\/em>, que cursava estat\u00edstica numa universidade p\u00fablica e namorava a Vilma, aluna da Faculdade de Pedagogia, onde estudavam o Rog\u00e9rio Torres e o Hermes Machado, imprescind\u00edveis nos debates do Garoto. O Renato, al\u00e9m disso, trabalhava no estaleiro Ishikawagima e fazia o \u00faltimo ano de contabilidade, no antigo Col\u00e9gio Cardeal Leme, em Ramos, em cujo audit\u00f3rio se daria a apresenta\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Era um s\u00e1bado \u2013 14 de outubro. Cheguei com alguma anteced\u00eancia, pelo menos o suficiente para reencontrar Nonato Teixeira, com quem eu havia estudado nos tempos de gin\u00e1sio e que ali estava como m\u00fasico do grupo: tocava percuss\u00e3o. Com um pouco mais de sorte, ainda assisti a um recital rel\u00e2mpago de Paulo Rom\u00e1rio, que mandou l\u00e1 o <em>Noturno<\/em>, de Chopin, e a <em>Marcha Turca<\/em>, de Mozart,por um velho piano relegado \u00e0 penumbra no fundo do palco. O mesmo palco, ali\u00e1s, onde logo teve in\u00edcio a apresenta\u00e7\u00e3o de <em>Morte e Vida Severina<\/em>, de Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, com m\u00fasica de Chico Buarque.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em>O meu nome \u00e9 Severino,<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> n\u00e3o tenho outro de pia.<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> Como h\u00e1 muitos Severinos, <\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> que \u00e9 santo de romaria,<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> deram ent\u00e3o de me chamar<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> Severino de Maria;<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> como h\u00e1 muitos Severinos<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> com m\u00e3es chamadas Maria,<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> fiquei sendo o da Maria<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> do finado Zacarias.*<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A rapaziada do Grupo Acerto, realmente, acertou. Texto na ponta da l\u00edngua, marca\u00e7\u00e3o bem apropriada \u00e0s condi\u00e7\u00f5es do local e interpreta\u00e7\u00e3o sem grandes riscos. Mas a m\u00fasica, a m\u00fasica do Chico, redesenhando aqueles versos agrestes, foi o que mais me chamou a aten\u00e7\u00e3o. As vozes e o instrumental que acompanhava davam mais relevo\u00e0 contund\u00eancia do texto: \u201c<em>E foi morrida essa morte,\/irm\u00e3os das almas,\/essa morte foi morrida\/ou foi matada?<\/em>\u201d&#8230; \u201c<em>Essa cova em que est\u00e1s,\/com palmos medida,\/\u00e9 a conta menor\/que tiraste em vida<\/em> (&#8230;) <em>\u00e9 a parte que te cabe\/deste latif\u00fandio&#8230; \u00e9 a parte que te cabe&#8230; \u00e9 a parte&#8230;\u201d. <\/em>E a parte que eu mais gostei, foi a do Severino dialogando com a mulher da janela. Sua fala tem uma melodia assobiada ao fundo, entrecortada por uma cantiga, t\u00e3o seca quanto as respostas que ela d\u00e1 ao retirante:<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em>Muito bom dia, senhora,<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> que nessa janela est\u00e1;<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> sabe dizer se \u00e9 poss\u00edvel<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> algum trabalho encontrar?<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> Trabalho aqui nunca falta<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em>a quem sabe trabalhar;<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> o que fazia o compadre<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> na sua terra de l\u00e1?<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em>Pois sempre fui lavrador,<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> lavrador de terra m\u00e1&#8230;<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> Isso aqui de nada adianta,<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> pouco existe o que lavrar&#8230;<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Sa\u00ed do Cardeal Leme de alma lavada. Pelo resto da noite, aquela m\u00fasica assobiada me acompanhou. Cheguei tarde em Caxias, encontrando o Garoto j\u00e1 fechado. Que pena! N\u00e3o teria com quem partilhar tal estado de \u00eaxtase. O bar n\u00e3o abria aos domingos; logo, na manh\u00e3 seguinte o jeito seria procurar algu\u00e9m, pelos bares dos arredores da feira. Era exatamente o que eu estava fazendo, quando encontrei Rog\u00e9rio Torres no trajeto. Pronto: descarreguei fala\u00e7\u00e3o. Contei detalhes da pe\u00e7a, caprichando na cena da janela. Certo de que estava diante da pessoa tamb\u00e9m certa, para dar asas a tanto entusiasmo, abri: Quero trazer este grupo a Caxias. E Rog\u00e9rio respondeu algo como: \u201c<em>Vamos trazer, sim<\/em>\u201d.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Levantar o paradeiro do Grupo Acerto, segunda-feira, n\u00e3o foi dif\u00edcil. Passei \u00e0 noite no Cardeal Leme, sendo informado que o respons\u00e1vel pelo espet\u00e1culo era um diretor do Social Ramos Clube, para aonde me dirigi. O homem n\u00e3o estava l\u00e1, tinha ido jogar sueca na quadra do Cacique de Ramos. Ali o encontrei. Era o m\u00e9dico Ir\u00e3 Ara\u00fajo, que se tornou mais conhecido por seu interesse pela cultura popular, especialmente o que tem la\u00e7os com o Carnaval. Ele foi muito gentil comigo, me passando o n\u00famero do telefone de um membro do grupo. Ao final da tarde seguinte, liguei. Atendeu Virg\u00ednia, justamente a garota que fazia a mulher da janela. Falei das minhas pretens\u00f5es e sondei as possibilidades. Como os tempos ainda n\u00e3o eram de tanta viol\u00eancia, ela me convidou ao seu apartamento, no Flamengo, a fim de me p\u00f4r em contato com outros integrantes do elenco.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Virg\u00ednia, Henrique Tavares, Luiz Filipe Oiticica e Mercedes, com quem conversei, acharam \u00f3tima a id\u00e9ia de se apresentarem em Caxias. Mais tarde, j\u00e1 no Garoto, contei tudo pro Rog\u00e9rio, que reiterou sua cumplicidade nessa empreitada. E se era assim, que tal se ele me ajudasse a encontrar o local adequado \u00e0 encena\u00e7\u00e3o? Pra falar francamente, local, mesmo, praticamente n\u00e3o havia. O antigo audit\u00f3rio da UDN (isso mesmo, Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Nacional), dos bons tempos do TMC (Teatro Moderno Caxiense), agora era sede da R\u00e1dio Difusora. O Clube dos Quinhentos, aonde Ratinho (o m\u00fasico Severino Rangel de Carvalho) e o velho Armando Mello montaram v\u00e1rios espet\u00e1culos, tinha ent\u00e3o o ep\u00edteto de <em>Aristocr\u00e1tico<\/em> \u2013 logo, descart\u00e1vel para as nossas pretens\u00f5es. Dos antigos tempos de <em>Morre um Gato na China <\/em>(de Pedro Bloch), s\u00f3 restava o audit\u00f3rio do Sesi, mas a implorar reformas urgentes. Tamb\u00e9m descartamos.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Est\u00e1vamos diante de um impasse. Quer\u00edamos trazer \u00e0 cidade um espet\u00e1culo bonito, impactante, e n\u00e3o t\u00ednhamos aonde encen\u00e1-lo. Aparentemente, n\u00e3o era t\u00e3o dif\u00edcil resolver a quest\u00e3o. Em pouco mais de um m\u00eas, seria inaugurado o Teatro Municipal Amando Mello (Temam), mas eu n\u00e3o queria esperar. Afinal, eu tinha apenas 20 anos, e quando se tem 20 anos tem-se muita pressa. N\u00e3o sei bem por qu\u00ea&#8230; O fato \u00e9 que ficara fechado entre mim e o grupo, que a apresenta\u00e7\u00e3o seria dia 11 de novembro, e o Temam s\u00f3 seria aberto ao p\u00fablico no dia 30 daquele m\u00eas. Alguns meses depois, j\u00e1 por conta do musical <em>Pe\u00e7o a Palavra<\/em>, que escrevi em parceria com Maur\u00edcio Mamede, constatei que, nas m\u00e3os de La\u00eds Costa Velho, o nosso teatro municipal n\u00e3o teria dado boa acolhida ao Grupo Acerto.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Foi o Rog\u00e9rio quem prop\u00f4s: \u201c<em>Por que n\u00e3o levamos a rapaziada para o audit\u00f3rio do Instituto de Educa\u00e7\u00e3o, com a chancela da Faculdade de Pedagogia<\/em>?\u201d Matou no peito e fez o gol. Afinal, para isso \u00edamos precisar, apenas, do consentimento do professor \u00c1lvaro Lopes, diretor do IE, com quem se entenderia o St\u00e9lio Lacerda, presidente do Caec-Centro Acad\u00eamico Euclides da Cunha, \u00f3rg\u00e3o que representava os universit\u00e1rios<span style=\"font-size: medium;\">. <\/span>Assim mesmo aconteceu: Rog\u00e9rio falou com St\u00e9lio, que falou com \u00c1lvaro, que falou <em>que<\/em> sim: estava liberado o audit\u00f3rio.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O Grupo Acerto era formado por jovens da Zona Sul do Rio. Moradores, em sua maioria, nos bairros Flamengo, Laranjeiras, Botafogo e Copacabana eles se reuniram para prestar uma homenagem ao casal Renato Mascarenhas de Souza\/Joselina Menezes de Souza, que comemorava bodas de prata naquele ano. Renat\u00e3o e Zelina (Z\u00e9lis, para os mais chegados) eram pais de boa parte do elenco. Seus filhos \u2013 Paulo Rom\u00e1rio, Mercedes, Maria das Merc\u00eas, Virg\u00ednia e Luciano \u2013 juntaram-se a alguns amigos, como Henrique Tavares, Luiz Antonio Peres, Vivian Hirson, Luiz Filipe Oiticica, M\u00e1rcia de Mello Bastos, Solange de Mello Bastos, Michel Rabinowitch, Nonato Teixeira, entre outros, para montar a pe\u00e7a no Iate Clube Guanabara (Botafogo), onde a data festiva foi celebrada.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Aqueles jovens tinham por que escolher <em>Morte e Vida Severina<\/em> para aquela ocasi\u00e3o. Nutridospelo som da bossa nova, esses <em>descendentes<\/em> de Tom Jobim e Jo\u00e3o Gilberto seguiram a mesma trilha da m\u00fasica popular brasileira, que depois de passar pelos shows produzidos pelo CPC da Une, desembocou naonda de festivais de m\u00fasica, que eclodiu em todo o pa\u00eds \u2013 a partir de 1965, at\u00e9 os primeiros anos da d\u00e9cada de 70. O CPC-Centro Popular de Cultura, da Une-Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes, foi fundado em 1959, tendo como marco inicial a encena\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a Eles n\u00e3o Usam Blak-Tie, de Gianfrancesco Guarniere (1934-2006). Liderados por este, Oduvaldo Vianna Filho, Carlos Lyra, Ferreira Gullar, Leon Hirszman, Carlos Estevam, entre outros, os CPCs se espalharam por todo o pa\u00eds, produzindo espet\u00e1culos populares de teatro, m\u00fasica e poesia, a exemplo de A Mais Valia Vai Acabar, Seu Edgar (Vianninha) e Um Americano em Bras\u00edlia (Chico de Assis e Nelson Lins e Barros), ambos musicados por Carlos Lyra. Pelo CPC da Une passaram v\u00e1rios outros artistas, como o escritor Ziraldo, o compositor Geraldo Vandr\u00e9, poetas Jos\u00e9 Carlos Capinan e Geyr Campos, al\u00e9m de Augusto Boal, o te\u00f3rico do Teatro do Oprimido, reconhecido e prestigiado nos mais diversos pontos do planeta.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Nesse meio tempo, surgiu o movimento Teatro Universit\u00e1rio, que deu origem ao Tuca-Teatro da Universidade Cat\u00f3lica, de S\u00e3o Paulo; o Tuca\/Rio-Teatro Universit\u00e1rio Carioca (dirigido por Amir Haddad); o Tema (da Universidade Mackenzie, tamb\u00e9m paulistano) e o Tusp-Teatro dos Universit\u00e1rios de S\u00e3o Paulo. O Tuca era dirigido pelo Roberto Freire (n\u00e3o o ex-deputado, \u00e9 claro, mas o misto de psicanalista e homem das artes, autor dos livros <em>Cleo e Daniel<\/em>, <em>Coyote<\/em>, <em>Sem Tes\u00e3o n\u00e3o H\u00e1 Solu\u00e7\u00e3o<\/em>&#8230;). Coube ao Freire converter o poema de Cabral \u2013 ent\u00e3o um \u00e9pico da nossa poesia recente \u2013 num cl\u00e1ssico do nosso teatro contempor\u00e2neo. E para encarar a empreitada, ele convidou o diretor de teatro Silnei Siqueira e um aluno da Fau-Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, de nome Francisco Buarque de Hollanda, irm\u00e3o de sua amiga Mi\u00facha.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O trio Freire-Siqueira-Chico fez o que fez com o poema de Cabral. Depois de uma temporada vitoriosa na universidade, o Tuca confirmou seu sucesso em outros palcos paulistanos e foi representar o Brasil no Festival Internacional de Teatro Universit\u00e1rio, em Nice, na Fran\u00e7a \u2013 1965. De l\u00e1 voltou com o pr\u00eamio de melhor espet\u00e1culo e o orgulho de ter representado seu pa\u00eds no exterior, sem nenhuma ajuda oficial. Nada mais claro. O concurso franc\u00eas se dera no ano seguinte ao golpe militar de 64. Logo, n\u00e3o havia interesse do governo brasileiro em patrocinar viagens de grupos de teatro formados por estudantes, numa \u00e9poca em que o poder p\u00fablico ao ouvir falar de cultura levava \u201ca m\u00e3o<em> <\/em>ao coldre\u201d. Ao voltar da Europa premiada, <em>Morte e Vida Severina<\/em> foi encenada em algumas capitais brasileiras, ora pelo pr\u00f3prio Tuca, ora por outros grupos, a exemplo do Acerto, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-2197\" title=\"mvseverina\" src=\"http:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/mvseverina.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"296\" \/><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Entre os dias 14 de outubro (quando assisti ao espet\u00e1culo) e 11 de novembro (quando o apresentamos em Caxias), muita coisa aconteceu; inclusive, perdi o emprego na Companhia Nacional de Guindastes (Guinasa), um dos \u00fanicos lugares aonde trabalhei, que nada tinham a ver com o universo das letras. Sim, teve isso. Eu j\u00e1 n\u00e3o estava sendo bem visto na casa, por defender, sem meias palavras, os princ\u00edpios marxistas que me eram transmitidos no Garoto. A empresa, diga-se, era norte-americana. Quando deixei a barba crescer, ent\u00e3o, foi aquilo&#8230; Mas foram os dias em que driblei o expediente, para ultimar os detalhes da chegada do Grupo Acerto a Caxias, que ajudaram a sujar geral. Afinal, tinha que levar um memorando ao \u00c1lvaro Lopes, que s\u00f3 se achava no col\u00e9gio durante o dia; pegar os convites, impressos na gr\u00e1fica do Antonio Carlos Menezes, distribu\u00ed-los para a venda; fazer mil contatos com o grupo&#8230;<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">E o Rog\u00e9rio, por onde andava? Ele n\u00e3o havia dito algo como \u201c<em>vamos trazer, sim<\/em>\u201d esse grupo a Caxias? Foi. Mas ele \u2013 tanto quanto quase todos n\u00f3s, do c\u00edrculo do Garoto \u2013 batia cart\u00e3o e ralava das oito \u00e0s cinco. Enquanto me tiravam o couro, no departamento de compras da Guinasa, ele come\u00e7ava a perder os cabelos na Marvin \u2013 departamento de contabilidade. S\u00f3 que eu era um dos pontos de contato entre a empresa e os fornecedores (passava boa parte do dia na rua), enquanto Rog\u00e9rio ficava pegado entre quatro paredes, frente a uma velha m\u00e1quina manual Facit, de calcular. Logo, nada mais justo que eu ficasse encarregado de tudo.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Demitido na quinta-feira, dia 9 de novembro, eu tive toda a sexta-feira e boa parte do s\u00e1bado, para resolver o que ainda faltava. Tinha que arranjar um \u00f4nibus para buscar (e levar de volta) a rapaziada no Flamengo. Isto eu consegui na empresa de transportes Limousine Carioca, atrav\u00e9s do Newley Lopes Martins, que mandava \u00e0 be\u00e7a na cidade. Al\u00e9m disso, tinha que encomendar o jantar do elenco, para depois do espet\u00e1culo. O rango foi tratado na Lanchonete Las Vegas, primeiro estabelecimento do ramo implantado em Caxias, \u00e0 Avenida Presidente Kennedy. Tais compromissos faziam parte das poucas exig\u00eancias feitas pelo grupo, que vinha apresentar-se de gra\u00e7a em nosso munic\u00edpio.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">No dia marcado, tudo perfeito. O Grupo Acerto precisava estar em Caxias, no m\u00e1ximo, \u00e0s 15 horas, a fim de refazer as marca\u00e7\u00f5es de cena, de acordo com as dimens\u00f5es min\u00fasculas do palco. Quanto a isso, n\u00e3o tinha problema, pois \u00e0s 13 horas em ponto, o \u00f4nibus estava \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, na Pra\u00e7a do Pacificador. Se atraso houve, este ficou por conta do elenco, pois antes das duas da tarde j\u00e1 est\u00e1vamos no local combinado, mas s\u00f3 chegamos ao Instituto de Educa\u00e7\u00e3o quase \u00e0s 17 horas. Silmar Viana j\u00e1 nos aguardava. \u00danico funcion\u00e1rio da Guinasa a fazer-se presente, dentre os poucos convidados na empresa, ele era uma das duas pessoas com quem mais me identificava, naquele ambiente. A outra era o irm\u00e3o do compositor S\u00e9rgio Ricardo, o violinista do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e da orquestra Rom\u00e2nticos de Cuba,<strong> <\/strong>Tuffi Luffit, o qual, a exemplo de Silmar, exercia ali a fun\u00e7\u00e3o de desenhista industrial.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Refeitas as marca\u00e7\u00f5es c\u00eanicas, surgiu um problema. O Henrique Tavares, que acumulava as fun\u00e7\u00f5es de diretor e ator principal, havia esquecido o seu pau em casa. Se dito assim isto j\u00e1 soa indecente, pior foi o ultimato que o cara me deu: \u201c<em>Sem pau, n\u00e3o entro em cena<\/em>\u201d. Deixa-me explicar logo, que diabo de pauera este. Para compor o personagem Severino, o ator trazia \u00e0s m\u00e3os um saco \u2013 cheio de jornais velhos, o qual jogava \u00e0s costas \u2013 e um cabo de vassoura, transmutado em bord\u00e3o de peregrino. Pois foi esse bord\u00e3o que ele n\u00e3o trouxe, e agora exigia que eu lho substitu\u00edsse. Recorri ao zelador do col\u00e9gio, sem sucesso. Contando apenas com a solidariedade do Silmar, vasculhei palmo a palmo o estabelecimento, em busca de um porrete, um sarrafo que fosse, e nada. Sabia que estava correndo contra o tempo e n\u00e3o queria sequer imaginar o que aconteceria, se este bendito pau n\u00e3o aparecesse.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Tr\u00eas caracter\u00edsticas marcantes em Silmar Viana eram o talento revelado nas artes pl\u00e1sticas, o dom de filosofar e a voca\u00e7\u00e3o inata para a irrever\u00eancia. Foi a \u00fanica pessoa de quem j\u00e1 ouvi falar, em toda a minha vida, que compareceu ao trabalho no dia do seu pr\u00f3prio casamento. Ap\u00f3s o ato, realizado numa quarta-feira, por volta das 11 horas, ele seguiu para a Guinasa, aonde chegou a tempo de nos pegar no refeit\u00f3rio, almo\u00e7ando. Sem mais delongas, sacou da marmita (que havia levado consigo ao cart\u00f3rio) e come\u00e7ou a comer, enquanto contava detalhes acerca da cerim\u00f4nia. D\u00e1 pra ver que eu estava em boa companhia, no cumprimento da tarefa de achar um pau. A essa altura, a busca j\u00e1 se estendera \u00e0s ruas dos arredores.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Nas proximidades do Clube dos Quinhentos tinha uma vila de casas, com um varal de roupas sustentado por um bambu; nem alto, nem baixo: na medida exata que Henrique precisava. Nem mesmo os cachorros que vimos dormitando pelo quintal nos intimidaram. S\u00f3 lembro que quando o varal desabou ao peso das roupas, uma mulher nos viu e fez alus\u00e3o nada lisonjeira \u00e0s nossas m\u00e3es. Com a cachorrada latindo no nosso encal\u00e7o, ganhamos as ruas e chegamos ao col\u00e9gio, s\u00e3os e salvos. Sim, e com a miss\u00e3o cumprida.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Passava um pouco das 20 horas, quando o espet\u00e1culo come\u00e7ou. De posse de seus adere\u00e7os de m\u00e3o, Henrique soltava o verbo: \u201c<em>O meu nome \u00e9 Severino,\/n\u00e3o tenho outro de pia.<\/em>(&#8230;) <em>E se somos Severinos\/iguais em tudo na vida,\/morremos de morte igual,\/mesma morte Severina:\/que \u00e9 a morte de que se morre\/de velhice antes dos trinta,\/de emboscada antes dos vinte,\/de fome um pouco por dia&#8230;<\/em>\u201d. E o p\u00fablico reagia \u00e0 altura, guardando sil\u00eancio respeitoso.. Eram quase 200 espectadores, num espa\u00e7o que cabia pouco mais de cem pessoas sentadas. Apesar do desconforto \u2013 agravado pelo calor de novembro e a mosquitada que enfestava o ambiente \u2013, dava pra ver que muita gente se emocionava com o texto, a m\u00fasica e, por que n\u00e3o dizer, o bom desempenho dos artistas. \u201c<em>Compadre Jos\u00e9, compadre,\/que na relva estais deitado:\/conversai e n\u00e3o sabeis\/que vosso filho \u00e9 chegado?\/Estais a\u00ed conversando\/em vossa prosa entretida:\/n\u00e3o sabeis que vosso filho\/saltou para dentro da vida?..\u201d.<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> E n\u00e3o h\u00e1 melhor resposta<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> que o espet\u00e1culo da vida:<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> v\u00ea-la desfiar seu fio,<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> que tamb\u00e9m se chama vida,<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> ver a f\u00e1brica que ela mesma,<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> teimosamente, se fabrica,<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> v\u00ea-la brotar como h\u00e1 pouco<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> em nova vida explodida;<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> mesmo quando \u00e9 assim pequena<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> a explos\u00e3o, como a ocorrida;<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> mesmo quando \u00e9 uma explos\u00e3o<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> como a de h\u00e1 pouco, franzina;<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> mesmo quando \u00e9 a explos\u00e3o<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> de uma vida severina.<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Caiu o pano e a galera aplaudiu de p\u00e9. Ap\u00f3s alguns minutos de coment\u00e1rios trocados entre si, o p\u00fablico ouviu r\u00e1pida sauda\u00e7\u00e3o do St\u00e9lio Lacerda e se dispersou, enquanto o elenco trocava de roupa, juntava as tralhas e embarcava no \u00f4nibus especial, rumo ao jantar na Las Vegas. A casa, embora inaugurada havia uns tr\u00eas anos, era ainda uma sensa\u00e7\u00e3o na Caxias da \u00e9poca, t\u00e3o desprovida de novidades. Sua <em>sofistica\u00e7\u00e3o <\/em>consistia em ter dois ambientes: a loja, propriamente dita, com seus petiscos prontos ou preparados na hora, e o mezanino, onde eram servidas refei\u00e7\u00f5es. Neste, o Grupo Acerto, Rog\u00e9rio, eu e uns poucos <em>convidados especiais<\/em>, matamos um churrasco \u00e0 campanha, regado a muito chope. Tudo pago com a grana arrecadada na venda dos convites. Pensa que tudo se deu sem nenhuma saia justa? Engano. T\u00e3o logo os gar\u00e7ons liberaram o servi\u00e7o, o grupo deu in\u00edcio a uma guerra de p\u00e3o, tendo um dos peda\u00e7os cruzado todo o mezanino, indo atingir o chope do cliente que bebia sentado ao balc\u00e3o. Apressei-me escada abaixo, a fim de evitar que tal \u201cacinte\u201d<em> <\/em>gerasse uma confus\u00e3o. Cheguei a propor o pagamento de outro chope, mas a \u201cv\u00edtima\u201d nem se deu por achada. Pedindo uma colher ao copeiro, \u201cpescou\u201d aquele corpo estranho que boiava em seu copo e continuou bebendo, como se nada tivesse acontecido.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Jantar encerrado, acompanhei o Grupo Acerto at\u00e9 o Flamengo (Rua Ferreira Viana, 36), aonde moravam Renat\u00e3o e Zelina, cuja comemora\u00e7\u00e3o dos 25 anos de casados dera in\u00edcio a tudo aquilo. De volta a Caxias, com o \u00f4nibus \u00e0s escuras, eu s\u00f3 tinha a companhia do motorista e do cobrador. Este, \u00e0quela altura, cobrava apenas o direito de descansar sossegado, encolhido numa das poltronas. Encolhido em uma outra, vinha eu, que mesmo de olhos fechados visualizava a cena da mulher da janela, a qual, entre outras coisas, advertia Severino: \u201c<em>S\u00f3 os ro\u00e7ados da morte\/compensam aqui cultivar,\/e cultiv\u00e1-los \u00e9 f\u00e1cil:\/simples quest\u00e3o de plantar;\/n\u00e3o se precisa de limpa,\/de adubar nem de regar;\/as estiagens e as pragas<\/em>\/<em>fazem-nos mais prosperar;\/e d\u00e3o lucro imediato;\/nem \u00e9 preciso esperar\/pela colheita:recebe-se\/na hora mesma de semear<\/em>\u201d.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">\n<p align=\"JUSTIFY\"><strong>*<\/strong><span style=\"font-size: x-small;\"><em>Todos os trechos do musical <\/em><\/span><span style=\"font-size: x-small;\">Morte e Vida Severina <\/span><span style=\"font-size: x-small;\"><em>inseridos neste texto, foram extra\u00eddos do livro <\/em><\/span><span style=\"font-size: x-small;\">Morte e Vida Severina e Outros Poemas em Voz Alta<\/span><span style=\"font-size: x-small;\"><em>, de Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto \u2013 Livraria Jos\u00e9 Olimpio Editora \u2013 20\u00aa edi\u00e7\u00e3o \u2013 Rio de Janeiro \u2013 1984.<\/em><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">eldemardesouza@hotma<wbr>il.com<\/wbr><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0(De como Caxias assistiu a uma pe\u00e7a premiada na Fran\u00e7a, por iniciativa do Caec) Em&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[12,11,315,316,313,314],"class_list":["post-2139","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historia","tag-baixada-fluminense","tag-duque-de-caxias","tag-instituto-de-educacao","tag-morte-e-vida-severina","tag-teatro-em-caxias","tag-temam"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.3 - 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