{"id":12697,"date":"2026-10-25T09:04:35","date_gmt":"2026-10-25T09:04:35","guid":{"rendered":"https:\/\/lurdinha.org\/site\/?p=12697"},"modified":"2026-10-25T09:04:35","modified_gmt":"2026-10-25T09:04:35","slug":"a-realidade-e-mais-cruel-e-tragica-do-que-qualquer-imaginacao-quando-o-pressagio-da-tragedia-passa-diante-dos-olhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lurdinha.org\/site\/a-realidade-e-mais-cruel-e-tragica-do-que-qualquer-imaginacao-quando-o-pressagio-da-tragedia-passa-diante-dos-olhos\/","title":{"rendered":"A REALIDADE \u00c9 MAIS CRUEL E TR\u00c1GICA DO QUE QUALQUER IMAGINA\u00c7\u00c3O: quando o press\u00e1gio da trag\u00e9dia passa diante dos olhos"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">Este texto \u00e9 um esfor\u00e7o para n\u00e3o me tornar c\u00famplice de algo t\u00e3o violento, desumano e amea\u00e7ador. Ele me obrigou a fazer o que n\u00e3o gosto, critico e considero vergonhoso: mostrar cenas de viol\u00eancia e degrada\u00e7\u00e3o humana para tentar mostrar a outras pessoas que a realidade e a amea\u00e7a fascista batem \u00e0 nossa porta, sem recorrer \u00e0 raz\u00e3o, \u00e0 l\u00f3gica, \u00e0 fraternidade e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o \u2014 o maior e mais importante construto humano.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">Ao lidar diariamente com tantos jovens e pessoas em processo de forma\u00e7\u00e3o, aprendizagem e constru\u00e7\u00e3o de habilidades de leitura e interpreta\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, percebo, diante da realidade que enfrentamos no dia a dia, que a nega\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, da ditadura e dos processos hist\u00f3ricos do passado pode nos alcan\u00e7ar novamente, de forma t\u00e3o violenta e repentina que parece um pesadelo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">Poderia falar das hist\u00f3rias que escuto e venho acumulando em cr\u00f4nicas: falas t\u00e3o desconcertantes que, em certos momentos, exigem tanto da nossa civilidade que nos levam ao abismo da explos\u00e3o verborr\u00e1gica. \u00c9 o gesto do demiurgo que simula a realidade para distorcer a verdade e erguer a mentira como bandeira, sustentada pela destrui\u00e7\u00e3o de tudo o que \u00e9 contradit\u00f3rio, racional e l\u00f3gico. Dois exemplos bastam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div style=\"width: 640px;\" class=\"wp-video\"><video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-12697-1\" width=\"640\" height=\"1138\" poster=\"https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/Video-Raphael-Bernard-1.png\" autoplay preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/snapgram.io_21plg57ndj50.mp4?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/snapgram.io_21plg57ndj50.mp4\">https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/snapgram.io_21plg57ndj50.mp4<\/a><\/video><\/div>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 O registro foi feito pelo jornalista franc\u00eas Rapha\u00ebl Bernard. Acessado em ICL.noticias<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">O primeiro caso ocorreu no dia em que um jovem disse que Bolsonaro havia criado o sal\u00e1rio m\u00ednimo e afirmou n\u00e3o acreditar na escravid\u00e3o, porque as imagens poderiam ter sido feitas com intelig\u00eancia artificial. O segundo foi o de uma senhora que usou todos os argumentos poss\u00edveis para afirmar que n\u00e3o houve ditadura no Brasil e que o STF era culpado pela pobreza das pessoas. Naqueles dias, ela tinha certeza de que o Brasil vivia uma ditadura de esquerda.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">Nos dois casos, ficou evidente que essas pessoas recebem informa\u00e7\u00f5es por algum canal espec\u00edfico, se apegam a essas mensagens como \u00fanica fonte de verdade e demonstram uma desconex\u00e3o entre a realidade do presente e a do passado. Os dois exemplos contrariam a ideia, t\u00e3o comum, de que as tecnologias e os meios de comunica\u00e7\u00e3o, por si s\u00f3s, ampliariam o acesso a uma forma\u00e7\u00e3o cidad\u00e3, cr\u00edtica e civilizat\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">Essas duas falas, entre muitas que venho recolhendo e transformando em textos, mostram, em parte, que a imagem, o documento e o registro hist\u00f3rico \u2014 enquanto fatos \u2014 foram capturados pelo mundo simb\u00f3lico, imag\u00e9tico e ficcional. Isso vai al\u00e9m do debate que acredit\u00e1vamos estar contido na disputa de classes ou na hist\u00f3ria contada pelo opressor. Nesse mundo, a verdade n\u00e3o se apoia em evid\u00eancias nem no exerc\u00edcio da reflex\u00e3o, mas na forma como os discursos capturam os sentimentos, as fragilidades e os desesperos de quem n\u00e3o quer refletir nem p\u00f4r \u00e0 prova aquilo em que acredita. \u00c9 como a rela\u00e7\u00e3o que constru\u00edmos ao assistir a um filme de terror: nosso psicol\u00f3gico \u00e9 capturado pelo prazer, pela revolta, pelo medo e pela rea\u00e7\u00e3o, seja ela qual for. Afinal, o que importa \u00e9 matar o monstro, a amea\u00e7a que constru\u00edmos ao ver na tela algo que incorporamos como verdade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\"><strong>Quatro imagens, uma mesma corrente<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">Olhe com calma para as imagens que acompanham este texto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_12698\" aria-describedby=\"caption-attachment-12698\" style=\"width: 708px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12698\" title=\"A escravid\u00e3o como sistema\" src=\"https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/Imagem-2-300x182.jpg\" alt=\"\" width=\"708\" height=\"430\" srcset=\"https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/Imagem-2-300x182.jpg 300w, https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/Imagem-2-610x369.jpg 610w, https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/Imagem-2-768x465.jpg 768w, https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/Imagem-2-1024x620.jpg 1024w, https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/Imagem-2.jpg 1500w\" sizes=\"auto, (max-width: 708px) 100vw, 708px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-12698\" class=\"wp-caption-text\">Gravura. Escravizados capturados pela expedi\u00e7\u00e3o de David Livingstone, entre 1858 e 1864, seguem em dire\u00e7\u00e3o ao Lago Niassa (\u00c1frica)<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">A gravura mostra africanos escravizados, capturados durante a expedi\u00e7\u00e3o de David Livingstone, entre 1858 e 1864, seguindo em fila em dire\u00e7\u00e3o ao lago Niassa, ligados por correntes e com forquilhas no pesco\u00e7o. A pintura de Debret, de 1826, retrata a escravid\u00e3o no Brasil e os corpos que carregavam a riqueza do pa\u00eds. A fotografia de Luiz Morier, publicada no Jornal do Brasil em 30 de setembro de 1982, mostra homens negros enfileirados, com uma corda no pesco\u00e7o, caminhando em dire\u00e7\u00e3o ao cambur\u00e3o. A pr\u00f3pria legenda do jornal diz: \u201cComo escravos\u201d. A manchete ao lado anuncia: \u201cPM prende e leva favelados pelo pesco\u00e7o\u201d. Era 1982, e o Brasil ainda vivia sob a ditadura. Agora, temos o v\u00eddeo divulgado pela ICL Not\u00edcias, de Rapha\u00ebl Bernard, na orla do Rio.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">Uma gravura do s\u00e9culo XIX, uma pintura de 1826, uma p\u00e1gina de jornal de 1982 e um v\u00eddeo de 2026 n\u00e3o foram feitos pela mesma m\u00e3o nem para o mesmo fim. Mas repetem a mesma figura: algu\u00e9m \u00e0 frente, uma corda ou corrente no pesco\u00e7o de outra pessoa e a vida ao redor seguindo como se nada acontecesse. Em nenhuma dessas cenas, o ato parece chocar quem passa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_12699\" aria-describedby=\"caption-attachment-12699\" style=\"width: 533px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12699 \" src=\"https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/Imagem-3-300x169.webp\" alt=\"\" width=\"533\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/Imagem-3-300x169.webp 300w, https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/Imagem-3-610x343.webp 610w, https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/Imagem-3.webp 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 533px) 100vw, 533px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-12699\" class=\"wp-caption-text\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Pintura do franc\u00eas Jean-Baptiste Debret de 1826 retrata escravos no Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">Essa \u00e9 a resposta que quero dar a quem diz que essas imagens \u201cpodem ter sido feitas com IA\u201d. A gravura e a pintura s\u00e3o anteriores \u00e0 fotografia, t\u00eam autoria e foram publicadas em obras. A p\u00e1gina do jornal tem data, pre\u00e7o, outras not\u00edcias e a assinatura de quem fotografou, e pode ser conferida nos acervos. Nenhuma dessas imagens depende de que acreditem em mim: elas dependem de arquivo, fonte e checagem. O mesmo vale para o v\u00eddeo: quem o compartilha tem o dever de apontar sua origem, e quem o v\u00ea tem o direito de conferir. A verdade n\u00e3o nasce da emo\u00e7\u00e3o que a imagem provoca, mas do trabalho de verificar o que ela mostra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_12700\" aria-describedby=\"caption-attachment-12700\" style=\"width: 775px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12700\" src=\"https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/Imagem-1-300x226.jpeg\" alt=\"Estado Policial e Escravid\u00e3o\" width=\"775\" height=\"584\" srcset=\"https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/Imagem-1-300x226.jpeg 300w, https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/Imagem-1-610x459.jpeg 610w, https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/Imagem-1-768x578.jpeg 768w, https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/Imagem-1.jpeg 860w\" sizes=\"auto, (max-width: 775px) 100vw, 775px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-12700\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;Todos negros, em fila, corda no pesco\u00e7o, os detidos caminham para a ca\u00e7apa. Como escravos&#8221;. Jornal do Brasil. Edi\u00e7\u00e3o de 30 de setembro de 1982. Fot\u00f3grafo Luiz Morier.<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\"><strong>O press\u00e1gio<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">Nas hist\u00f3rias de terror da internet, o aviso do desastre costuma chegar assim: algu\u00e9m abre no computador uma foto antiga da inf\u00e2ncia, da casa ou da fam\u00edlia. A imagem come\u00e7a a se degradar, pixel por pixel, e, no meio da distor\u00e7\u00e3o, surgem rostos que n\u00e3o deveriam estar ali. \u00c9 o press\u00e1gio de que algo terr\u00edvel est\u00e1 se aproximando.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">Nas tradi\u00e7\u00f5es populares, a mesma ideia aparece no espelho. Quando a pessoa v\u00ea o pr\u00f3prio rosto turvo, escurecido ou manchado, sem que o vidro esteja sujo, diz-se que \u00e9 sinal de morte na fam\u00edlia ou de uma doen\u00e7a devastadora. O espelho n\u00e3o mostra s\u00f3 o corpo: guarda um peda\u00e7o da alma e, quando a imagem se deforma, \u00e9 a alma que est\u00e1 avisando.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">Passei a tentar apresentar aos meus alunos os motivos hist\u00f3ricos que, ao longo dos s\u00e9culos, estruturaram a desigualdade, a viol\u00eancia, a persegui\u00e7\u00e3o direcionada e a morte certa em vielas e favelas. Todo esse esfor\u00e7o e compromisso estavam calcados no desafio de desfazer aquilo que o desconhecimento \u2014 promovido deliberadamente pelas elites e pelo aparelho estatal \u2014 sempre ajudou a encobrir, mimetizando a realidade como fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">Nenhum filme de terror precisou inventar essa imagem. Ela \u00e9 a foto corrompida de um pa\u00eds: a mem\u00f3ria da senzala que insiste em reaparecer no cotidiano, como um rosto deformado que a hist\u00f3ria tentou apagar. \u00c9 o espelho turvo que mostra o que nos recusamos a ver. A fic\u00e7\u00e3o nos assusta porque pede que a gente acredite no imposs\u00edvel. A realidade assusta mais porque n\u00e3o pede nada: acontece, e a gente passa.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">Mas, diferentemente do terror, aqui o press\u00e1gio pode ser desfeito. Foto corrompida n\u00e3o se conserta com susto. Espelho turvo n\u00e3o se limpa desviando o olhar. Conserta-se e limpa-se com mem\u00f3ria, palavra e voto.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">A cena de ontem, s\u00e1bado, em uma das avenidas mais ricas e ostensivas do pa\u00eds, revelou o projeto que o governo miliciano tem para o Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\"><strong>Exerc\u00edcio de observa\u00e7\u00e3o da cena obscena<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">A viol\u00eancia que nos esbofeteia de forma obscena exp\u00f5e o desejo que se estrutura na cabe\u00e7a de quem \u00e9 contra o SUS, os direitos sociais, um modelo de educa\u00e7\u00e3o universal e de qualidade, o sal\u00e1rio m\u00ednimo, a escala 5&#215;2 e a liberdade de circular pela orla do Rio de Janeiro com seus cativos acorrentados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\"><strong>O conhecimento que cada um carrega<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">Este v\u00eddeo provocou em mim um impacto enorme, por tudo o que carrega como amea\u00e7a. As horas se arrastam e corroem minha sanidade, mas tamb\u00e9m refor\u00e7am a certeza de que, qualquer que seja o resultado eleitoral imposto amanh\u00e3, seguirei atento e firme. Tenho ainda mais certeza de que deverei me preparar, estudar e refletir, tanto individual quanto coletivamente, em conson\u00e2ncia com os prop\u00f3sitos que assumi no lugar em que atuo. Quero continuar oferecendo o melhor daquilo em que acredito e que possa contribuir com minha classe, meu territ\u00f3rio e os sonhos que alimento por meio da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">Este v\u00eddeo registra o passeio vespertino da alta sociedade pela orla. Transformado em um microfilme, torna-se um document\u00e1rio que comprime s\u00e9culos de hist\u00f3ria em segundos e inquieta o sono, desconfortando os sonhos de quem planta esperan\u00e7a porque consegue enxergar, com os olhos de quem percebe o salto temporal que nos aprisiona, o maligno feito de um tempo que se repete e, combinado \u00e0 farsa, encena a trag\u00e9dia.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">Penso nos meus alunos e em um exerc\u00edcio cujo car\u00e1ter simples, m\u00e1gico e impactante fui compreendendo ao longo dos anos. Em certos dias de aula, proponho \u00e0s minhas turmas uma atividade que come\u00e7a pela observa\u00e7\u00e3o da imagem, da mem\u00f3ria, dos signos e daquilo que conseguimos ver diante das situa\u00e7\u00f5es da vida que nos s\u00e3o apresentadas. \u00c9 uma leitura reflexiva de imagens, pinturas, fotografias, cenas de filmes, infogr\u00e1ficos ou qualquer outra imagem relacionada \u00e0 mat\u00e9ria que estou trabalhando naquele momento.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">O tempo me ensinou que, para evitar a resist\u00eancia, a recusa em participar ou a possibilidade de ficarmos parados por minutos ouvindo frases como \u201c\u00c9 isso a\u00ed, p\u00f4! \u00c9 tudo que est\u00e1 a\u00ed!\u201d ou \u201cSei n\u00e3o&#8230; O que \u00e9 para eu falar? Est\u00e1 tudo a\u00ed. Sei l\u00e1. Um homem desenhado puxando uma carro\u00e7a, s\u00f3 isso, p\u00f4!\u201d, preciso come\u00e7ar conquistando a turma por meio de uma hist\u00f3ria que valorize o que aprendemos em casa, nas conversas com pais, av\u00f3s e amigos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">Afinal, todos \u2014 absolutamente todos \u2014, quando veem um beijo, um t\u00eanis da moda, algu\u00e9m batendo em uma crian\u00e7a, uma pessoa tra\u00edda ou um carro bonito, pensam alguma coisa: sonham, criticam, acham feio ou bonito. Come\u00e7o, ent\u00e3o, um trabalho de valoriza\u00e7\u00e3o da autoestima e da compreens\u00e3o de que carregamos uma mem\u00f3ria \u00fanica, articulada \u00e0s nossas ideias, \u00e0 nossa maneira de nos comportar, aos nossos gostos e ao que pensamos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">Depois de mobilizar a mem\u00f3ria afetiva e tudo o que os alunos carregam e sabem, convido-os a refletir sobre por que n\u00e3o somos estimulados a falar e a expressar o que sentimos. Conversamos sobre como situa\u00e7\u00f5es de constrangimento e desvaloriza\u00e7\u00e3o de ideias e falas criam medo de se expressar \u2014 e sobre o quanto esse medo est\u00e1 ligado a processos de domina\u00e7\u00e3o que n\u00e3o sabemos ver, identificar ou romper justamente porque temos medo de falar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">Ent\u00e3o, come\u00e7o convidando-os a observar em sil\u00eancio \u2014 quando poss\u00edvel \u2014, por um ou dois minutos, imagens impressas em papel, recortes de revistas antigas ou jornais, imagens na tela do notebook ou cenas de filmes. Pe\u00e7o que analisem o que est\u00e1 ali, mas que nem sempre conseguimos ver; que soltem a imagina\u00e7\u00e3o e reflitam livremente, tentando construir argumentos sobre o que compreenderam. Orient\u00e1-los a observar o momento hist\u00f3rico em que a imagem foi feita, os objetos, as constru\u00e7\u00f5es, as cores, a natureza, as pessoas, as roupas, os olhares, os corpos e todo tipo de detalhe que comp\u00f5e a cena faz parte do exerc\u00edcio.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">Tamb\u00e9m explico que h\u00e1, dentro de cada imagem, um n\u00famero incont\u00e1vel de elementos que carregam uma enorme quantidade de informa\u00e7\u00f5es n\u00e3o escritas \u2014 informa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o percebemos ou n\u00e3o conseguimos ler de imediato. O exerc\u00edcio de imaginar e tentar mostrar aquilo que n\u00e3o se v\u00ea \u00e9 um caminho para desvendar o que est\u00e1 por tr\u00e1s da simbologia de uma imagem.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">Ap\u00f3s essa aparente digress\u00e3o, sou levado a acreditar que esse exerc\u00edcio \u00e9 fundamental para que nossa sociedade se disponha a enxergar aquilo que muitos n\u00e3o conseguem ver, sob o efeito caleidosc\u00f3pico da metralhadora de fake news, dos disparos em massa de mensagens, v\u00eddeos, informa\u00e7\u00f5es falsas, vozes, carros, lugares, discursos e v\u00eddeos feitos com intelig\u00eancia artificial. \u00c9 colossal a barreira psicol\u00f3gica que a nega\u00e7\u00e3o da realidade ergue quando uma imagem ou um v\u00eddeo p\u00f5e em xeque \u2014 e amea\u00e7a \u2014 o o\u00e1sis de uma sociedade em que o \u201coutro\u201d, o diverso, aquele que defende a democracia, o respeito \u00e0s regras e a igualdade de direitos deve ser dominado, violentado e exterminado em uma \u00e1rea p\u00fablica, transformada em palco de espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\"><strong>Convite \u00e0 reflex\u00e3o<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_12703\" aria-describedby=\"caption-attachment-12703\" style=\"width: 386px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12703\" src=\"https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/Video-Raphael-Bernard-1-171x300.png\" alt=\"\" width=\"386\" height=\"678\" srcset=\"https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/Video-Raphael-Bernard-1-171x300.png 171w, https:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/Video-Raphael-Bernard-1.png 463w\" sizes=\"auto, (max-width: 386px) 100vw, 386px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-12703\" class=\"wp-caption-text\">Aperte aqui e abra o video apertando este link do Instagram do ILC Not\u00edcias: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/reels\/De5hgaxCuZK\/O\">https:\/\/www.instagram.com\/reels\/De5hgaxCuZK\/ O<\/a>\u00a0<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E<strong>spet\u00e1culo como press\u00e1gio<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">A todos aqueles que chegaram at\u00e9 este ponto do texto, agrade\u00e7o, de antem\u00e3o, pela aten\u00e7\u00e3o dedicada a esta manifesta\u00e7\u00e3o pessoal, fruto da teatraliza\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o como espet\u00e1culo por uma parte da sociedade que perdeu o pudor e demonstra, \u00e0 luz do dia, que deseja recuperar seu lugar de senhora da casa-grande. Fa\u00e7o aqui o mesmo convite que proponho aos meus alunos: o exerc\u00edcio de ver, refletir e se manifestar. Pe\u00e7o, gentilmente, que, durante alguns instantes, vejam o v\u00eddeo e as tr\u00eas imagens e depois participem de um exerc\u00edcio de escrita nos coment\u00e1rios, descrevendo o que viram, perceberam e refletiram; o que os machucou ou instigou; e o que transformou seu olhar e sua aten\u00e7\u00e3o ao documento hist\u00f3rico em um instante de reflex\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">Assim como fa\u00e7o em minhas aulas, come\u00e7o por mim, para incentivar os mais acanhados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\"><strong>O que eu vejo, sinto e descrevo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">Come\u00e7o por mim, porque esse lugar me \u00e9 muito familiar e desperta minha mem\u00f3ria de inf\u00e2ncia. Quando crian\u00e7a, ajudei muitas vezes minha m\u00e3e a fazer faxina nos apartamentos da Zona Sul. Sa\u00edamos do Mata-Moleque, um bairro de Belford Roxo, \u00e0s 4h30, para trabalhar na Lagoa, em Ipanema ou no Leblon. Minha m\u00e3e era empregada dom\u00e9stica, nordestina e analfabeta, e via no trabalho uma esp\u00e9cie de ethos, de sacerd\u00f3cio: acreditava que conquistaria o reconhecimento dos patr\u00f5es. Dedicava-se a limpar e arrumar apartamentos inteiros, com janelas enormes. Para limp\u00e1-las, dependurava-se com mais da metade do corpo para fora e, \u00e0s vezes, ficava em p\u00e9 no parapeito. Fazia isso de maneira t\u00e3o meticulosa que n\u00e3o podia emba\u00e7ar a vis\u00e3o das madames e dos patr\u00f5es nem atrapalhar o regozijo deles ao contemplar o mar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">Vejo na cena um homem negro, com uma camisa que remete a uma vestimenta bastante popular, preso pelo pesco\u00e7o e conduzido por outro homem branco, que lhe dirige palavras humilhantes.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">O homem escravizado carrega um n\u00famero nas costas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">\u00c0 frente dos dois, dos lados e nas cal\u00e7adas, outras pessoas brancas observam a propriedade humana em desfile. Seguem caminhando, rindo, contentes e c\u00famplices do desejo de ver outras pessoas negras humilhadas e acorrentadas por forquilhas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">O c\u00e9u, os coqueiros, a presen\u00e7a do mar e sua brisa me remetem a um dia normal e tranquilo de quem passeia pelas ruas em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 pra\u00e7a do com\u00e9rcio pr\u00f3xima. N\u00e3o fossem o carro, as luzes e alguns detalhes da vida atual, eu julgaria estar nos s\u00e9culos XVIII ou XIX, diante de um senhor de escravos conduzindo um escravizado de ganho para realizar servi\u00e7os para outros senhores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\"><strong>O que voc\u00ea v\u00ea e sente?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">Voc\u00ea, amigo leitor que chegou at\u00e9 aqui, pe\u00e7o a gentileza de fazer um esfor\u00e7o a mais: concentre por um minuto sua aten\u00e7\u00e3o no v\u00eddeo e nas imagens e, depois, responda nos coment\u00e1rios:<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">O que voc\u00ea est\u00e1 vendo no v\u00eddeo e nas tr\u00eas imagens?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: center;\"><strong>CORRENTE N\u00c3O \u00c9 FANTASIA.<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: center;\"><strong>\u00c9 dor, \u00e9 hist\u00f3ria, \u00e9 uma ferida que o Brasil ainda n\u00e3o curou.<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: center;\"><strong>Hoje, a gente decide de que lado dessa imagem quer estar.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400; text-align: right;\">Por Eduardo Prates, \u00e0s 23h54 de 24 de outubro de 2026<\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: right;\">Horas antes da elei\u00e7\u00e3o mais decisiva para o futuro de uma na\u00e7\u00e3o que se envergonha de ser tudo o que n\u00e3o consegue acreditar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">#VotoConsciente<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">#Lula13<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">#NaoSejaCumpliceDoAutoritarismo<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">#NaoFinjaNaoVerAViolenciaQueNosAmeaca<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">#HistoriaDoBrasil<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">#MemoriaHistorica<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\">#ConscienciaNegra<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Este texto \u00e9 um esfor\u00e7o para n\u00e3o me tornar c\u00famplice de algo t\u00e3o violento,&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":33,"featured_media":12702,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1277],"tags":[1449,1450,1445,1447,1446,1448],"class_list":["post-12697","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque","tag-consciencianegra","tag-eduardoprates","tag-lula13","tag-naofinjanaoveraviolenciaquenosameaca","tag-naosejacumplicedoautoritarismo","tag-votoconsciente"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - 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