“Ao mais forte de nossos instintos, ao

 tirano interior, sujeitam-se não só a nossa razão,

 como também a nossa consciência.”

 (Nietzsche, “Vontade de potência”)

         Naquela pacata Rua do Bairro Vinte e Cinco de Agosto, o metálico tilintar da buzina na bicicleta do Padeiro anunciava uma nova manhã, enchendo de alegria o coração dos moradores locais. Daquela outrora luxuosa cobertura situada em um prédio hoje decadente, pendurada por uma cordinha de velame, descia uma pequena bolsa de nylon contendo em seu interior alguns trocados, e logo subia com meia dúzia de pãezinhos franceses, os quais dona Dulce dividia com Duque, seu Daschund.

        A residência era decorada com uma luxuosidade cafona, que se retratada em película, pareceria até um cenário de novela mexicana. Tudo era bem organizado e limpo, coisa que só se vê em casas de boas vovozinhas.

        Morava só há muitos anos, e de suas lembranças já havia apagado a recordação da última vez em que recebera alguma visita. Na vitrola (um antigo “três em um”), Roberto Carlos cantava a plenos pulmões: “Amanhã de manhã, vou pedir o café pra nós dois…”.  O egoísmo residente na letra da composição parecia não importar dona Dulce. O café da manhã em sua casa era sempre um rito, fazia questão de colocar a mesa para duas pessoas, como se esperasse por alguém que estivesse na eminência de adentrar a casa a qualquer momento.

         Dona Dulce pertencia a uma classe de pessoas que por motivos que só Freud talvez possa explicar, param no tempo, numa espécie de saudosismo que era o combustível de sua existência. Aquelas tardes de domingo jamais haviam se apagado de sua memória. Vivia a vida como se estivesse acabado de acordar de um baile da Jovem Guarda que acontecera na noite anterior. E quando o Rei tocava seus hits, ela se sentia a mais bela, jovem e feliz garota dos dias atuais, não obstante seus 66 anos de idade. E cantarolava pelos cômodos: “Eu sou terrível, vou te dizer e boto mesmo pra derreter… A garota que estiver ao meu lado… Minha caranga é máquina quente…”. Era feliz ao seu modo.

        Dos três filhos que tinha – Robert, Léa e Erasmo – era com Erasmo que tinha mais contato, embora isso se resumisse mais à remessa de dinheiro para custear os cursos que ele vivia fazendo pela Europa.

        Robert era um bem sucedido analista de sistemas e trabalhava numa grande produtora de softwares, situada no Vale do Silício. Apesar da mãe rica, ele tinha total independência financeira, assim como Léa. Ela era engenheira agrônoma e renomada executiva de uma multinacional do ramo de látex e também não morava no Brasil.

        Tanto Léa como Robert ainda não haviam constituído família, viviam exclusivamente para o alcance de seus objetivos financeiros. Ambos viam na morte da mãe a chance de ficarem mais ricos do que já eram, e almejavam fazer disso um divisor de águas em suas vidas, para daí, segundo eles, conquistarem de maneira plena, o sentido da palavra felicidade.

        Erasmo era filho adotivo. Fora deixado por seu pai nas dependências da antiga Capemi, na Avenida Presidente Kennedy, no bairro Corte Oito. Do velho, sabe-se apenas que era um marinheiro reformado, e que após abandonar Erasmo, sumiu para sempre, singrando os mares de um mundo desconhecido, sem deixar rastros.

        A adoção de Erasmo se deu por meios informais. Dulce era amiga íntima da diretora da instituição, quando Erasmo fora deixado por lá. Ela já prevendo o que pudesse vir a acontecer nos anos que se seguiriam com a chegada de sua velhice, acolheu o menino como esperança de que futuramente tivesse alguém para ampará-la nos dias difíceis de sua existência. Logo dispensou ao pequeno todo carinho e toda espécie de mimos que uma criança pudesse ter. Mas todo amor direcionado a Erasminho, parecia nutrir cada vez mais o ódio ao olhar de seus irmãos. Tão logo foi anunciado oficialmente por Dulce como integrante permanente da família, passou a sofrer toda sorte de boicotes, e nas raras reuniões que tinham com parentes distantes, era comumente tratado como filho de empregada. O fato de sua cor negra contrastar com a de seus algozes, era algo sempre lembrado quando por algum motivo esgotava-se o arsenal de humilhações a que era submetido.

        Com o tempo a apatia abateu-se sobre ele, fazendo-o perder o gosto pelos estudos. Já adolescente, a primeira vez em que atentou para a canção Negro Gato, atravessou o viaduto, juntando-se a um grupo de Punks do Bairro Centenário, uma rapaziada totalmente diferente de tudo que ele conhecera até agora. Foi acolhido de maneira tão natural que acabou tendo uma crise existencial, pois até então não fazia idéia do significado das palavras amizade e tolerância. Não entendendo o sentido da coisa, acabou sendo deixado de lado pelo grupo de forma tão natural quanto fora aceito. Aos olhos da mãe era um garoto zeloso e amável. Contudo, no fundo odiava a velha com todas as suas forças. Nunca se cansava de amaldiçoar o dia em que fora adotado. Dona Dulce, sempre atenta a tudo que ocorria a sua volta, consolava-o dizendo em tom de confidência: “Quando eu morrer você terá o que merece, e isso reparará todas as injustiças, meu filho”.

        Com vergonha do sucesso profissional de Robert e Léa, Erasmo saiu pelo mundo em busca de respostas e conhecimento. Regularmente ligava para a mãe pedindo que ela depositasse mais dinheiro em sua conta, para bancar seus estudos. O que sempre era feito sem nenhum questionamento, por parte da velha senhora.

        Era uma daquelas já tradicionais tardes abafadas do verão caxiense. Após preparar o almoço, Dulce dirigiu-se a seu acervo e sacou um LP. Ao som da canção Detalhes, sentou-se no sofá como quem espera um elogio por ter exercido bem seu trabalho, e acabou adormecendo. Sonhou que participava de um cruzeiro marítimo, no qual Roberto Carlos era o comandante da embarcação. No sonho sentia-se estranha, pois uma desconhecida força não a deixava aproximar-se do Rei, até que entrou num camarote que mais parecia um camarim e encontrou Roberto vestido de almirante. Ele estava sentado de costas numa cadeira giratória e voltou-separa Dulce. Nesse momento ela viu nas feições dele a figura do pai de Erasmo. A face do Rei começou a cintilar feito uma estrela e esse brilho foi crescendo progressivamente até ficar mais intenso que mil sóis.

        Depois de encerrado o trabalho do Corpo de Bombeiros, a perícia constatou que o fogo que destruiu a cobertura de dona Dulce e parte do prédio, fora causado por um curto circuito devido ao superaquecimento do aparelho de som, enquanto ela cochilava.

        Na 59ª DP, o sargento PM Cascadura teve a incumbência de dar a notícia do falecimento de Dulce aos seus três filhos. E o fez de maneira tão fria que pareceria cruel, não fosse o fato de que, do outro lado da linha, ninguém havia se importado com isso.

        Ao saberem do ocorrido, Robert e Léa pegaram o primeiro vôo que puderam para o Brasil. Uma cópia do testamento já se encontrava nas mãos do renomado advogado Paulo Jaqueirão, que representava a família.

       Era uma manhã cinza em Praga, na Republica Tcheca, quando o telefone celular de Erasmo tocou. No quarto de um hotel barato ele acordava; na boca o gosto de cabo de guarda-chuva potencializava ainda mais a azia que o consumia. Olhou para o corpo nu da prostituta ucraniana que ainda dormia, e decidiu pegar de volta o dinheiro que havia perdido na noite passada; afinal de contas, achava que nada tinha a pagar, certo de que dera tanto prazer quanto recebera. Vestiu-se e passou pela loja do agiota israelense Isaac Berg, tomando emprestada certa quantia em dinheiro. Saiu de lá ouvindo como recomendação do velho judeu, para que desta vez apostasse num cavalo mais veloz.

        A grana mal deu para pegar um avião, e após viajar algumas horas na apertada classe econômica, desembarcou no aeroporto Tom Jobim. Negociou com um taxista local, e ficou combinado que com a grana que sobrara, o táxi poderia levá-lo apenas ao Shopping Center de Caxias. De lá, subiu o viaduto da Câmara Municipal a pé – teve até vontade de correr. Era o dia mais feliz de sua vida. Erasmo não via a hora de poder contemplar a expressão que seus “irmãos” fariam, quando soubessem o teor do testamento.

        Em frente ao Bar Mira Serra encontrou Paulo Jaqueirão, que o recebeu com um sorriso pitoresco, e a primeira pergunta de Erasmo foi:

– Onde estão Léa e Robert?

-Se mandaram a cerca de uma hora atrás.

– Ficaram satisfeitos?

– Saíram daqui decepcionados.

Erasmo sorriu vitoriosamente. Então Paulo entregou um papel nas mãos dele – o advogado parecia apressado. Erasmo, sem se ater ao documento, encarou Jaqueirão com um ar circunspecto e disse pausadamente:

– Paulo, nos conhecemos há muito tempo, você já livrou minha cara em vários momentos na vida…

– Sim, claro, as merdas que você sempre fez…

– Pois é, agora que tenho isso em minhas mãos, quero falar sério contigo, tomar atitudes que colocarão as coisas no lugar…

Jaqueirão deu as costas, entrou em seu sedã de luxo, abaixando o vidro:

– Talvez a gente ainda se encontre por aí. Disse, arrancando velozmente com o carro.

        Um grito de horror e ódio ecoou por toda a Praça Roberto Silveira. O que aquele homem em estado catatônico segurava em suas mãos, representava algo que ele jamais conseguiria compreender. Após sua raiva ter amassado e lançado ao chão o documento, ele desapareceu aglutinando-se à multidão e tomando sentido Mercado Municipal.

        No outro lado da rua, um cracudo que garimpava seu café da manhã na lixeira de uma pastelaria chinesa havia observado a cena, e por curiosidade atravessou a via: quis ver o que podia conter num simples papel, que tivesse o poder de causar tal reação em um ser humano.  Ao ler o que estava escrito, o pobre diabo falou com seus botões:

-Que babaca! O que esse trouxa tem a ver com a notícia de que Roberto Carlos herdou alguns milhões de uma tal de Dulce? O cara já é rico mesmo! Esse mundo anda muito louco. Concluiu, descendo o viaduto em direção à Vila Ideal.

Ricardo Villa Verde

http://www.compulsoresdepartida.blogspot.com.br


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