Amigas e amigos:

A Casa Brasil foi um câncer para a Biblioteca Pública de Imbariê, também conhecida como Biblioteca Comunitária Monteiro Lobato (ainda tenho dúvidas relativas a esse segundo nome).

Surgiu a história de que um deputado federal conseguiu uma verba com a qual será construído um centro de imagem e diagnóstico no lugar em que fica a Casa Brasil, que funciona no prédio de um antigo subposto de saúde. Mas não quero falar dessa história agora. Primeiro, vou resumir outra história: a da Casa Brasil, que, como ficará dito, só existe em Imbariê graças à Biblioteca:

Fechadas as portas do subposto, em 2004 fora transferido para o prédio dele o acervo da biblioteca, que até então funcionava na subprefeitura. Isso era ótimo: o prédio era maior e exclusivo da biblioteca: poderia haver mais autonomia. Graças à biblioteca, que, até onde sei, conta com um CNPJ próprio e um conselho, o prédio em que antes funcionava um subposto de saúde voltou a ter utilidade.

Alguns anos depois, devido ao vergonhoso IDH de Imbariê, a Casa Brasil passou a funcionar no prédio da biblioteca, que recebeu mais cômodos. A CB era um centro de inclusão digital espalhado no primeiro mandato do ex-presidente Lula por todo o país. Logo, o lugar passou a ser um cabide de empregos para cabos eleitorais ou protegidos destes. Vi o fisiologismo no mais alto grau: para trabalhar na CB, não é preciso fazer concurso público: basta ter indicação política. Com o tempo, o centro de inclusão digital deixou de funcionar. Hoje, a casa oferece apenas oficinas de artes visuais, como a oficina de Teatro. A biblioteca, que é a origem de tudo, foi destruída com uma chuva, risco que eu apontei há pelo menos seis anos num ofício que enviei à Secretaria de Cultura, o que gerou antipatia gratuita por parte de certas pessoas, pois elas nunca quiseram visibilidade para a biblioteca nem funcionários para ela. É que a biblioteca exige o saber-ser e o saber-fazer: quem quiser trabalhar nela precisará de paciência para a catalogação e registro (perícias que podem exigir formação acadêmica, dependendo do caso) e gosto pela leitura de livros. Esses atributos não são vistos na maioria das pessoas que trabalharam na CB. Hoje, o cômodo em que funcionava a biblioteca está com danos estruturais e fechado. (A Casa Brasil ficou com a maior parte do prédio, enquanto o espaço da biblioteca ficou reduzido ao pior cômodo.) Estão vazias as estantes: FOI DESTRUÍDA boa parte do acervo: a água da chuva causou forte estrago nos livros. A negligência matou a biblioteca, cujo cadáver está à mostra enquanto escorre seu sangue pelas mãos de quem nunca se importou com ela. Dizem que, em certos países africanos, existe o griot, um tipo de sábio que conta histórias. Quando morre um griot, morre uma biblioteca. A Biblioteca Pública de Imbariê era o nosso griot de alvenaria, papel e tinta.

Agora volto à história do projeto do centro de imagem. Depois que algumas pessoas tomaram conhecimento dela, passou a ser feita uma campanha de defesa da Casa Brasil (da Casa Brasil, mas não propriamente da biblioteca). Ora, alguns dos “defensores” do mote “Não ao fechamento da Casa Brasil” já sabiam do projeto. Por que só agora estão se manifestando? Por que só agora estão “lutando” contra o fechamento da CB? HÁ MESES existe o projeto do centro de imagens. Nesse tempo foi fundada uma casa PRIVADA de atividades artísticas. Coincidência, não? Se realmente quisessem a defesa, teriam dito o que sabiam bem antes! O curioso é que o mote da frase “Não ao fechamento da Casa Brasil” é acompanhado pela ideia de que é preciso ocupar o espaço público. Ora, quando perguntei pela primeira vez se eu podia assistir a uma das aulas dos cursos, foi negado o acesso ao espaço, que fica restrito a alunos inscritos. Muito diferente era a biblioteca, que aceitava a presença de todos e todas. Nas oficinas de artes visuais, o espaço púbico funciona como se fosse privado. É o oba-oba das artes visuais e o de certas atividades boêmias — as quais foram permitidas dentro da CB, cuja imagem foi “coincidentemente” arranhada pelo cigarro e pelo álcool consumidos dentro dela — que estão sendo defendidos, e não propriamente o direito que é importante para a saúde: o direito à arte, que trabalha com os sentidos, com o corpo.

Foi dito que a biblioteca será transferida para outro lugar. Se isso for verdade, defenderei o fechamento da Casa Brasil. E esperarei que no novo lugar funcione APENAS a biblioteca. Nela, encontramos Machado de Assis e outros mestres muito superiores a qualquer professor da CB. Foi graças à Biblioteca Pública de Imbariê que consegui cursar a faculdade de Letras, e foi graças a todas as bibliotecas públicas que frequentei que cheguei ao mestrado acadêmico em Estudos Literários.

Contudo, é até compreensível que desprezem a biblioteca (cujo espaço me foi negado em 2013 por falta de funcionários, embora todos ficassem no corredor da CB à toa). Ela exige silêncio, retidão de espírito e concentração, coisas extremamente opostas ao oba-oba das artes visuais, cada vez mais apelativas na sociedade do espetáculo, em que as imagens e as aparências pesam mais do que a determinação de espírito dos que se dedicam aos livros.

Sei que discordarão de mim. Mas os que discordam não têm discernimento nem conhecimento de causa.

Por fim, aproveito esta mensagem para deixar claro que não apoio mais nenhum grupo de Teatro ou Dança do 3º Distrito de Duque de Caxias. Retiro todo o meu apoio. É o mínimo que posso fazer depois de tanta maldade, de tanta deslealdade e de tanta falta de visão. Também deixo claro que o Cineclube Imbariê nos Trilhos não conseguirá defender o direito à arte sem a radicalização, porque ela é imprescindível na luta.

Márcio Alessandro de Oliveira. Imbariê, 7 de maio de 2018.


Márcio Alessandro

Márcio Alessandro de Oliveira está no primeiro período da faculdade de Letras da Universidade do Grande Rio, e escreve crônicas para jornais. Nasceu a 10 de maio de 1990, e cresceu em Imbariê e Santa Lúcia, bairros do Terceiro Distrito de Duque de Caxias. http://asfarpascaxienses.blogspot.com

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