Paulo César do Espírito Santo era o nome do cara. Tinha a minha idade e morava no Parque Lafayette, num sobrado de esquina – Nilo Peçanha com Gonçalves Dias. Foi a mistura mais perfeita que já conheci de intelectual com delinquente. Bem nascido, seu pai era empresário em Petrópolis e o tio, deputado estadual por Caxias, com vários mandatos.

Gostava muito de ler, o que lhe permitia discutir diversos assuntos, e tinha um discurso contundente na defesa de suas idéias, muitas delas beirando o fascismo. Mas era um cara engraçado. No item profissão, se apresentava como relações públicas, embora eu não me lembre de vê-lo jamais exercendo tais funções ou qualquer outra atividade lícita. Vivia mesmo de armação.

Costumava dizer que boa parte das terras do bairro onde morava pertencera à sua família. Por conta disso, se apoderou de um terreno na Nilo Peçanha, vizinho àquele parque de diversões que sumiu recentemente do cenário caxiense. Ali, ele armou uma espécie de mafuá, misto de ferro-velho, boca de fumo e abatedouro. E era ali, também, que, em meio a uma porrada de tralhas, recebia os amigos, entre os quais me incluía, pra dar dois e bater papo. Vender maconha, ele vendia, sim, mas “só pros chegados” – como frisava sempre, entre um baseado e outro, que oferecia como amostra.

Numa das muitas idas à casa de Paulo César, descobri uma família que tinha um Doberman marrom. Era a primeira vez que eu via um cão daquela raça com esta cor. Como meu pai tinha uma cadela igual (mas preta, de nome Kelly), que estava no cio, resolvi sondar as possibilidades de um cruzamento. O adolescente que se apresentou como dono do animal concordou, desde que eu a deixasse lá por alguns dias. Fiquei de fazê-lo, na manhã seguinte.

O meu amigo, quando soube dessa história, prontificou-se a colaborar com o frete. Ele tinha um carro velho (Karmann-Ghia), que pegava muito bem no tranco e tinha quase sempre uma das portas (quando não as duas) emperrada. Combinamos, assim, que eu passaria pelo mafuá, por volta das 10. Mas, antes de pegar a cachorra em minha casa, passaríamos no local para confirmar o acasalamento.

Tudo saiu mais ou menos como combinado, só o que melou foi justamente o acasalamento. Pra começar, fui recebido pela mãe do adolescente, que já tinha conhecimento de tudo e queria “algumas informações” sobre a cadela. “Tem pedigri?”. Sim, foi a minha resposta, a mesma, aliás, para a pergunta seguinte: “Tem as orelhas operadas e o rabo tosado?”. Mas aí… não, a Kelly não era amestrada e a mulher fez um “Huummm!…” de reprovação. O cão dela o era e ela fez questão de comprovar. Mandou que o filho trouxesse o animal, no que foi atendida.

O menino mandou que o cachorro deitasse, e ele não obedeceu. Ordem reiterada, mas o bicho não lhe deu a mínima. O adolescente, então, deu de mão num porrete que se achava próximo e o fez cantar no lombo do Doberman. Aí, ele cedeu. Imediatamente me lembrei de alguns companheiros, que, em situação semelhante, revelaram no Dops suas atividades subversivas. Pra minha surpresa, ainda faltava a pergunta final. A mulher quis saber:

– Meu filho já combinou o preço com o senhor?

Diante da minha cara de meu Deus, que é isso? a criatura explicou que cobrava uma grana pela porra do seu cachorro. Algo em torno de 300 reais, na moeda da época. Fiquei pasmo. Foi quando Paulo César, que até então se mantivera à parte, encostado no carro, resolveu entrar na conversa. E a cena que se desenrolou, a partir daí, foi esta:

– Madame, a senhora vai me desculpar… eu não tenho cachorra… a minha participação nessa história é só fazer o carreto pro meu amigo. Mas, não acha que 300 pratas tá um pouco salgado, não?

A mulher:

– Que nada. Há quem cobre muito mais. Diz aí, meu filho: quanto é que estão cobrando por aí?

O menino:

– Ah, uns 500 reais.

Paulo César, arrematando:

– Ora, madame, a senhora vai me desculpar de novo. Mas, se eu tivesse 500 pau sobrando no meu bolso, neste momento, não iria patrocinar foda de cachorro. Quem ia foder era eu.